Palavras - 10 e 12 da manhã, tomo um cafezinho, acendo um cigarro, ligo o notebook: o parceiro trava. Fumante passivo, meu sócio costuma me cancelar nesses momentos. Levanto-me da rede e vou pegar o jornal, a Tribuna do Norte. Volto: o parceiro está solto. Dou uma corujada na Folha e no Estadão, entro no Instagram e encontro Fernanda Torres falando das sandálias havaianas, enquanto, abaixo, nos comentários, picuinha e narrativa disputam uma partida de imbecilidade apitada pelo patético. Dou uma rolada na tela, aparece o deputado federal Sóstenes Cavalcante. O deputado fala da bufunfa de 430 mil reais encontrada no apartamento dele. Papel-roteiro na mão, o deputado gagueja a explicação: a bufunfa viera da venda de um imóvel. “Minha Nossa Senhora”, escuto dos botões, ao ouvirem etcetera e tal como base para explicação. Entro nos comentários do vídeo e me deparo com o que está me fazendo escrever estas tolices. Curtinho o comentário: “É só pôr o pingo nos is e veremos que o deputado acha que somos pacóvios”. Desconheço o vocábulo pacóvio, mas o contexto me leva
à banana: o deputado acha que somos bananas e está dando bananas pra gente, pensei. Vou checar o raciocínio no dicionário. Bingo. Pacóvio quer dizer bobinho, apalermado, imbecil. Deriva do Tupi pakowa, que significa, vejam bem, banana. Conhecem a banana pacovã, nobres? Palavra, sinha danada. Muita gente diz que palavras mordem e assopram, matam e curam. Mentira. É o momento mental do falante ou escrevente que as transforma nos sentimentos de amar ou de odiar. Mas depende de você acolher ou não esses sentimentos. Agora, sugiro ficar nu na hora de decidir. Calma, calma. Esse nu é mais uma artimanha da nossa amiga palavra. Ficar nu significa que você jogou fora preconceitos, dogmas e afins. Só assim saberá se as palavras do falante ou escrevente foram casuais ou intencionais. Já havia se ligado nisso? Está se ligando que tanto o escrevente ou falante e você se valeram da segunda palavra mais importante do mundo? Falarei dela no final desta prosa. E aí? Tá nu ou nua? Espero. Pingo nos is. Ponto parágrafo.Você – Já que falei bastante de você, sabia que você
não é você? Não? Não é. Nunca foi. Você é aquilo que escuta, que vê, que assiste,
que observa e que lê ao longo da vida. Você vive na esperteza do copiar/colar. Você
é manicaca da senhora vivência. É um panaca que se imagina autêntico. Lorota. Nem
a genética é sua. Você é patético usurpador de indivíduos. Podia falar essas
coisas na sua cara, acompanhados de uma gela, por óbvio, mas seria perda de
tempo, já que você é tão só um copiador de gente, contextos e de costumes. Seria
brigar com um monte de pessoas invisíveis, entende? É por isso que ninguém deve
se meter nas crenças de ninguém, visto esse ninguém e o metido serem farinhas
do mesmo saco. São simplórios zés ninguém. Quer uma prova aritmética de que
você é um zé ninguém? Quanto é 10 porcento de 100? 10, não é? Então você é 10,
certo? mas 10 não é apenas isso. 10 é 5 mais 5, é 6 mais 4, é 7 mais 3, é a
raiz quadrada de 100 e por aí vai. Mesmo com tal prova, tenho certeza de que
você, assim como outros por aí, vai me dizer que tem ideias próprias e tal. Balela.
Humano algum tem ideias próprias. Houve apenas uma ideia própria no universo. E
apenas um idealizador. E a ideia foi precisamente a de todo mundo precisar de
todo mundo para passar seus dias no mundo. Esse idealizador atende por vários
nomes, mas prefiro chamá-lo de Deus. E, incrível, Deus usou a segunda palavra
mais importante do mundo para dar suporte à bendita ideia. Não se vistam. Pingo
nos is. Ponto parágrafo.
Deus – Já que falei em Deus, faço-lhe a mais metafísica
de todas as perguntas dos humanos, cuja resposta soluciona a nossa problemática
existencial: que é Deus? Então. Que é Deus? O problema em responder consiste
neste paradoxo. Deus está disponível em todos os lugares, mas ninguém pode encontrá-lo.
