Esse abundante título de “d”
é corriqueiro divertimento para o quinteto DOCAS (Damião, Osair, Cláudia, Anchieta
e Silvano), habituais fuçadores desta Pocilga de Ouro. Sabe o DOCAS de minha
queda por aliterações. Imagino mais alguns emporcalhados me lendo agora, mas
apenas esses cinco costumam se identificar por meio de comentários zombeteiros sobre
as minhas obviedades. “Arrocha esses parafusos, TC”, dizem. Esses cinco não viram,
porém, o último parafuso a escapulir de minha engrenagem mental. Vou mostrar a
doidice. Não mando o abençoado DOCAS pegar o beco por julgar injusta tal ordem.
Mas, identificado o rebelde parafuso, a docada Cláudia já pode puxar a fila da
retirada, pois o porvir está prenhe das maçantes obviedades.
Vejamos
a doidice.
Tornei-me tarado por leituras
de comentários nas redes sociais, gente. Sobretudo os da Folha/Uol
e do Instagram. Chovem comentários sobre esquerda/direita e Bolsonaro/Lula.
Inocente publicação de humor, e o pessoal já empurra ideologia no meio.
Impressionante. Aparecem comentários a torto e a direito, mas os de jejunos
comentando ideologias ganham disparados. Vou dar grosseira demão nas fachadas da
política e do capitalismo. Antes, contudo, permitam-me descrever irônico
comentário.
Nasceu assim:
No Instagram, o cientista Miguel Nicolelis fala
em se ter parcimônia no uso da Inteligência Artificial, posto o usuário adquirir informações diversas sem o menor esforço mental. O comodismo pode se tornar danoso, haja vista a perda de cognações, inferências, sinapses, contextos, ilações. O grave dessas perdas é o indivíduo corromper metáforas, apodrecer racionalidades, perverter avaliações, mofar memórias. Enorme risco de se imbecilizar. Estou vendo a hora tal indivíduo sair do trabalho e perguntar a IA como chegar à casa dele, ironizou o cientista.Nicolelis exemplifica o
início do demente processo:
“Começa com o indivíduo
pedindo à calculadora a soma de 4 mais 6 mais 5, segue perguntando à IA quem é o
presidente do país dele e termina consultando uma agenda para saber o número do
celular da mulher ou o do marido”.
Um tal JJN comentou:
“Qual é o problema, Miguel?
Só vejo vantagens. Por qual razão gastar a cabeça se tenho tudo na palma da mão”?
“Dei só exemplos da
nociva comodidade, JJN. A mente desocupada pode fazer o satanás estender nela
uma tenda com as garrafais letras IMBECIL, entendeu? Você, aliás, acaba de comprovar
a minha teoria”, respondeu Nicolelis.
Não perdi tempo e espinhei
o quengo do JJN:
Passou vergonha no débito,
JJN. Sabe, meu nobre, ler é eficaz vacina para evitar vergonhas desse tipo. Nicolelis,
JJN, expressou-se no seguinte vetor de pensamento: o poder de algo produzir o
bem é equivalente ao poder desse algo produzir o mal. A magnitude do mal vai
depender do maior ou menor grau de manipulação de seus agentes. Fechei o
comentário assim: quer o desenho disso, meu nobre?
Pronto. O DOCAS já pode
dar o fora. Daqui em diante só terão o tédio das conhecidas obviedades do campo
político e econômico. Começo por economia.
Chamada de ciência,
economia é um conjunto de princípios, disciplinas, técnicas, essas coisas.
Essas coisas pegam recursos humanos e naturais e sacodem num sacolão cujo nome
sempre traz “ismo” no fim. Desse sacolão saem os bens e serviços geradores do
bem-estar coletivo, a menina dos olhos da economia. É irrelevante para a
economia o ismo usado na busca por esse bem-estar. Um ismo famoso - e no qual
quero chegar – chama-se capitalismo. Desconheço quem pela primeira vez chamou o
sacolão de capitalismo. Mas o pioneiro foi infeliz. O capitalismo pegou a fama
de mal. Tivesse chamado de satisfacismo (de satisfazer, pessoal. Misericórdia)
e a história seria outra. Todo precedente, também conhecido como primeira vez,
é marcante e histórico. Sabia disso, novata aqui?
Não necessariamente, TC.
Necessariamente sim,
novata aqui. Deixou-lhe lembranças ou não o primeiro sutiã? Grudou-lhe ou não,
novato aqui, aquela primeira coisa?
Lembro-me da primeira vez
de tudo. Em especial o prazer supremo de uma delas. Dura apenas dois
minutinhos, mas o êxtase vive na memória. Estou trepadinho, minha prima, já nas
últimas da ofegância, fica repetindo vai, vai, vai. E eu lá, montado, trêmulo,
de olhos aboticados, de respiração arquejante e de pernas bambas. Aí a danada
solta o bagageiro da bicicleta. A bicicleta pega embalo e pimba: a inocente não
quebra nada, mas o quedaço deixa meus joelhos sangrando.
