terça-feira, 10 de dezembro de 2024

70 não é um número par

 


70 não é um número par

Festa dupla na minha casa: lançamento de duas coletâneas de contos e meu aniversário. Vou cortar o bolo, o Bião me abraça e diz que quer dar duas palavrinhas (conheça o azoreta Bião na postagem a seguir, a Não quero sair daqui). Sobre o lançamento das coletâneas, Coisas e Coisinhas, fiquem sabendo que não vendi um mísero exemplar. O pessoal só quis saber de comer e de rir com as presepadas do Bião. Peguei ar. Não vendo mais as coletâneas. Mas se alguém aqui ficou tentado, basta falar comigo pelo zap (84) 98800-1610 que as troco por PIX numa boa.

Apreciem agora as duas palavrinhas do Bião:

“Meu primo Decente (Bião chama todo mundo de Decente), não vou lhe dar os parabéns de aniversário. Você chegou aos 70. Daí que seu futuro é sombrio, não merece aplausos. Aos 70, você não forma par, Decente. Você é tão só um ímpar virador de chaves. Veja”:

Aí o peste falou como se estivesse cantando, numa sacana entonação crescente e jocosa:

“Na idade dos 70 o homem padece, porque envelhece, o cabelo embranquece, a surdez comparece, de tudo ele esquece, a memória enfraquece, a vista escurece, o reumatismo aparece, a barriga cresce, a bunda amolece, o saco desce, a piroca falece” ...

Imagine a algazarra, gente. Puxada por mim, é claro. Achei por bem rebater com retórica a infame rima do Bião. Afinal, estava lançando dois livros. Uma pitada de reflexão, filosofia, erudição, essas coisas, deveria servir de propaganda do meu estilo literário. Saí-me desta forma:

Primo Bião, nascer é aventura, sobreviver é desafio, envelhecer é privilégio. Essa é a vida, cara. Aos 70, Bião, já temos na cachola algumas verdades. Verdades que nos dão o privilégio de assim se expressar:

Que é difícil fazer alguém feliz, mas que é fácil fazê-lo triste.

Que é difícil dizer amo você, mas que é fácil não dizer nada.

Que é difícil guardar o amor, mas que é fácil perdê-lo.

Que é difícil enxergar o bem da vida, mas que é fácil fechar os olhos e só avistar dela o mal.

Que é difícil agradecer ao ontem, mas que é fácil viver o hoje.

Que é difícil fazer alguém sorrir, mas que é fácil fazer alguém chorar.

Que é difícil se colocar no lugar de alguém, mas que é fácil esperar que alguém se coloque no seu.

Se errou, peça desculpas, Bião. É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado, Bião?

Se alguém errou com você, perdoa-o, Bião. É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender, Bião?

Se sente alguma coisa, fale, Bião. É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar quem queira escutar você, Bião?

Se alguém reclamar de você, escute-o, Bião. É difícil escutar? Mas quem disse que é fácil escutar você, Bião?

Se alguém o ama, ame-o de volta, Bião. É difícil se entregar? Mas quem disse que é fácil ser feliz, Bião?

Nesse ponto, percebo

o pessoal um tanto circunspecto, breco a erudição e me preparo para os autógrafos. Três gatos pingados começam a formar uma fila. Aí o Bião faz a risadagem voltar com a continuação dos anos 70. O infeliz continua assim:

“... A piroca falece, quando isso acontece, o coitado enlouquece, até reza uma prece, pra ver se endurece, o paulo obedece, quando anoitece, é que ele entristece, a mulher oferece, ele só agradece, porque não carece”.

Aqui, gente, a filinha desaparece e volta pra galhofa. Desaparece e, como falei, desisto do lançamento. Desisto do lançamento e me dano a beijar cerveja. Lá pras tantas, com todo mundo mais pra lá do que pra cá, faço a galera chorar com este poema da Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

Em que espelho ficou perdida a minha face?

 

O lançamento que não houve terminou com essa melancolia, pessoal. Mas preciso falar uma coisinha. A rima dos anos setenta não é do Bião. O praga é um impostor. A deliciosa rima chama-se a idade do “S”. É de Ary Toledo (1937-2024). Tá no YouTube. Uma delícia, pessoal.

 

No 12 do 24

Saudações tricolores não rebaixadas,

TC

 


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