Mas Deus pode encontrar o humano que se tornar encontrável. Como disse Paulo
Coelho: “Deus está onde o deixam entrar”. A verdade é que Deus é imanente e transcendente
em cada um dos humanos. Daí que Deus não
“existe”. Deus é. Não se vê Deus. Sente-se. Não se vê a bengala dele. Sente-se o
badalo dele. Badalo de apoio, ajuda, proteção. Badalo de arrimo. E não de sino.
Acontece que indivíduos que não abrem a porta pra Deus querem provas desse
sentir. Impossível descrever o sentir. A realidade frustra a descrição. Por meio
de descrição alheia, ninguém pode saber o sabor do abacaxi ou a emoção por um gol.
Para sabermos o que seja amor é necessário que o experimentemos. Descrever o
sentir é impossível, mas provar a existência dele, o que, em última análise, é
provar a existência de Deus, é de uma simplicidade absurda. A prova se encontra
no axioma número 1 dos humanos: Não há efeito sem causa. Agora
é só procurar a causa de tudo o que não é obra dos humanos. Que tal o próprio humano?
Ah, o ser humano é fruto de um processo molecular/físico/químico iniciado há milhões
de anos. Essa é a causa de ele existir, dirão os carentes do sentir. Verdade no
que diz respeito à estética do corpo, mas equívoco na variante dialética do
espirito. Qual a causa da frustração e da exultação? Um acontecimento qualquer,
dirão. Mas o efeito desse acontecimento qualquer no indivíduo – torná-lo frustrado
ou exultante - é deliberação exclusiva desse indivíduo. Daí que tal
acontecimento qualquer não entra na conta do axioma causa/efeito. Ilustremos
isso. Domingo 21 do 12, 70 mil pessoas foram ao Maracanã para ver 22 marmanjos
correrem atrás de uma bola. Essa galera não foi ver nada. Foi sentir. Ninguém prometeu
dinheiro ou algo similar para a galera ir. Não houve causa aqui. Houve apenas o
efeito de sentir emoção. É claro que as ciências da mente dirão que o ser
humano precisa se divertir, precisa de lazer e tal. Verdade. Ocorre que para comer
feijão e pão, a causa, ou a precisão, é a indispensável nutrição. Qual é a
causa – ou a precisão - do lazer? A ciência não diz. Apenas diz que é para o
indivíduo se sentir melhor e ficar de bem com a vida. Sim, sim. Mas isso é efeito.
Não é causa. Comer feijão é experimentar. Comer emoção é sentir. Coisas da
anatomia e coisas do espírito. Coisas de Deus usando a segunda palavra mais
importante do mundo. Ah, isso é intolerância, presunção e blasfêmia. Não é. É
pingo nos is. Ponto final.
Sabe, gente, pretendia escrever
sobre as havaianas da Fernanda Torres e a imbecilizada polarização
direita/esquerda, mas Deus está me sugerindo parar. Bom. Qual é a segunda
palavra mais importante do mundo? Na verdade, a segunda palavra está dentro da
primeira. Essa história de segunda é pura literatice desse abestado.
A primeira palavra, sabem todos,
é liberdade.
A segunda é interesse.
Liberdade, palavra divina, não é
uma manifestação estática. Liberdade implica opção. Do contrário, se via única,
não seria liberdade. Seria autoritarismo. É aqui que entra o livre-arbítrio. Então.
Deus bolou a liberdade e o interesse na mesma tacada. É o interesse que
movimenta a vida. Na ausência do interesse nada acontece. Pense aí,
nobríssima? Pensou? Viu? Você acabou de me
dar razão.
Lembram-se da segunda prosa
deste textão? Da ideia do criador do mundo? Então? O criador não teria pensado
no bem-estar de suas crias se não tivesse interesse por elas. Da mesma forma
que teve o interesse de nos tornar únicos pela graça do sentir por intermédio
do espírito. Lembram-se da primeira prosa, a da banana pacovã, o de acolher
sentimentos? Então. É seu interesse que dirá qual sentimento acolherá.
É isso. Boas festas e fiquem com
Deus
No 12 do 25,
TC
2 comentários:
Eu acho que sou pacovio. Em algum momento eu cheguei a acreditar que a banana pacovã era uma banana prata bem adubada. Kkkk
Mas o texto é muito interessante. Como sempre, genial T.C.
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