A CARTA DA HANNAH E O LIVRO DO TIÃO
Li no UOL: Hannah
Brencher, norte-americana de 24 anos, tem o costume de escrever cartas de amor.
Escreve, nada escreve no envelope e sai espalhando pela cidade. Atitude
extremamente humana, pois espanadora da solidão. Hannah escreve à mão, o que
reforça o caráter pessoal da mensagem.
Bom, li a notícia, então me
lembrei de algo similar feito por mim há cerca de um ano. Similar no gesto, mas
distinto do afetuoso intuito da jovem. Minha finalidade, confesso, era a
autopromoção, conquanto acompanhada de um quê de altruísmo. Sucedeu assim.
Publiquei um livro em 2010. Vendi
96 exemplares no lançamento num barzinho do bairro e cento e tarará no pinga a
pinga. Desses, ao menos o “tarará” foi no fiado. Esgotadas as vendas, comecei a
dar. O livro, evidentemente. Dei, salvo engano, 69. Até o ofereci aqui no
blogue, lembram? O cara pagaria somente o correio, mas ninguém se interessou.
Pense num bicho sem sorte. E ruim! A propósito, a última doação fi-la (Ops.) ao
Paulo, bombeiro do posto onde abasteço o carro. Uma semana depois, chego ao
posto, o Paulo me cumprimenta: “Que livro mais doido, esse seu”.
Pois então. Tive a ideia da
Hannah e comecei a perder o bicho pela cidade: três em duas praças do centro,
três em botecos, dois na rodoviária, dois no capô do automóvel. Ao contrário da
Hannah, eu me identifiquei: redigi a seguinte dedicatória. “Pra você, com o
abraço do Tião. Se quiser comentar algo, envie um imeio para tcarneirosilva@gmail.com”. Ninguém
quis. E já fez um ano. Mas não redigi apenas a dedicatória. Colei na capa esta
prosa:
Oi, tudo bem?
Meu ideal é que você ache esta história engraçada. Tão engraçada
que a moça doente daquela casa sem reboco leia e ria. Mas ria, ria tanto que
chegue a chorar e diga: “Ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a
conte para o pai
e telefone para duas ou três amigas a fim de repassar a história. E a quem ela contar ria muito e fique alegremente espantado de ver a doente tão alegre. Ah, que a história seja como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, enferma. Que ela mesma fique admirada ouvindo o próprio riso e depois repita para si própria: “Mas essa história é mesmo muito engraçada!”
Que um casal, mal-humorado em casa, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também seja atingido pela história. O marido vai lendo a história e começa a rir, o que aumenta a irritação da mulher. Mas depois que a mulher, apesar da má vontade, tomar conhecimento da história, ela também rirá muito e ficarão os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais. E que um, ouvindo aquele riso do outro, lembre-se do alegre tempo de namoro e reencontrem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a história chegue tão fascinante, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpem seu coração com lágrimas de alegria; que o delegado, depois de ler a história, mande soltar os bêbados e também as pobres mulheres colhidas na calçada e lhes diga: “Por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à história.
E que ela aos poucos se espalhe pelo mundo, seja contada de mil maneiras e seja atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago, mas que em todas as línguas ela guarde a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente. E que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho diga: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida. Valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la. Essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem. Foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto. Sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento. É uma história divina".
E quando todos me perguntarem: “Mas de onde é que você tirou essa história?", eu responderei que ela não é minha, que a li por acaso na rua, num livro desconhecido, jogado num banco de praça, e que por sinal começa assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderei completamente a humilde verdade: que eu inventei a história em um só segundo, quando pensei na bondade da jovem americana e na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente, que sempre está reclusa, que sempre está de luto, que sempre está sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. E de outros bairros. E de muitas cidades.
Mas...
Mas, como expliquei, ninguém comentou nada. De nada adiantou
o imeio. Se tivesse perguntado, diria verdade.
A verdade é que o livro existe. Chama-se A Senhora 2 e
Senhor 2. A vendagem e a doação são igualmente verdadeiras. A
“perdição” também.
A crônica da moça doente é mentira. Quer dizer, não anexei
ao livro, nem é minha. Mas existe, sim. É do Mestre Rubem Braga. Apenas a
adaptei ao contexto da postagem. Conhecia o texto do RB, pesquei-o na internet,
mas não consegui fisgar o do título. Dê uma tarrafada no Google que você o
fisga. Embora sem o título. É uma delícia de prosa, gente. Vale a pena jogar a
tarrafa.
E a história do RB? Começa assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma
história...". Qualquer dia eu conto, tá?
Um
abraço,
Tião
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