REVELAÇÕES NUM JANTAR GOLPISTA
Tomavam contentamento,
bebiam regalo, sorviam deleite. E saboreavam vinho. Faziam hora para o jantar.
A piscina aplaudia. Paulinha achou por bem provocar o pai:
- Então, pai! Pela
milésima vez: o impeachment da presidente Dilma é golpe ou não?
“Veja, minha filha”,
retrucou o Dr. Paulo, fazendo sintomática pausa, dando uma chupada no charuto...
- Veja você, pai. Você
é um dos mais conceituados juristas brasileiros. Estamos brincando, jogando
conversa fora, esperando o jantar. Por que, então, você fica relutando em
responder tão singela pergunta? Você é muito fechado. Até em casa tem medo de
se expor. Você passa a impressão de que a mente racional vive de facão em punho
pronta para decapitar seus termos emocionais. Olha só. Como você sabe, a mãe e
a Rita são favoráveis ao impeachment. Eu, o Paulinho e a Vanessinha somos
contra. E o você? Não dá nem uma pista, homem? Não entendo como uma criatura
vive sem emoções, com zero de adrenalina. Permita-se uma transgressãozinha,
pai. Você está um mala e tanto, viu? Precisa dar uma chacoalhada na vida,
indignar-se com alguma coisa. Ponha brilho no olhar, pai. Desculpe, mas...
- Entenda,
Paulinha...
- Pai! Misericórdia!
Contra ou a favor?
O titubeante Dr.
Paulo foi salvo pela cozinheira, a Vanessinha:
- Com licença. Trago
logo o salmão ou a sopa, Dr. Paulo?
- O salmão na mão direita,
a sopa na esquerda. Mas pode ser o contrário, a fim de que não vejam viés
ideológico na minha construção.
Vanessinha sorriu e
afastou-se.
Ficaram o viço da
idade, o frescor do banho, o cheiro da colônia. E um decote...
- Que pergunta idiota
dessa garota. A sem noção veio nos servir pintada pra guerra, notaram? E por
que ela não perguntou à senhora, D. Paula, a dona da casa?
- Não sei, Rita. A
Vanessinha deve estar meio atabalhoada hoje.
“Pode ser, mãe, mas
não há segundas intenções nisso. A Vanessinha é de uma lealdade a toda prova. Gente
boa demais”, comentou o Paulinho, irmão gêmeo da Paulinha, e namorado da
falastrona Rita.
- É verdade,
Paulinho. E sabem duma coisa? Julgo meio golpistas certos comentários feitos
pelas costas, sabiam?
“Nossa, Paulinha!
Falei por falar. Adoro a Vanessinha”, desculpou-se a Rita.
Esses foram os
comentários que vaquejaram até a cozinha o rebolado da gloriosa Vanessinha.
Dali a segundos, sem
mais nem menos, Paulinha beijou a mãe, cochichou algo, levantou-se, deu solene
boa-noite e foi para os aposentos. Passavam minutos das sete horas daquele sábado.
“Caramba! Quem devia ter ficado chateado era o pai,
não ela”, comentou o Paulinho.
Liga não, Paulinho. Isso é coisa de mulher, relevou o Dr.
Paulo.
“Por que de mulher? Só mulher se sente indisposta, por
acaso? Que coisa!”, irritou-se a D. Paula, tomando as dores da filha.
- Calma, mulher. Fiz somente um comentário. Que coisa!
Se por causa do risinho safado, se pela imitativa
entonação do “Que coisa”, se em razão das duas coisas, não se sabe. Certo é que
a D. Paula pegou ar com as palavras do marido, levantou-se, deu imponente
boa-noite e se dirigiu aos aposentos.
“Nossa! Até a mãe? Essas mulheres... Sei não, viu,
pai?”, brincou o Paulinho, beijando o cabelo da Rita.
- Que que tem essas mulheres, Paulinho? O risinho
irônico do senhor, Dr. Paulo, expulsou D. Paula. Culpa de sua insensibilidade.
Os homens deviam prestar mais atenção na forma como se dirigem às mulheres. Não
viu você, Paulinho?
- Eu? Agora pronto! O que eu disse demais, amor?
- Nossa! Até mãe? Essas mulheres... Sei não, viu, pai!
Você falou assim, Paulinho. Abarrotado de preconceito, o deboche saindo pelo ladrão.
- Não tive essa intenção. Que implicância, querida? O
que devo fazer para me redimir?
“Esquece”, disse a Rita, levantando-se, dando formal
boa-noite, abrindo a bolsa, andando para o carro. Paulinho quase caiu, mas
conseguiu abrir a porta do carona. Saíram, certamente beijando-se ao contrário.
Dr. Paulo ficou sozinho e passou a arranhar o disco do
“Caramba, como pode? Não é possível, não mais de 7 minutos”.
“Ué! Cadê todo mundo, Dr. Paulo?”, quis saber a Vanessinha,
salmão na mão esquerda, sopa na direita.
“Piraram, Vanessinha. Todo mundo pirou. Não vamos
jantar. Guarde as coisas e me traga uma garrafa de uísque”, lamentou-se o Dr.
Paulo, sorrindo sem graça.
Vanessinha sorriu de volta, graciosamente, é claro, e
afastou-se com um:
- Sério! Se a
sua cota são duas taças de vinho? Vou pegar.
Ficaram o viço da idade, o frescor do banho e o cheiro
da colônia. E um decote...
Em minutos:
- Pronto, Paulo. Posso sentar-me e tomar um vinho com
você?
