JÚLIA,
A DANADA
Deu mais uma olhada no espelho, aprovou-se bonito,
acariciou o serradão da barba, desceu para a recepção do hotel. Fez uma
cerinha, mandou a recepcionista solicitar um táxi, sentou-se e ficou esperando,
de minuto em minuto dando uma corujada na jovem.
Felipe é
bonitão, que o diga o olhar lânguido da atendente, e está viajando a serviço.
Felipe adora essas viagens, porquanto tem a oportunidade de exercitar o lado
boêmio. Boemia impensável na pequena cidade onde mora e que encontra o pico numa
suíte de motel.
Nosso amigo é
casado, diz amar a esposa, mas... Enfim...
Felipe é
esquisitão. Não adianta a mulher assediá-lo - a exemplo da recepcionista e da
moça com quem compartilhou o café da manhã - que se faz de desentendido. O
negócio dele é garota de programa. Chega ao hotel, pega o jornal e haja
telefonema. Hoje marcara encontro com Júlia, a tesudona, segundo o jornal, no
Opinião Bar:
“Seu táxi,
senhor. Tenha uma boa noite”, disse a atendente, aprimorando o sorriso e
caprichando no boa-noite.
O luxuoso
Opinião Bar é altamente democrático. Percebe-se pela vestimenta da clientela:
de chiques paletós a rústicos calções, de esmerados longos a singelas bermudas.
Majestoso, assim o classificou Felipe. Mas alguém o acha modesto; outros,
cafona. Alguns não o adjetiva... Mas... Enfim...
O traje da
moça batia com a descrição virtual. Não pode, pensou Felipe, admirado com
tamanha beleza. Nossa! É linda demais. Demais, não tem pinta alguma de garota
de programa. Felipe chegara dez minutos atrasado e a observava sem que Júlia
percebesse. Essa era a percepção de Felipe até o celular vibrar:
- Tô vendo
você. Não veio com as vestes combinadas, mas o reconheci, gatão. Tô na quinta
mesa depois do piano, amor.
- Quê?!
- Quinta mesa
depois do piano. Mas vou apanhá-lo antes que mude de opinião. Trouxe o negócio?
- Quê?!
Negócio? Que
negócio, meu Deus! É fria! Caí numa cilada. Essa dona deve estar com alguém.
Vão me assaltar. Estará ela me confundindo com algum traficante?
Felipe
matutava, Júlia se aproximava. Indeciso, Felipe suspirou, deliciando-se com o
rebolado da deusa loura.
Medroso, quis
correr. Quis, mas... Enfim...
Beijaram-se,
ainda que os básicos, e foram para a mesa. Sentaram-se de frente pro outro.
- Nossa! Você
é a mulher mais bela que já vi. Você é a Júlia, não?
- Júlia? Ah,
desculpe. Júlia foi o nome que lhe dei. É meu nome de guerra. Pra você, Felipe,
posso me abrir. Com palavras e literalmente mais tarde, espero. Meu nome de
batismo é Valdecy, com ípsilon.
- Quê?!
Você é...
- Calma,
homem. Valdecy, mas sou mulher oficial. Vamos nos acomodar naquela mesa dos
fundos que lhe mostro o selo original. Tô sem calcinha, Felipe.
- Quê?!
Júlia caiu na
risada com o queixo caído de Felipe. Agora, apalermado mesmo Felipe ficou
quando Júlia acenou para um apalitozado, com jeitão de gerente, pediu que ele
fosse ao escritório e pegasse uma garrafa de vinho.
- Que foi,
Felipe?
- Você é...
Falou tão, tão autoritária. Você é a dona...
- Sou um
bocado de coisas, Felipe. Mudo de acordo com as circunstâncias. Isso não
significa que seja marionete. Sou tão somente realista, opositora da simulação,
aliada da conjuntura. No momento, sou sua garota de programa. Mas sou a dona do
Opinião, sim. Temos algo em comum, Felipe. Vamos nos dar bem na cama, pois
somos bi...
- Que?!
Nessas alturas,
Felipe estava doido para fugir da amalucada Júlia. Ou essa mulher é maluca ou
isso é uma pegadinha da tevê, pensava o nervoso Felipe. E o negócio? Ela me
perguntou se eu trouxe o negócio. Tiro essa história a limpo e me mando:
- E o negócio,
Júlia? Você perguntou se eu trouxe o negócio. Que negócio que é? Outra
coisinha. Sou macho todo, não tem essa de bissexual não Valdecy, digo, Júlia.
- O tal
negócio foi só uma brincadeira a fim de deixá-lo alerta. Sossega, Felipe. Não
percebe que estou a manipulá-lo, amor? Mas que é bissexual, ah isso você é meu
amigo. Outra coisinha também. Só vou pra cama se você assumir a bissexualidade.
Mostre que é plural. Você não é você. São seus comportamentos, cara. Algumas
pessoas não mudam. Elas simplesmente nunca foram o que os indivíduos pensavam.
Vai confirmar ou desmentir essa tese, Felipe?
Deixe de ser
opinioso, homem!
Júlia falava e
derramava mulher por todos os lugares. Principalmente quando se afastou um
pouquinho, cruzou as pernas e escancarou a autenticidade do ISO 69. Haveria de
nascer o cristão para não se render a argumentos tão bem detalhados.
Besteira.
Bissexualidade é uma simples palavra, avaliou Felipe, prestes a ceder. De mais
a mais, só não muda o papagaio, porque não tem língua, e o burro, porque burro
é. Apesar da avaliação positiva, o cabreiro Felipe ainda titubeou ao ser
beijado e ao ouvir a voz da apaixonada Júlia:
- Nada de
motel. Iremos para o meu apartamento, aqui em cima. Vamos subir, Felipe.
- Mas... Sabe,
Júlia... Eu... Enfim...
Mas subiram,
enfim.
Lá pras
tantas, porém, depois dos “nossa!, vai!, ui!...”
- Que??!!
- Oh, Felipe.
Relaxe, amor.
Até outro dia,
Tião
2 comentários:
Como diz um colega nosso: Júlia ou Valdecy que eu falo, é Daniela Mercury que eu digo.E a Suplicy tava certa: melhor relaxar.
A Júlia é boa de negócio, heim, meu? Muito legal!!!
Boa tarde, meu caro. Segue mais um versinho:
Eu sempre ouvia de um amigo meu
Que as quatro maravilhas são três
Eu achava isso uma estupidez
Mas acabei achando muita graça
As três prá ele são mulher e cachaça
Se tem outras ele não tem certeza
Mulher na cama e bebida na mesa
Quem não queria essa vida todo dia
Se tivesse uma agora eu comia/bebia
Pois a coisa é da Santa Natureza
Sds,
Zé Alves
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