quarta-feira, 18 de agosto de 2021

MINHA ÚLTIMA VEZ

 




MINHA ÚLTIMA VEZ

            Não direi a data (foi antes da pandemia), mas revelarei o como e com quem.

Tenho o costume - costume não é a simples repetição de atos. É o orgasmo do precedente - de dar olhadinhas na rua sempre que passo pelo monitor das câmeras. Então. Tomei a vacina, tomei o caminho de casa, tomei banho, tomei um cafezinho e tomei um susto ao flagrar a moça descendo do carro. Cheio de espaço na frente e atrás, mas ela entendeu de estacionar o automóvel atravancando a minha garagem. Uma luta pra ela sair do carro. Saiu e logo percebi a causa. O excesso de beleza e a carência da agilidade dos comuns mortais tornavam-na presa ao cinto. Assemelhava-se a uma deusa, sim. Desceu, deu cinco passos e me deu um choque: é a Miraia. Mirainha por aqui. Meu Deus. Nossa. Ela dá os passinhos e volta pro carro. Esquecera algo ou percebera o automóvel obstruindo a garagem. Ou as duas coisas, obviamente. Volta pro carro tirando a máscara. Não era a Mirainha. O foco da câmera não ajudava, mas ela não era. Ou seria a Miraia pós-quarentena? Falo assim porque a moça era contagiante pandemia de luxúria. Autêntico avião, tal qual a Mirainha.

Mirainha ou não, certo é que as constrangedoras e angustiantes recordações não deram a mínima para a incerteza. As cenas daquela noite bateram-me com força. Não desejo que tresloucados petistas ou bolsonaristas passem por tamanho constrangimento. Deu-se assim.

Servidores federais faziam um encontro preliminar, num hotel, em Fortaleza, para grande evento reivindicatório que se daria em Brasília. Coisa das dez horas da sexta-feira, dávamos por encerrado o encontro. De Natal, apenas eu e a Mirainha. Nosso voo estava marcado para as duas horas da manhã do sábado. Fechamos o hotel, caríssimo, e fomos para uma pousada nos arredores do aeroporto. Por sugestão da Mirainha, acrescento. Alegou ela, no jantar da quinta-feira:

Muito caro pra gente ficar aqui e muito tempo pra gente ficar zanzando no Pinto Martins. Melhor a gente se acomodar numa pousada ali por perto. A diária deve valer a pena. Podemos rachar. Não vejo problema em ficarmos num quarto só. O que você acha? É claro que espero um comportamento exemplar do nobre cavalheiro.

Falou e danou-se a rir a pragmática brincalhona. Também ri, ainda que amarelo. Convém informar que ao conhecer a Mirainha homem algum fica sem imaginá-la. Nunca fui homem algum, de sorte que eu também a imaginava. Com todo o respeito, mas a imaginava, sim. Tanto que a sugestão do quarto comum me pôs em parafuso. Tipo do contexto que o diabo adora, pensava.

Mirainha vai pro shopping depois de tirar minutos de soneca no quarto. Fico lendo Adriana Falcão. Às sete horas fomos jantar – sopa - no refeitório da pousada. Voltamos, a Mirainha fica assistindo ao noticiário da TV. Continuo lendo a Adriana. Receoso de me trair, pois o olhar não engana, especialmente o de fome carnal, não tiro os olhos do livro. Penso em ir tomar um cafezinho, ou uma cerveja, ou um ar puro, mas desisto. Entendo que precisamos enfrentar nossos demônios. Criar contextos artificiais a fim de fugir de contextos fidedignos é perda de tempo. Serve tão só para fortalecer e justificar os contextos autênticos. É tapar o sol com a peneira, como ensina a sabedoria popular.

Agora, é doloroso para um artesão ficar indiferente a uma escultura a dois metros de si. O artesão perito quer admirá-la. Ele sempre percebe a necessidade de toques, retoques, recortes. Mas os meus preceitos morais, talvez arcaicos, vinham aos magotes balançando o não de cabeça. Acatava, é verdade, mas a verdade verdadeira é que ali se faz presente um quê de danação. Tão verdade que a Mirainha percebe:

Vixe como você gosta de ler. É impressão ou está evitando me olhar?