O pobre do Dr. Paulo não respondeu. Até porque a
Vanessinha falou e sentou-se. Não respondeu, mas o queixo caiu como resposta:
não se lembrava de a Vanessinha
tê-lo chamado de Paulo e você nem sequer uma
vez. Não lhe dava tal abertura. Certo é que vivia caído por ela, mas evitava
olhá-la para que o olhar pidão não o traísse. Que Deus o livrasse de tamanho
escândalo. Agora ela ali, frente a frente com ele, a jovialidade o alvoroçando,
o sorriso de sim, a voz de cama. E aquele decote. A Paulinha tinha razão.
Precisava pintar o olhar.
Dr. Paulo serviu-se duma larga, deu uma tragada no
charuto, encarou a Vanessinha e... E ouviu:
- Ah, Paulo. Tenho um fetiche. Vivo doida pra dar uma
tragada no seu cheiroso charuto. Pode ser depois, tá? Adoro ele. E você, é lógico.
Arrepio-me todinha quando o vejo pela televisão no Tribunal. Às vezes me
distraio e não absorvo as suas palavras. Aprendo muito com você, Paulo. Ontem
fui as alturas ao ouvir você falando assim. “Dir-se-ia”, “Estou a estudar o
processo”, “Mas assim não o fez”. Isso deixa-me excitada e a imaginar o quanto
você pode me ensinar em áreas mais íntimas.
No automático, o atônito Dr. Paulo tomou a segunda de
uísque. A sapeca Vanessinha também. Engoliu o vinho e engatou uma segunda,
debruçando-se, segredando, olhos nos olhos, decote sob outros olhos:
- Desde que comecei a trabalhar aqui, com dezoito
anos, que quero você, Paulo. São sete anos de sutis insinuações. Tudo em vão,
pois você tem medo de mim, embora a sua volumosa constituição o viva
denunciando. Quero que me interprete, Paulo, e firme jurisprudência sobre mim.
“Como a gente faz, Vanessinha?”, perguntou a voz
trêmula e rouca.
- Deixe comigo, Paulo. Só falta você, meu querido, o
sessentão da casa, para eu conhecer toda a família.
- Quê? Como assim, conhecer toda a família,
Vanessinha?
“Vou lhe explicar. Antes, façamos um brinde”, disse a
Vanessinha, levantando a taça de vinho, um papelzinho pregado à taça. O Dr.
Paulo logo o leu:
- Acho que estamos
sendo gravados. Disfarce, guarde esse papel e, tão logo termine nossa conversa,
vá ao banheiro e leia a mensagem completa.
E assim fez o Dr. Paulo. Guardou o papel e voltou ao
assunto, a voz demonstrando não ter realmente entendido a expressão “conhecer
toda a família”.
- Não entendi, Vanessinha. O quis dizer com o conhecer
toda a família?
- Exceto a Rita, porque feia por dentro, e por quem
não sinto o menor tesão, conheço a carne de todo o seu núcleo familiar, Paulo.
- Mas...
- A do seu filho, o Paulinho, abocanho-a no motel. A de
sua mulher, a Paula, saboreio-a na suíte de vocês. A de sua filha, a Paulinha,
provo-a em qualquer lugar da casa, basta não ter ninguém por perto. Mas a de
sua esposa, confesso, é...
Vanessinha não terminou a frase. O Dr. Paulo
avermelhou-se, deu um murro na mesa, levantou-se:
- Tá maluca, garota! Você... Você... Suma da minha
vista e... e...
Nisso chegou a galera. A Paulinha começou a abanar o
pai, a D. Paula também, o Paulinho e a Rita acomodaram-no num sofá. Em lágrimas,
Vanessinha pegou logo um copo d’água. Dr. Paulo tomava água e ouvia: é brincadeira,
é pegadinha, é armação.
Dr. Paulo foi entendendo o contexto, sentou-se e começou
a rir. A algazarra invadiu o ambiente, a apreensão transformou-se em risadeira
e a Paulinha repetia:
- Esse sim é meu pai, esse é meu pai. Você estava
precisando de algo assim, pai.
- Adora, Paulinha? Vou ao banheiro. Prepare-se para
levar uma surra de cinturão, minha filha. E vou tirar seu couro, entendeu, atriz
Vanessinha?
Nesse clima, o Dr. Paulo leu o bilhete da Vanessinha:
Como viu, Dr. Paulo, tudo
não passou de armação da sapeca Paulinha. Tudo encenação, exceto, Dr. Paulo, o
meu tesão pelo senhor. Meus sentimentos são verdadeiros. Adorei a brincadeira
da Paulinha, pois só assim eu podia me declarar pro senhor. Quero ser sua,
fazê-lo gemer. Já tracei planos para os nossos encontros. Apenas fique ligado,
viu? Agora, preciso de um sinal de que também me quer. Daí que, se quiser me dar
mais fogo, acenda um charuto, diga que ama todos ali, mas dê uma baforada na
minha direção.
Não preciso lembrar que
tem de picotar esse escrito e dar descarga, não é, amor?
Beijos de sua
Vanessinha
Dr. Paulo, em trajes de piscina, discursou, disse que
uma transgressãozinha era bendita cócega no espírito e pulou na piscina. Saía dela
tão somente para dar umas baforadas na direção da Vanessinha, que, ligada, não
tirava os olhos do charuto do patrão.
O olhar do Dr. Paulo era um brilho só.
Certo é que a farra varou a madrugada e que todos
ficaram embriagados. Nem todos, verdade seja dita. Certo par apenas se fez. E se
fizeram.
Abril/16
TC
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