QUÊ?!
Gosto de tomar uma cervejinha, sou fumante, leio 34
minutos por dia, no mínimo. E diariamente escrevo, ou melhor, redijo, por
também no mínimo, 38 minutos. Loucura, não?
Driblo a
cerveja numa boa, de tempos em tempos dou um banho de cuia no cigarro, nos
livros costumo aplicar umas canetadas, e na escrita... Bom, a escrita é caixão
e vela preta.
A marcação é
cerrada, gente. Não consigo me livrar. Já tenho dois livros de
besteiradas. O primeiro, A Senhora
Dois, produção independente, tomei na tampa com mil reais. O segundo, o
Intuitor Bião, edição semi-independente, empatei. O primeiro,
embora tijolão, é bom. O segundo, simples tijolinho, é péssimo.
Esse nariz de
cera (não sou jornalista não, pessoal) é para anunciar meu internamento.
Masoquista todo, acabo de botar o ponto final na última idiotice. Começa pelo
nome do bicho: “QUÊ?! Agora, esse só sai daqui se alguém se interessar. Mandei
a sinopse para algumas editoras. Se quiserem publicar, beleza. Senão, azar
delas, pois terão perdido uma história supimpa.
Vou fazer um
copiar/colar da primeira página, mas deixe-me dar uma informação sobre o
título, o “Quê?!” O romance foi escrito em 126 páginas do word, tamanho 12, com
66.301 palavras. Mas, a exemplo deste escrevinhado, não usei o que. Tampouco o
porque. Há o que, sim, desculpem. Existem 66 “Quê?!”, assim escritos, formando
parágrafos isolados. Eles transmitem estados mentais de variadas matizes, tais
como contentamento, medo etc.
Tome-se como
ilustração este fato. A delegada está no apartamento com Artur, fica excitada,
quer logo transar. Algema Artur, algema-se e caem na cama. O “cego” Paulinho,
desconfiado de quem a delegada desconfia, entra no apartamento, senta-se perto
do frigobar, põe uma pistola em cada mão
e espera o casal sair debaixo do lençol.
A delegada apoia a cabeça no espelho da cama:
- Quê?!
- Levantem os
braços bem devagarzinho. Não hesitarei em atirar, delegada.
Os amantes
obedecem:
- Quê?!
Minha nossa!
Como conseguiram...
A patética
cena termina em risadeira, embora de armas apontadas, e...
Quê?!
Você é editor
e não quer os originais?
Pois diga!
Quer?
Então se
comunique pelo comentário. Se preferir, use o tcarneirosilva@gmail.com.
Leiam a
primeira lauda do Quê?!
1- DILEMAS
“O café tá no fogo, Feitosa. Vai derramar, amor”,
gemeu Sandrinha, num graveto de voz, afogueada toda, mas sem fazer a menor
menção de apagar o fogo.
Sandrinha
acariciou a barba do marido e perguntou:
— O morta-fome
de Seu Zé não faz um vale não, Feitosa? Dá uma pena ver a nossa filha
ressonando desse jeito e não fazer nada. Com cem cruéis eu resolvia o problema.
Ia a Cristal, ficava no apartamento da tia Jacinta e consultava a menina no
hospital infantil. Se tivermos sorte, a Luíza entra logo na fila da operação.
A adenoide de
Luíza se agravara havia um mês, mas Sandrinha tinha vergonha de pedir ajuda ao
irmão, Inácio. O espalhafatoso Inácio vivia bem e gostava de ajudar,
especialmente uma pessoa da família. Mas de tanto Inácio socorrê-los, Sandrinha
sentia-se encabulada de falar sobre a doença da filha. Torcia para ele tomar
conhecimento por outros meios. Inácio faria uma zoada e mandaria Sandrinha
providenciar o tratamento.
Certos
indivíduos são engraçados. Esperam receber sem pedir, como se isso sempre fosse
possível, e não enxergam no ato de dar a primeira forma de receber. Os
envergonhados não pedem, daí não recebem. Os sovinas não se doam, por isso não
se recebem. A espera ficava mais esquisita em relação a Sandrinha, pois a
timidez era inimiga da naturalidade dela.
Na visão de
Feitosa, o jeito alegre de Sandrinha era responsável pela situação financeira
da família. Ciumento, fazia cara feia para as ofertas de trabalho dirigidas à
mulher. Como se extroversão rimasse com traição. Inácio já se desentendera com
o cunhado por causa disso. Inácio queria a irmã na gerência do bar/restaurante
dele, o Panegírico Bar, porém Feitosa não concordava.
Se Inácio
chamar a Sandrinha de novo, vou concordar na hora, pensou Feitosa, alisando o
cabelo da esposa.
— Tá maluca?
Cem cruéis? Só de passagem é noventa, Sandrinha. E os ônibus lá em Cristal? E
os remédios? Precisa de pelo menos cento e cinquenta. Vou falar com Seu Zé
Antônio. Ele é legal. Está sendo injusta chamando Seu Zé Antônio de morta-fome,
Sandrinha.
Essa lamúria
ocorria na cama. Sandrinha e Feitosa assistiam à televisão. Ou melhor, olhavam
para a tevê, posto a conversa lhes tirar a concentração. Luíza, cinco anos,
ressonava ao lado, na rede.
— Tu devia ter
falado com a Gorete. Gorete é rica. Se quiser, ela paga a cirurgia da Luíza na
hora.
Sandrinha
ficou pensativa. Não podia falar da conversa com Gorete. Optou pela
desconversa:
— Era, homem.
Mas não deu tempo de conversar a respeito disso. Tão logo terminou o leilão a
Gorete se mandou com o namorado. Ela me deu o número do celular. Quando criar
coragem eu ligo.
Sandrinha não
podia revelar a conversa pelo seguinte motivo: tinha de sobra o dinheiro do
tratamento de Luíza: dez mil cruéis. E quem tinha lhe dado, fizera uma semana,
fora justamente a rica Gorete. Sandrinha não podia falar do presente, senão as
circunstâncias a tornariam desavergonhada, a um passo de pôr no lixo o diploma
da fidelidade.
Demanhãzinha
confesso tudo ao Feitosa e faremos a operação da Luíza. Chega de adiamento.
“Gorete me deu a grana, mas eu pretendia fazer uma surpresa, Feitosa”. Direi
assim. Devia aproveitar o momento e...
- E se
tivermos outro filho, Feitosa! Em nove meses estaremos pegando o auxílio do
Governo. Já dá pra sair do aperto.
— Está
brincando, não é, Sandrinha? A gente sai, mas com pouquinho tempo o aperto
volta. Tu vai ter outro menino, mais outro, mais outro. Essa não é a solução,
Sandrinha. Tu vai...
Feitosa cortou
a frase e começou a rir. Mesmo desconhecendo o motivo, Sandrinha imitou a
risada do marido.
“Eu vou...”,
conseguiu articular.
“Tu vai só
empurrar o problema com a barriga, Sandrinha”, completou Feitosa. Falou e
começou a enxugar as lágrimas de riso, filhotas do grávido trocadilho.
Sandrinha não
deixou por menos e replicou:
— Vou dar e
receber, Feitosa. Não só recebo se der?
“É, sim
senhora”, respondeu Feitosa, fazendo cócegas na patroa. Controlado o riso,
Feitosa comentou:
- Escuta,
Sandrinha. Sabe o Pedrão?
— Sei. O...
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