sábado, 3 de abril de 2021

ISSO AQUI PRA NÓS

 



ISSO AQUI PRA NÓS

 

Chega de esconder sentimentos.

Não quero que me leia mais.

Estaria mentindo se dissesse que
Vejo você como suprassumo da compreensão ficcional.
Tenha certeza de que

Nada, nem mesmo o meu tijolão, o “Por uma Taça de Vinho”, foi em vão.
Percebo muito bem, bem mesmo, que, que, que...

Que é pixititinha a sua paciência com livros.
Você não é perspicaz em leitura e

Jamais eu poderia afirmar que
Nutro por você uma grande admiração literária.
Sinto cada vez mais que
Vou cancelar você das minhas redes sociais.
E nunca jamais usarei a seguinte frase:
Você é dez em alfabetização mental.
Preciso lhe dizer a verdade.

Chega de esconder sentimentos.

                        FIM

Calma, vizinha. Calma, gente. Muita calma nesta hora. Leia de baixo pra cima (Chega de esconder sentimentos..). Ah, bom!

 

COMPROVAÇÃO


 

Comprove ser realmente de baixo pra cima o seu perfil. Faço o convite para ler a prosa até o fim. Comprove não ser realmente pixititinha a sua paciência com a leitura. Tenho uma surpresa guardadinha lá. Combinado?

O mérito dessa criação, gente, não é meu. O poema rola há tempos na internet. Chama-se “Não te amo mais”. É de autor desconhecido. Mas há quem alegue ter saído da imaginação de Clarice Lispector. Fiz tão somente jogar na moldura dele uma propagandazinha de meu recente romance, “Por uma Taça de Vinho”. Mas a propaganda não veio do nada. Acompanhe o processo.

De cara, é bom falar de certa maldição alojada na mente de escrevinhadores desmiolados: o apego de personagens. Muitos personagens passam um tempão azucrinando o seu infeliz criador. No meu caso é a Sylvia, protagonista da “Taça de Vinho”. Ela não larga de meu pé nem a pau. Sylvia é colombiana. Tem 26 anos. É a principal executiva do Vobel, empreendimento do brasileiro Antônio. E namorada dele. Sylvia é a perspicácia em pessoa.

No sábado, 27 do 3, a Sylvia foi implacável com este pobre coitado. Deu-se assim.

Vou me vacinar contra a tirana no drive do Palácio dos Esportes (velhinho gagá é você, cara). Duas e meia da tarde

, pego a fila de carros na Prudente de Morais, tão logo saio da Rua Mossoró. “Beleza”, exclama a Sylvia, não sei se tirando sarro comigo ou se empolgada em virtude do motorizado contexto de esperança. Sylvia está no meu colo, gente. Explico. Estou levando um exemplar da “Taça de Vinho” a fim de presentear a quem me vacinar.

“Dez pra ciência por ter conseguido a vacina em tempo tão curto”, tagarelou ela.

Falou e se pôs a choramingar. Chora por tudo a Sylvia. Ela estava revivendo as apocalípticas cenas por si profetizadas. E a profecia passava por vacina. Pela falta de vacina para extinguir a estupidez humana, pra ser mais específico.

Meu carro rodava 5 segundos e ficava 5 minutos parado. E eu não parava de rodar na cabeça as cenas do fim do mundo descritas pela Sylvia. Surreal o nosso encontro, gente. Ocorreu no fim do ano passado:

Estou na área, numa rede, meio deitado, meio sentado, meio torto. Digito a estupidez do presidente Bolsonaro. Nisso chega a Sylvia, dá breve corujada no texto e deita-se no chão, de papo pra cima. Sylvia adora essa posição. Deita-se e o excesso de beleza dana-se a esborrar sensualidade (Sylvia está de bermuda, seu aloprado). Sylvia se expressa assim:

Está certíssimo quanto à estupidez do presidente. Mas você também está sendo estúpido. Está arrebentando a coluna escrevendo empenado dessa forma. Surpresa alguma nisso, meu rapaz. Você e o Bolsonaro apenas comprovam a dubiedade do Homo sapiens: inteligência colossal e burrice descomunal. E, assim como o Homo sapiens, não têm projetos de vida. Se você tivesse, veria o futuro e escreveria direito. Se o Bolsonaro tivesse, veria o futuro e governaria direito. Se o Homo sapiens tivesse, veria o futuro e viveria direito. Essa dubiedade, essa dúvida, o ora uma coisa, ora outra, meu rapaz, pariu a estupidez. Mas, me diga, meu mancebo, sabe quem primeiro viu a insegurança dos sapiens?

Pergunta de prova, minha moça. Sei lá. Não sou páreo para a sua sagacidade.

