terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ponto nos is e ponto parágrafo

 


Palavras - 10 e 12 da manhã, tomo um cafezinho, acendo um cigarro, ligo o notebook: o parceiro trava. Fumante passivo, meu sócio costuma me cancelar nesses momentos. Levanto-me da rede e vou pegar o jornal, a Tribuna do Norte. Volto: o parceiro está solto. Dou uma corujada na Folha e no Estadão, entro no Instagram e encontro Fernanda Torres falando das sandálias havaianas, enquanto, abaixo, nos comentários, picuinha e narrativa disputam uma partida de imbecilidade apitada pelo patético. Dou uma rolada na tela, aparece o deputado federal Sóstenes Cavalcante. O deputado fala da bufunfa de 430 mil reais encontrada no apartamento dele. Papel-roteiro na mão, o deputado gagueja a explicação: a bufunfa viera da venda de um imóvel. “Minha Nossa Senhora”, escuto dos botões, ao ouvirem etcetera e tal como base para explicação. Entro nos comentários do vídeo e me deparo com o que está me fazendo escrever estas tolices. Curtinho o comentário: “É só pôr o pingo nos is e veremos que o deputado acha que somos pacóvios”. Desconheço o vocábulo pacóvio, mas o contexto me leva

à banana: o deputado acha que somos bananas e está dando bananas pra gente, pensei. Vou checar o raciocínio no dicionário. Bingo. Pacóvio quer dizer bobinho, apalermado, imbecil. Deriva do Tupi pakowa, que significa, vejam bem, banana. Conhecem a banana pacovã, nobres? Palavra, sinha danada. Muita gente diz que palavras mordem e assopram, matam e curam. Mentira. É o momento mental do falante ou escrevente que as transforma nos sentimentos de amar ou de odiar. Mas depende de você acolher ou não esses sentimentos. Agora, sugiro ficar nu na hora de decidir. Calma, calma. Esse nu é mais uma artimanha da nossa amiga palavra. Ficar nu significa que você jogou fora preconceitos, dogmas e afins. Só assim saberá se as palavras do falante ou escrevente foram casuais ou intencionais. Já havia se ligado nisso? Está se ligando que tanto o escrevente ou falante e você se valeram da segunda palavra mais importante do mundo? Falarei dela no final desta prosa. E aí? Tá nu ou nua? Espero. Pingo nos is. Ponto parágrafo.

Você – Já que falei bastante de você, sabia que você não é você? Não? Não é. Nunca foi. Você é aquilo que escuta, que vê, que assiste, que observa e que lê ao longo da vida. Você vive na esperteza do copiar/colar. Você é manicaca da senhora vivência. É um panaca que se imagina autêntico. Lorota. Nem a genética é sua. Você é patético usurpador de indivíduos. Podia falar essas coisas na sua cara, acompanhados de uma gela, por óbvio, mas seria perda de tempo, já que você é tão só um copiador de gente, contextos e de costumes. Seria brigar com um monte de pessoas invisíveis, entende? É por isso que ninguém deve se meter nas crenças de ninguém, visto esse ninguém e o metido serem farinhas do mesmo saco. São simplórios zés ninguém. Quer uma prova aritmética de que você é um zé ninguém? Quanto é 10 porcento de 100? 10, não é? Então você é 10, certo? mas 10 não é apenas isso. 10 é 5 mais 5, é 6 mais 4, é 7 mais 3, é a raiz quadrada de 100 e por aí vai. Mesmo com tal prova, tenho certeza de que você, assim como outros por aí, vai me dizer que tem ideias próprias e tal. Balela. Humano algum tem ideias próprias. Houve apenas uma ideia própria no universo. E apenas um idealizador. E a ideia foi precisamente a de todo mundo precisar de todo mundo para passar seus dias no mundo. Esse idealizador atende por vários nomes, mas prefiro chamá-lo de Deus. E, incrível, Deus usou a segunda palavra mais importante do mundo para dar suporte à bendita ideia. Não se vistam. Pingo nos is. Ponto parágrafo.