Que ideia mais maluca, Mirainha.

Perdão, criatura.

Fiz uma aquiescência de mãos e aproveitei o momento pra ir ao banheiro, já que há tempo estava apertado. A voz meiga da ardilosa Mirainha, contudo, deixou-me agitado ao extremo. O olhar da pestinha era ironia pura. Levantei-me da cama e saí espreguiçando-me pra frente, meio encurvado. Mas com o canto de olho vi bem que ela fazia um sorriso de canto de boca. Vi assaltante me assaltando, trem virando, navio afundando. E vi avião caindo. Vi de tudo, porém voltei do jeitinho que fui. Mas a Mirainha não estava do jeito que ficou. Sentada no meio da cama, joelhos dobrados, ria à vontade. E tinha o livro da Adriana junto aos seios. Falou rindo o risinho rouco de vampe:

Pra pegá-lo precisa pegá-los, criatura.

Daquele momento em diante o tempo voou. Fiquei num frenesi só. Fiquei realmente nervoso. Jamais ficara assim em situação semelhante.

Acontece. Relaxe, dizia a Mirainha, rosto colado ao meu.

Não tinha jeito de relaxar. A mente começava a encher-me de maus pressentimentos.

O terrível presságio foi me invadindo, contudo administrável durante os procedimentos preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Mas antes de se estabilizar deu uma balançada ameaçadora e passou segundos descendo.

Nossa, Mirainha, exclamei, depois de tê-la abraçada fortemente.

Tenha calma, relaxe. Acontece. Isso vai passar, criatura. É a primeira vez que você fica assim?

Sem fitá-la, balancei o sim. Sentia-me um lixo, impotente pra tudo. As lágrimas chegaram. Voltara a ser criança. Tão criança que a Mirainha julgou necessário me aninhar em seus peitos, ficar massageando-me o pixaim e repetir o “acontece, tenha calma, isso vai passar, criatura”. Mas não havia massagem que desse jeito.

Não disse que a Mirainha era um autêntico avião? Pois foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo, fui indo, fui indo, até o bem-querer dela deixar-me extasiado. Nisso, sinto um fortíssimo solavanco. Fez-me até dar duas golpadas. Mas aí a prevenida Mirainha já estava me equipando com o recipiente de conter vômitos.

Olhei pela janelinha e vi as luzes de Natal. O solavanco tinha sido do trem de pouso. Estávamos chegando. A turbulência estava indo embora. Eu nunca tinha tido tanto medo de morrer. Ufa.

O avião aterrissou numa boa. Descemos. Agradeci por tudo e roguei-lhe segredo sobre a situação. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, eu havia chorado nos braços da Mirainha?

Não vou pra Brasília, Mirainha. Essa foi a última vez que viajo de avião.

Mirainha não falou uma nem duas. Só fez me olhar assim, assim, assim. Assim, sabem?

     Bom. Finalmente a moça estava saindo do carro. Saía com uma taça de vinho na mão esquerda. Caminhou pro meu portão. Apertou o botão da campainha e se apresentou. Não era realmente a brasileira Miraia. Era a colombiana Sylvia. Pra não deixar dúvida, ela falou em espanhol e português:

        Hola, soy Sylvia. Quiero hablar con mi autor.

Olá, sou a Sylvia. Quero falar com o meu autor.

Não cabendo em mim, destravei o portão e fui recebê-la. Aí, aí... Aí não tinha ninguém. Nem carro estacionado.

Alisei o dolorido braço e massageei o quengo: caramba, que reação devastadora tem essa vacina.

 

8 do 21

TC                                                     

TIM-TIM

 

 


Atenção. Preciso testar uma coisinha do blogue. Você poderia escrever um OK aqui embaixo, na área de comentários? Fica a seu critério se identificar, O OK me basta, tá OK? Um abraço