O Shakespeare, meu rapaz, em mil quinhentos e tanto. O “Ser ou não ser, eis a questão” foi a expressão usada para exibir a insegurança sapiens. Existir ou não existir? Viver ou morrer? Mas, finalmente, decidimos. A estupidez ganhou. Decidimos morrer. Posso pôr você e o Bolsonaro na discussão, mas  não vou perder tempo com dois pés-rapados como vocês. Melhor ilustrar a coisa com a humanidade mesmo. Falo primeiro da burrice ou da inteligência?

Da inteligência, minha moça.

Então, tá.

Começo falando do maior sinal de inteligência dos sapiens. A ficção, meu inocente rapaz. Você precisa ler “Uma breve história da humanidade”, obra do mestre Harari. Observe o aperitivo de contracapa: “Somos a única espécie a acreditar em coisas inexistentes na natureza, como Estados, dinheiro e direitos humanos”.

A ficção se equilibra num tripé de “C”, meu rapaz: convenção, confiança, consenso.

A primeira ficção do Homo sapiens chama-se Pessoa Jurídica. Imagine a firma Lojas Riachuelo, do Sr. Flávio Rocha. Agora imagine a correria dele para administrar os pepinos dela. Nossa. Cansei. Então. A Pessoa jurídica dele administra tudo. E ele, a pessoa física, administra tudo dela. Sem sair de sua sala, se esse for o sentimento.

Mas as incontáveis transações comerciais entre as Pessoas Jurídicas? Como fica tal complexidade?

Os sapiens acharam a solução. Chama-se Sistema Bancário. Esse é dez, meu rapaz. É tudo na base da confiança. Confiança traduzida em papéis e mais papéis, senhas e mais senhas. Debita aqui, credita ali e pimba. Ficção pura. Ninguém pega em dinheiro de ninguém.

Mas se der rolo no meio disso? Existem os espertinhos, não? Como resolver?

Aqui a inteligência do Homo sapiens se excedeu. Chama-se Sistema de Justiça o meio de limpar os rolos dos espertinhos. Ofícios, intimações, sentenças, acórdãos. Suntuosidade, vocabulário específico, paletós. Ficção pra proibir, liberar, prender, soltar.

Essa é a revolucionária ficção, meu rapaz. Revolucionária, porquanto tudo de nossa vida prática, digamos assim, tudo mesmo, absolutamente tudo, devemos à ficção. É a ficção quem organiza o nosso processo de viver. Perdão. Perdão. Tudo menos um. Absolutamente tudo menos um.

Agora veja a burrice dos sapiens, meu rapaz.

Não terem projeto de vida. Já falei, não? Nem sequer o de conservar a própria espécie. Tivessem, não sairiam se matando, vendo conflitos em qualquer discordância. Tivessem, respeitar-se-iam. Tivessem, não deixariam irmãos morrerem de fome. Tivessem... Ah, meu rapaz. Vejamos a burrice fatal. A vitória da estupidez. A resposta à questão formulada pelo Shakespeare.

Imagine a estupidez causando incontornável acidente ambiental na Amazônia brasileira. Esse acidente cobrirá o mundo de invisível e broxante nuvem tóxica. Broxante, haja vista a desgraçada invadir o couro cabeludo de homens e mulheres e daí tomar de conta da imaginação libidinosa. A ciência arranca o cabelo a procura de uma vacina. Não acha. Não tem como criar vacina para males psíquicos. Então, meu rapaz, sem libido, a produção de cópias sapiens vai a zero. E sem mão-de-obra no mundo o mundo será zerado. Concorda comigo? Pois! Pois veja o povo enlouquecendo, o mundo apodrecendo, a população morrendo. E a estupidez se comprazendo.

Ainda falei um “Tenha dó, minha moça. Sangue de Cristo tem poder”. Mas não convém citar a longa resposta. Bom. Sinto um sacolejo na sacola do livro. Sylvia está rindo. Vejo logo a causa. O Atheneu. O colégio mudara-lhe o astral. Pois é. A fila fluía melhor. Eu estava agora na Rua Jundiaí. Pegaria a Campos Sales e daí a Trairi, a rua onde fica o drive da vacinação.

Sylvia, gente, é obcecada por educação. É a tara dela. Uma delas, quero dizer. Sylvia chega a chorar em razão do número de analfabetos no seu país, Colômbia, e no do Brasil. Chora, vira fera e fica pornográfica. Diz ela:

A racionalidade humana só se completa com a educação. Educação é tudo na vida. Absolutamente tudo. Sem educação de qualidade, o senso crítico fica capenga, a consciência fica caolha, a vida fica castrada. É dever do Estado, essa bela ficção, evitar tais distorções. Mas os filhos das putas governantes só fazem o protocolar faz de conta da Educação. Porra! E certas sociedades são coniventes, porquanto não obrigam os covardes governantes a cumprir o dever moral de bem educar. Conivente talvez não seja o termo correto, visto componentes dessas sociedades viverem mostrando um rebenquinho aos infelizes analfabetos. O analfabeto é cidadão de 2ª classe. E é humilhado de 1ª classe. É escravo do poder. Pior, nem vê a chibata batendo forte na autoestima, posto o próprio analfabetismo lhe vedar os olhos para infâmia. Porra!

