sábado, 11 de janeiro de 2025

Não me toque. Estamos em sala de aula, sabia?

 


Não me toque. Estamos em sala de aula, sabia?

Não. Não. Esse estranho título não se reporta à rejeição de alguém a toques de natureza erótica. Conquanto ocorra num ambiente escolar, a advertência é feita por um celular para o dono dele e diz respeito ao debate que se faz no país sobre o uso do celular em sala de aula. Prós e contra ao indefeso têm pra dar e vender nos meios de comunicação. Um dos contra ao uso – e o que me faz estar aqui – foi este falacioso aspeado cuja autora me abstenho de citá-la:

 “Embora a liberdade seja um direito fundamental garantido pelo artigo 227, essa liberdade deve ser exercida com responsabilidade, especialmente no contexto escolar, onde o uso de celulares pode interferir nos direitos dos outros alunos ao aprendizado e ao bem-estar. A regulamentação do uso de celulares nas escolas não visa restringir a liberdade dos estudantes, mas sim equilibrá-la com a responsabilidade de preservação do ambiente educacional e do bem-estar coletivo”.

Aspas com cheiro de autenticidade, não? Mas só o cheiro. O miolo é falácia pura. Preciso desmascará-la, ainda que

esteja jogando lenha na fogueira da discordância com uma antiga leitora, a inimiga íntima e anônima Y. Diz ela que virei esquerdista, daí minhas prosas terem perdido a capacidade de fabular e de humanizar, as vigas centrais da boa literatura: “Suas prosas ficaram por demais confusas, repetitivas, filosóficas e cheias de informações presunçosas, como se você fosse dono da verdade. Você é um chato de galocha, TC”.

Mas, incrível, a Y continua lendo a galocha do chato. Mudou-se pra terra do Milei, diz que lá tem escritores fantásticos, mas certas desavenças não respeitam distância, não é certo?

Bom. O miolo inverídico na defesa da proibição do celular. Naturalmente que, versados no senso crítico, você, leitor e leitora, já isolaram as palavras patrocinadoras da falácia. Mas não a minha inimiga íntima, a Y. A Y, gente, vive com a boca cheia de “letramento”. De fato, contextualizar leitura, escrita e social numa unidade harmônica de comunicação é uma beleza. Merece 9 isso que os teóricos da linguagem chamam de letramento. Só falta o senso crítico – que o chamo de questionamento – para levar o 10. Porque, vejam, integrar as diversas simbologias de um celular para uma comunicação eficiente, faceta do letramento, é uma coisa. Apertar a tecla curtir para uma comunicação infame é outra coisa. E só não a aperta quem aprendeu a questionar. E não ensinar a questionar é tremenda disfunção do ensino brasileiro. Função dele, exceções fora da fila, é aprovação, é titulação, é progressão, é distinção. E jactância.

É útil entender que a palavra tem duas caras. Ser falsa ou sincera vai depender da probidade ou da safadeza do falante ou do escrevente. O ensino brasileiro, mas não apenas ele, foi – e está sendo – incapaz de provar aos seus consumidores que a palavra é só, e tão somente, um instrumento de comunicação. A palavra não é ninguém. Ninguém é a palavra. A palavra é uma aparição. Ora de patifaria, ora de epifania. Este textinho, porém, não é um ensaio sobre a palavra. O que persigo é contextualizar as palavrinhas patrocinadoras da falácia argumentativa da proibição do celular.

Agora, gente, preciso da compreensão de vocês a fim de ilustrar a contextualização. Do contrário, a inimiga íntima Y vai soltar os cachorros pra cima de mim. Tudo começa com a palavra, querida, Y. Veja. Em algum instante indefinido, alguém falou assim: “Adolescentes com celular em sala de aula não dá certo. Vamos proibir”. Daí se sucederam reuniões, encontros, discussões, argumentos diversos e pimba: o inocente está proibido em muitas escolas brasileiras. Mas, mesmo de forte apelo contra o uso, existem alguns questionamentos a favor. Mais uma ilustração da força da palavra, Sra. Y. Veja. Também em algum instante indefinido, alguém falou assim pra outra pessoa: “Quem sou eu pra julgar você”. É chique falar assim, não? Essas palavras, querida Y, vêm atravessando anos e anos com zero questionamento. Dá a impressão de que esses falantes vivem numa enfermaria de dementes.