Agora pintem comigo a
fachada do capitalismo.
O dia inteiro respiramos,
arrotamos e peidamos economia. Abundância, pois, de comentários sobre economia nas
redes sociais torna-se natural. Alguns não dizem coisa com coisa, mas a
liberdade de expressão protege os comentaristas. Assim como protege quem
critica os tais. Inconsistentes avaliações sobre PIB, dívida pública e
arcabouço fiscal - como se fossem café da manhã, almoço e janta desses
comentaristas - só me fazem rir. Já outras avaliações, como defender a escala 6
por 1, aplaudir a reforma trabalhista e condenar o Bolsa Família me fazem
espernear com borras iradas pra cima dos filhos da fruta. Mas os comentários contra
a expressão Sistema Capitalista me faz mandar o dono do comentário pra pqp. Comentários
contra o sistema capitalista, aliás, não são privativos das redes sociais. É
comum vê-los em rodas de políticos, articulistas, jornalistas. E até, pasmem, nas
de economistas. Não entendo tamanha raiva pelo sistema capitalista.
Desconheço quem primeiro
chamou o capitalismo de cruel, tampouco de sanguinário, menos ainda de
explorador. Mas teve a primeira vez desses adjetivos, sim. Assim como teve a
primeira de selvagem e de neoliberalismo.
Mas o sistema capitalista
é uma bênção, novato aqui. Nossa satisfação material nasce dele. E nasce em
razão de algo exclusivo dele: a obsessão pelo lucro. Pesquisa, inovação,
criatividade, experimento, racionalidade vivem alimentando essa obsessão. O
mundo na palma da mão, a passagem na ponta do dedo e a paisagem no canto do
olho vieram da obsessão pelo lucro. Dela também vieram o livro sem papel, o
carro sem combustível, a cerveja sem álcool. De onde vem, então, tamanho ódio
pelo benfazejo capitalismo?
Vem da obsessão pelo
lucro do benfazejo capitalismo.
Ah, não. “Pelamordedeus”.
Isso é nó no quengo.
Pois é, novata aqui.
Descomunal paradoxo. Desatemos o nó do paradoxo? Nó de três pontas. Chamam-se
lucro, liberdade e sistema.
O sistema capitalista
saiu da toca por volta de mil setecentos e tanto, na primeira Revolução
Industrial. Saiu, porém, com o capital já sacaneando o trabalho. Falo dessa
sacanagem na coletânea Sisi Confidencial. Se lhe interessar,
novato aqui, posso trocar a Sisi por Pix. Então. Sacanagezinha do capital, mas
aceitável, digamos. O fumo na mão-de-obra avolumou-se mesmo a partir da
terceira Revolução Industrial, lá pela metade do século vinte.
Agora, novata aqui, é bom
rememorar o conceito de lucro. Lucro é qualquer benefício ou vantagem obtida
numa transação. O mais conhecido é o lucro empresarial, mas é corriqueira a
expressão “saiu no lucro”. Sair no lucro ou no prejuízo faz parte do jogo
humano. Já saiu no lucro alguma vez, novata aqui?
Agora, novata aqui, é
útil revisitar o conceito de liberdade. Liberdade é o grau de independência
legítimo considerado pelos humanos como valor supremo. Mas a independência para
obter tal valor precisa nascer duma ação legítima. Pense nesse detalhe, novata
aqui.
Recheado de ações
ilegítimas, o sistema capitalista, recorde-se, já sai cruelzinho da toca. Sai cruel,
caminha na excrecência e chega ao hoje merecendo todos os adjetivos de
desprezo. A lógica do sistema capitalista é a da dominação, em resumo. Mas...
Mas agora, novata aqui, convém
esmiuçar o conceito de sistema. Sistema é um conjunto de elementos, abstratos
ou concretos, organizados intelectualmente.
Tudo dependente da ação
humana forma específicos sistemas. E toda falha nesses sistemas veio de falha
humana. E toda falha humana veio da liberdade ilegítima. Veja.
Falar em falha mecânica na
queda de um avião é sutil impropriedade. Ou certa peça foi mal dimensionada, ou
faltou criteriosa manutenção, ou faltou perícia do piloto. Nas três hipóteses, os
sistemas operacionais da aeronave são inocentes. Humano foi quem usou a ilegítima
liberdade de ser displicente. Esse humano obteve a ilusória vantagem de ser
comodista. Essa vantagem tem o nome de lucro indevido. O prédio pegando fogo e
o carro desembestando não são falhas do sistema de eletricidade e do sistema de
freio. São falhas de humanos responsáveis pela dedicação aos respectivos
sistemas. Não existe acaso. Existe descaso. Já o urubu causar o acidente naquele
avião não entra nessa conta, pois a aparição do urubu não depende da
organização intelectual dos humanos.