Sylvia elaborou intricado projeto de geografia humana com a finalidade de acabar com o analfabetismo na Colômbia e no Brasil. O projeto começa mostrando os segmentos do analfabetismo: analfabeto oficial, analfabeto funcional e analfabeto mental. Essa expressão, aliás, a Sylvia não tira da boca. Essa e as palavras interesse, contexto e costume, o seu famoso ICC. Também não tira consciência e conexão. E sexo. O ICC, segundo ela, constitui a fórmula da compreensão sapiens. Sylvia é categórica: em todas as atividades humanas o ICC está presente. Todas mesmo. Interesse autêntico ou escuso; contexto natural ou encoberto; costume respeitável ou desprezível. Não interessa. Convivem com os humanos. Sylvia costuma ficar um tempão discorrendo sobre o alfabetizado mental. O alfabetizado mental é fã do foco, escuta em vez de ouvir, enxerga em vez de ver. O alfabetizado mental é arguto, perspicaz, é... Aí ela fica empurrando adjetivos concorrentes. Mas, no fundo, no fundo, a Sylvia está dizendo: O alfabetizado mental não tem preguiça de pensar. Ele pensa, pensa, pensa, pensa....

Então. Sylvia acaba vitoriosa no seu ambicioso projeto. Bela tarde, na areia da praia, lê a notícia no celular: Brasil e Colômbia zeravam o analfabetismo:

“Ah, meu homem. Chegou o dia. Valeu a pena. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, meu homem. Consiga uma taça de vinho pra mim. Não me interessa marca, procedência, sabor. Consiga, meu homem. Logo, rápido. Por favor”.

Bom. Estou pertinho de me vacinar. Tem três carros na minha frente. Estou na fila 2. Ponho-me a matutar. Sylvia está coberta de razão a respeito do ICC. Estamos ali por interesse, num contexto de esperança e ansiosos pelo produto final do costume. A vacina, é bom lembrar, é fruto de científicos costumes. Costume de pesquisar, testar, avaliar, simular. Chega a minha vez. Cinco horas da tarde. Abro a porta do carro. A estrela de todo o processo me vacina. Não tive medo. Ela está acostumada a fazer aquilo. Pergunto-lhe o nome. Pego o livro e escrevo a dedicatória:

“Pra você, Francleide, este “Por uma Taça de Vinho”. A taça não quebra. Foi feita de empatia. Tim-tim”.

Vim pra casa. Mas ouvi um tchau! Voz limpa. Não era voz de máscara.

 

Chegou aqui. Ufa!

Vejamos a surpresa. Quero saber se você joga no time dos alfabetizados mentais. Como está a sua perspicácia? O poema serviu de apronto. Vamos ao jogo.

Jogada 1. De caráter filosófico. Palavras da Sylvia:

“Essa é a revolucionária ficção, meu rapaz. Revolucionária, porquanto tudo de nossa vida prática, digamos assim, tudo mesmo, absolutamente tudo, devemos à ficção. É a ficção quem organiza o nosso processo de viver. Perdão. Perdão. Tudo menos um. Absolutamente tudo menos um”.

            Quem é o menos um, nobríssimos e nobríssimas?

            Jogada 2. De cunho gramatical, redacional, digamos assim. O texto apresenta uma atipicidade. Não truncou a compreensão, é certo, mas também é certo que é incomum redigirmos dessa forma no dia a dia.

Então tá combinado. Se tirar um dez, peço que a Francleide vacine você. Zero, terá que recomendar a Taça de Vinho a alguém. Pode responder nos comentários aqui embaixo ou pelo Zap, OK?

“Tião fica espichado numa rede, escreve bobagens do tamanho dela, e ainda quer envolver a gente nas babaquices dele. Pensa que a gente vive vagabundando. A gente trabalha, meu.”.

Estou escutando alguém falando assim. Juro. E concordo plenamente. Exceto com o “vagabundando”, é claro. Mas me permita um pitaco: trabalhar não é tudo na vida. Ler e se divertir faz parte dela. Viver emburrado dificulta a nossa missão aqui. Palavras de quem já tomou a vacina, meu. A propósito de vacina e vida, cabe aqui o aforismo, do Quintana, acho: “Nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio”. Ou o meu: Nascer é anuência, viver é consciência, envelhecer é ciência.

 

Natal. 04 do 21,

TC

Té mais.

Cuide-se 


2 comentários:

Unknown disse...

O senhor escreveu enquanto esperava a sua vez de sentir a picada da vacina? A fila estava grande em?!!!

Unknown disse...

Meu caro amigo Tião. Você tem um senso de criatividade magnífico. Acredito que sua mente seja fotográfica. Capaz de captar e armazenar todos os momentos nos mínimos detalhes,para em seguida descrever a realidade dos momentos vividos, claro, com a sua pitada genial de ficção. Grande abraço.