Deus – Já que falei em Deus, faço-lhe a mais metafísica de todas as perguntas dos humanos, cuja resposta soluciona a nossa problemática existencial: que é Deus? Então. Que é Deus? O problema em responder consiste neste paradoxo. Deus está disponível em todos os lugares, mas ninguém pode encontrá-lo. Mas Deus pode encontrar o humano que se tornar encontrável. Como disse Paulo Coelho: “Deus está onde o deixam entrar”. A verdade é que Deus é imanente e transcendente em cada um dos humanos.  Daí que Deus não “existe”. Deus é. Não se vê Deus. Sente-se. Não se vê a bengala dele. Sente-se o badalo dele. Badalo de apoio, ajuda, proteção. Badalo de arrimo. E não de sino. Acontece que indivíduos que não abrem a porta pra Deus querem provas desse sentir. Impossível descrever o sentir. A realidade frustra a descrição. Por meio de descrição alheia, ninguém pode saber o sabor do abacaxi ou a emoção por um gol. Para sabermos o que seja amor é necessário que o experimentemos. Descrever o sentir é impossível, mas provar a existência dele, o que, em última análise, é provar a existência de Deus, é de uma simplicidade absurda. A prova se encontra no axioma número 1 dos humanos: Não há efeito sem causa. Agora é só procurar a causa de tudo o que não é obra dos humanos. Que tal o próprio humano? Ah, o ser humano é fruto de um processo molecular/físico/químico iniciado há milhões de anos. Essa é a causa de ele existir, dirão os carentes do sentir. Verdade no que diz respeito à estética do corpo, mas equívoco na variante dialética do espirito. Qual a causa da frustração e da exultação? Um acontecimento qualquer, dirão. Mas o efeito desse acontecimento qualquer no indivíduo – torná-lo frustrado ou exultante - é deliberação exclusiva desse indivíduo. Daí que tal acontecimento qualquer não entra na conta do axioma causa/efeito. Ilustremos isso. Domingo 21 do 12, 70 mil pessoas foram ao Maracanã para ver 22 marmanjos correrem atrás de uma bola. Essa galera não foi ver nada. Foi sentir. Ninguém prometeu dinheiro ou algo similar para a galera ir. Não houve causa aqui. Houve apenas o efeito de sentir emoção. É claro que as ciências da mente dirão que o ser humano precisa se divertir, precisa de lazer e tal. Verdade. Ocorre que para comer feijão e pão, a causa, ou a precisão, é a indispensável nutrição. Qual é a causa – ou a precisão - do lazer? A ciência não diz. Apenas diz que é para o indivíduo se sentir melhor e ficar de bem com a vida. Sim, sim. Mas isso é efeito. Não é causa. Comer feijão é experimentar. Comer emoção é sentir. Coisas da anatomia e coisas do espírito. Coisas de Deus usando a segunda palavra mais importante do mundo. Ah, isso é intolerância, presunção e blasfêmia. Não é. É pingo nos is. Ponto final.

 

Sabe, gente, pretendia escrever sobre as havaianas da Fernanda Torres e a imbecilizada polarização direita/esquerda, mas Deus está me sugerindo parar. Bom. Qual é a segunda palavra mais importante do mundo? Na verdade, a segunda palavra está dentro da primeira. Essa história de segunda é pura literatice desse abestado.

A primeira palavra, sabem todos, é liberdade.

A segunda é interesse.

Liberdade, palavra divina, não é uma manifestação estática. Liberdade implica opção. Do contrário, se via única, não seria liberdade. Seria autoritarismo. É aqui que entra o livre-arbítrio. Então. Deus bolou a liberdade e o interesse na mesma tacada. É o interesse que movimenta a vida. Na ausência do interesse nada acontece. Pense aí, nobríssima?  Pensou? Viu? Você acabou de me dar razão.

Lembram-se da segunda prosa deste textão? Da ideia do criador do mundo? Então? O criador não teria pensado no bem-estar de suas crias se não tivesse interesse por elas. Da mesma forma que teve o interesse de nos tornar únicos pela graça do sentir por intermédio do espírito. Lembram-se da primeira prosa, a da banana pacovã, o de acolher sentimentos? Então. É seu interesse que dirá qual sentimento acolherá.

 

É isso. Boas festas e fiquem com Deus

No 12 do 25,

TC

 


2 comentários:

Damião dfs disse...

Eu acho que sou pacovio. Em algum momento eu cheguei a acreditar que a banana pacovã era uma banana prata bem adubada. Kkkk

Damião dfs disse...

Mas o texto é muito interessante. Como sempre, genial T.C.