Está vendo, novata aqui, o
nó do paradoxo se desatando?
O sistema capitalista não
tem culpa de nada, caríssima novata aqui. O objetivo dele - unir capital e mão-de-obra
a fim de proporcionar o bem-estar coletivo dos humanos - depende da organização
intelectual dos próprios humanos. O bendito lucro advindo da liberdade legítima
de produzir transforma-se em maldito advindo da liberdade ilegítima de
extorquir. Considera desatado o nó, novata aqui?
Liberdade é um bem
divino. Tudo de bom na vida humana advém da liberdade. E tudo de ruim advém da
distorção dela. Produzimos e consumimos liberdade para produzir e consumir bens
e serviços. Tal protocolo forma sociedades. Sociedade significa sócios da liberdade.
A sociedade brasileira é moldada pelo sistema capitalista, sobretudo pelos sócios
do capital e da política. Muitos dos quais especialistas na arte de distorcer, confundir
e iludir. Distorcem a liberdade de lucrar, confundem sócio com súcia, bem-estar
coletivo com o individual e iludem com... Ah, essa arte é diabólica. Rendeu-me amáveis
comentários no Instagram.
Para aqueles
comentaristas, certo sócio do capital chamar o empregado de colaborador é amabilidade.
E somos um time? E formamos uma família? E estamos no mesmo barco? Tudo da boca
pra fora. A liberdade ilegítima no lombo do trabalhador a fim de gerar lucro
indevido comprova esse vômito. A fala desse sócio – de outros mais e de mais
outros - é compra de gentileza, sorriso, dignidade. É naturalizar a relação
exploradora para tornar o sócio explorado adepto da engrenagem deles. Esses caras...
Esses caras, novato aqui,
lembram-me o desespero do rio e o da floresta: o rio treme quando vê o mar, e a
floresta chora quando vê o fogo. Mas o sócio do capital, humano até a medula,
fica indiferente quando vê a fome.
É isso, novata aqui. Desceram-me
a lenha no Instagram quando comentei nessa linha de pensamento. É urgente novas
ações para quebrar linhas de pensamentos apoiadoras da liberdade ilegítima dos
sócios do capital. São os humanos, por meio de costume, constância, cultura,
cotidiano, quem julgam a legitimidade da liberdade. A liberdade de extorquir,
matar, caluniar, difamar, estuprar já foi condenada há tempos.
O Estado precisa se
transformar em nação e atuar firme na defesa do cidadão. Atua, mas... Mas o
Estado é um sistemão cheio de sisteminhas administrados por humanos. O Estado só
vai pra frente quando humanos deixarem de culpar sistemas pelas mazelas.
Escute, novata aqui, falei
de dar uma demão na fachada da política, mas gastei muito tempo na fachada da
economia. A política fica pra depois, tá legal? Agora, adianto-lhe uma coisa. Se
o Lula me der a candidatura de presidente, minhas ideias darão belas porretadas
no lucro obtido pelos sacripantas sócios do capital.
O Lula não cola mais,
novata aqui. Ficar chamando ESTE país de ESSE país é tragédia anunciada. É como
se vivêssemos no passado, entende? E a vida é agora. O Bolsonaro também não dá
mais. Foi tremenda furada. Pra início de conversa, o Bolsonaro não sabe contar.
Contei, novata aqui, as linhas da constituição brasileira. Tem 75157 linhas. Tirando
a assinatura do Dr. Ulisses, obviamente. O Bolsonaro, porém, só contou até 4. O
Bolsonaro, aliás, tem um defeito adicional: adora conjugar um verbo inexistente
na língua brasileira: tentar. Tentar não existe, novata aqui. Tente tirar a
blusa ou a calcinha. Ou você tira ou não tira. Tente ganhar na Mega-sena. Ou
você ganha ou perde. Tá com o celular na mão? Tente soltá-lo. Cuidado!!!
Tentar constitui crime
contra a cultura brasileira. Dois lesas. Lesa-gramática e lesa-pátria. Mas tentação,
coisa da mente, existe. Tentação é parente de reinação. Já se pegou reinando
algo, novato aqui?
Precisamos não de um
presidente tentador, mas de um provedor. Presidente inovador, furador de
padrões.
Estou treinando nesses
furos. Acabei de furar um padrão. Não tentei, furei.
Perceberam um padrão
furado, novato e novata aqui?
Perceberam a ausência do
padronizado “que” no texto? Não tem aqui um mísero que pra fazer chá. Perceberam
não?
Releiam o texto, então.
Conto com o voto de vocês
dois.
No 7 do 25,
TC
2 comentários:
Verdade. Não existe a palavra "que" no texto. Confesso que não tinha. Tião e suas pegadinhas. Kkkkk
Arrocha esse parafuso TC. No bom sentido, claro.
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