Força de expressão, dirá você. Não é força. É fraqueza. Fraqueza de argumentos, já que se acostumaram a nada questionar. Então fica mais cômodo se acomodar. Pode-se conviver neste mundo velho sem julgar? Como fugir dum perigo? Como escapar duma fofoquinha? Certos julgamentos cabeludos podem até ficar na cachola, mas que houve o julgamento houve. Engraçado é que os julgadores costumam falar assim: “A vida é feita de escolha. Viver é escolher”. Mas como escolher sem julgar?

Basta de ilustrações, querida Y. Acho que já estou enchendo o saco dos X. Vejamos, enfim, a expressão falaciosa de proibir o celular na sala de aula. Permita-me trazer lá de cima um trecho do aspeado falacioso:

“Embora a liberdade seja um direito fundamental garantido pelo artigo 227, essa liberdade deve ser exercida com responsabilidade, especialmente no contexto escolar”.

“Liberdade com responsabilidade”.

Desprazer em conhecê-la, Sra. Falácia. Liberdade é o bem supremo dos humanos. Liberdade não admite complementos, restrições, exceções. Liberdade é um atributo sagrado, intransferível. Ou você tem liberdade ou não tem. Foi com essa liberdade que chegamos ao mundo. Contudo, logo descobrimos que essa coisa de fazer o que der na telha não estava dando certo. Sair matando, estuprando, assaltando, nossa!  Aí colocamos um freio na liberdade. Chama-se legítimo o nome do abençoado freio. A liberdade ficou assim:

Liberdade é o grau de independência legítimo que um povo, uma nação ou um indivíduo elege como valor supremo.

Este miolo de quartinha é necessário, gente, já que preciso fundamentar a falácia do argumento contra o indefeso celular. Senão o falacioso serei eu.  

Bom. O que é legítimo? Legítimo é tudo aquilo que não se mete na liberdade dos outros. Esse é o princípio. E o que vai acontecendo de “não legítimo” os sistemas de leis vão atualizando e colocando a etiqueta de crime. É no vácuo do legítimo e não legítimo que o sacripanta - e alguns inocentes, sejamos justos - deita e rola. De um lado, ataca a liberdade alheia e diz que está só exercendo a sua liberdade. De outro, quer que o alheio abra mão da liberdade a fim de que se sujeite à vontade dele.

Pergunto: a garotada que fica com um não barulhento celular na sala de aula está se metendo na liberdade de alguém, mesmo que aqui acolá o dono ou a dona dele lhe dê uma dedadinha de paquera? O que o educador chama de liberdade com responsabilidade é ou não é a intenção de tolher liberdades a fim de colher atenção, que, não raro, não o faz por merecer?

Ufa! Não há que se falar, pois, em exercer liberdade com responsabilidade. O “dade” de responsabilidade é o mesmo de liberdade.

Essa é a verdade. Verdade suficiente para derrubar todos os discursos contra o moderno e inocente celular. Ocorre que outro discurso contra o indefeso tem um cheiro danado de discriminação. Falo do infame discernimento. Essa meninada não tem discernimento para usar o aparelho, alegam. Esse pessoal ignora a palavra propulsora do dia a dia. Ignora o interesse. Discernir é tomar partido por determinado interesse. É natural, sim, que entre uma aula sem graça e certas graças digitais, a galera tome partido pela última graça. É ou não é?

Ponha-se perante a meninada uma professora ou um professor vibrante, brilho no olhar, postura de autoridade, seguro no falar, essas coisas, e observem por quem a galera vai tomar partido. Nem precisa ser gata ou gato quem estiver de bata solene. Basta ter regalo.

Observem, observem, observem. Vejam a sala de aula cheia. Alguém haverá de se tocar:

É. Realmente. Discussão vazia essa do celular.

No 01 do 25,

TC.

TC?

Presente, professora

 

           


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