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PELA LINDÍSSIMA GAROTA...
Saíam os primeiros pedaços da picanha,
o feijão verde fervia, a peixada tomava tempero. Estava quase tudo pronto, por
assim dizer. Fernanda preparava o vinagrete e coordenava os afazeres culinários.
Tevê na garagem, a galera já molhava o bico, embora a cerveja ainda não estivesse
estúpida. Mas deveria estar quando começasse a sessão do impeachment da
presidente Dilma.
Fernanda adora festas populares, democráticas.
De futebol a política, a festeira vai pra rua e toma partido. Sai do caminho dela
quem falar mal do Fluminense e da Seleção Brasileira. E do PT. Doida por futebol,
assim como os pais, ela zoa com as amigas e diz que deve à bola a vinda ao
mundo. As amigas caem na risada com o complemento: Nasci no dia dez de março de
1971, a onze dias de completar nove meses do Brasil 4X1 na Itália. Simpática e
brincalhona é a capetinha.
Fernanda cortava cebolas para o
vinagrete e chorava lembranças daqueles movimentos. Uma delas deixou marcas no
coração dos treze aninhos da politizada Nanda. Aconteceu nas Diretas Já, no ano
de 1984, em Natal. Fernanda abaixou-se a fim de apanhar a bandeira que lhe escapara
das mãos e acabou derrubando o saco de pipoca do menino ao lado. Abriu a boca
para pedir desculpa, mas som algum saiu. Também reprimenda alguma saiu da
escancarada boca do menino. Apenas o olhar dele falava. Ou melhor, esfaqueava-lhe
o coraçãozinho. Emudecida, restou a Fernanda sorrir, estirar a língua e
caminhar ao lado da mãe. Mas olhando pra trás.
Fernanda nunca mais foi a mesma,
pois o olhar do miúdo vive a persegui-la. Do nada, aquele olhar surge e sapeca-lhe
estimulantes sentimentos. “De tanto pensar naquele garoto, o Juiz Supremo vai me
matar de vergonha se quebrar meu sigilo sentimental”, costuma confessar ela a
uma das amigas, a Jaqueline. Esta pega o embalo e entra no clima: "Então você deve se antecipar, ajoelhar-se, fazer uma delação premiada e acusar as líbidos. A sua e a dele. A sua não fica recebendo propina da do menino misterioso"?
Outra lembrança, mas essa de marca
na vestimenta, ocorreu há dois meses. O protesto
corria solto quando um líquido
amarelado lhe umedeceu a blusinha vermelha. Fernanda olhou pra cima e jamais
vai esquecer o olhar debochado da senhora do primeiro andar, pinico na mão. Agora,
inusitado mesmo...
Fernanda guardou a lembrança, já
que alguém da garagem brincava com ela:
- E aí, Nanda, a lula ao ponto não
vai sair não, é?
“Não. Vai sair agora cunha de boi e
coxinha de sapo, seu golpista Edu”, devolveu Fernanda, dando por encerrada as
tarefas da cozinha, juntando-se aos amigos e fugindo do sonso Michel, o patrão
de seu filho. Recebia-o por educação, porquanto o balofo era um tremendo traíra,
já que, casado, não perdia a oportunidade de assediá-la, embora utilizasse os
mais desprezíveis subterfúgios. Não era por ser divorciada que entregaria seus
quarenta e cinco anos de volúpia a um sem-sal qualquer.
- Um viozinho, Fernanda?
- Não. Obrigada, Michel. O vinho
não me seduz neste momento. Só tomo vinho quando o prazer me olha.
Fernanda se referia às previsões de
derrota da presidente Dilma. A expectativa era saber qual deputado pronunciaria
o sim de número 342.
Bem, acabados os discursos, os
deputados começaram a votar. A cada voto, o alarido tomava conta do democrático
ambiente. Fernanda puxava os aplausos do não. Augusto, seu filho, comandava as
aclamações do sim. Os “pelo isso e aquilo” completavam a festa. Rejeição unânime
apenas quando o Bolsonaro fez apologia do Ustra.
Mais um voto, mais “pelos” pronunciados:
“Pelo
meu país, pela lindíssima garota que nas Diretas Já, em 1984, derrubou meu saco
de pipoca, deixou-me sem voz, estirou-me a língua, e de quem ainda espero o
pedido de desculpa, voto sim, seu presidente”.
O pulo da Fernanda, com o apoio de palmas
e lágrimas, deixou a galera de queixo no chão. Olhavam-se e sorriam amarelo. Coube
ao filho, o Augusto, o comentário:
- Ué! Você tá bem? Virou a casaca,
mãe?
Fernanda esfregou os olhos, deu uma
fungada e pediu sorrindo:
- Quem me dá uma taça de vinho?
Abril/16,
TC
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