70
não é um número par
Festa dupla na minha casa:
lançamento de duas coletâneas de contos e meu aniversário. Vou cortar o bolo, o
Bião me abraça e diz que quer dar duas palavrinhas (conheça o azoreta Bião na
postagem a seguir, a Não quero sair daqui). Sobre o lançamento
das coletâneas, Coisas e Coisinhas, fiquem sabendo
que não vendi um mísero exemplar. O pessoal só quis saber de comer e de rir com
as presepadas do Bião. Peguei ar. Não vendo mais as coletâneas. Mas se alguém
aqui ficou tentado, basta falar comigo pelo zap (84) 98800-1610 que as troco
por PIX numa boa.
Apreciem agora as duas
palavrinhas do Bião:
“Meu primo Decente (Bião
chama todo mundo de Decente), não vou lhe dar os parabéns de aniversário. Você chegou
aos 70. Daí que seu futuro é sombrio, não merece aplausos. Aos 70, você não forma
par, Decente. Você é tão só um ímpar virador de chaves. Veja”:
Aí o peste falou como se estivesse
cantando, numa sacana entonação crescente e jocosa:
“Na idade dos 70 o homem
padece, porque envelhece, o cabelo embranquece, a surdez comparece, de tudo ele
esquece, a memória enfraquece, a vista escurece, o reumatismo aparece, a
barriga cresce, a bunda amolece, o saco desce, a piroca falece” ...
Imagine a algazarra,
gente. Puxada por mim, é claro. Achei por bem rebater com retórica a infame rima
do Bião. Afinal, estava lançando dois livros. Uma pitada de reflexão, filosofia,
erudição, essas coisas, deveria servir de propaganda do meu estilo literário. Saí-me
desta forma:
Primo Bião, nascer é aventura,
sobreviver é desafio, envelhecer é privilégio. Essa é a vida, cara. Aos 70, Bião,
já temos na cachola algumas verdades. Verdades que nos dão o privilégio de
assim se expressar:
Que é difícil fazer
alguém feliz, mas que é fácil fazê-lo triste.
Que é difícil dizer amo
você, mas que é fácil não dizer nada.
Que é difícil guardar o
amor, mas que é fácil perdê-lo.
Que é difícil enxergar o
bem da vida, mas que é fácil fechar os olhos e só avistar dela o mal.
Que é difícil agradecer ao
ontem, mas que é fácil viver o hoje.
Que é difícil fazer
alguém sorrir, mas que é fácil fazer alguém chorar.
Que é difícil se colocar
no lugar de alguém, mas que é fácil esperar que alguém se coloque no seu.
Se errou, peça desculpas,
Bião. É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado, Bião?
Se alguém errou com você,
perdoa-o, Bião. É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender, Bião?
Se sente alguma coisa,
fale, Bião. É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar quem
queira escutar você, Bião?
Se alguém reclamar de você,
escute-o, Bião. É difícil escutar? Mas quem disse que é fácil escutar você,
Bião?
Se alguém o ama, ame-o de
volta, Bião. É difícil se entregar? Mas quem disse que é fácil ser feliz, Bião?
Nesse ponto, percebo
o pessoal um tanto circunspecto, breco a erudição e me preparo para os autógrafos. Três gatos pingados começam a formar uma fila. Aí o Bião faz a risadagem voltar com a continuação dos anos 70. O infeliz continua assim:“... A piroca falece, quando
isso acontece, o coitado enlouquece, até reza uma prece, pra ver se endurece, o
paulo obedece, quando anoitece, é que ele entristece, a mulher oferece, ele só
agradece, porque não carece”.
Aqui, gente, a filinha desaparece
e volta pra galhofa. Desaparece e, como falei, desisto do lançamento. Desisto do
lançamento e me dano a beijar cerveja. Lá pras tantas, com todo mundo mais pra
lá do que pra cá, faço a galera chorar com este poema da Cecília Meireles:
Eu não tinha este rosto
de hoje,
Assim calmo, assim
triste, assim magro,
Nem estes olhos tão
vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos
sem força,
Tão paradas e frias e
mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa,
tão fácil:
Em que espelho ficou
perdida a minha face?
O lançamento que não
houve terminou com essa melancolia, pessoal. Mas preciso falar uma coisinha. A rima
dos anos setenta não é do Bião. O praga é um impostor. A deliciosa rima
chama-se a idade do “S”. É de Ary Toledo (1937-2024). Tá no YouTube. Uma delícia,
pessoal.
No 12 do 24
Saudações tricolores não
rebaixadas,
TC
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