DON PORFÍRIO - O DESUMANO
Estão sozinhos no
apartamento. Ele no sofá de cetim. Ela na cadeira de palhinha. Ela de olhos nele.
Ele incapaz de fugir dos olhos dela. Excitadíssima, ela serve luxúria e é
servida de imaginação. Indiferentíssimo, ele é servido de luxúria e serve
imaginação. Olhos semicerrados, taça de vinho - de beber - na mão, outra - de
ler - no colo, ela beberica, folheia e imagina o fogo dele pertinho de seus
lábios. Ele se vê vendo a prazerosa fumaça saindo dos lábios dela. Ela é linda,
conservadora e heterossexual. Ele é asqueroso, liberal e pansexual. Tinham tudo
pra dar errado. Mas há peculiaridades nela e nele que os deixam
apaixonadíssimos. Pra ele, o toque dos dedos dela: prévia do contato labial dos
deuses. Pra ela, tocá-lo com os dedos: prévia da sugada dos deuses.
Ela é escritora. É xodó de
poetas e romancistas. Ele nada escreve, mas é igualmente xodó. De alguns e
algumas, diga-se. De outros e outras é inimigo mortal. Vivem tampando o nariz
pra ele. Ele é passivo por natureza. Ela se esquenta por qualquer
contrariedade. Daí ela pegar ar em razão da passividade dele e gostar de esquentá-lo
também.
Como agora, quando acabam
de chegar de um lançamento literário, cujo livro repousa no colo dela.
Ela olha pro sofá fixamente.
Parece querer jogar fumaça pelas ventas. Então dilata as pupilas, alisa prateado
isqueiro em forma de caneta, fita-o no sofá feito pidona e acaricia o cabelo.
Ele percebe naqueles sinais
que ela está súper a fim.
Ela respira fundo, simula
jogar na cara dele uma tragada de rancor e expele o ressentimento:
Diz que ele não faz a
menor noção do que seja amor, que é tão só um aproveitador do emocional dela, a
ponto de tê-la tornado dependente dele, e que, ainda acha pouco, e fica lhe fazendo
pouco. E arremata em bom som:
“Você me dá prazer, é
certo, mas é desumano, sim. Mas nunca se esqueça de que fico pagando por isso,
seu gigolô de merda. Aliás, você tá mais pra garoto de programa, meu”.
Faltou-lhe chão. Sofá,
melhor dizendo, já que no sofá ele estava. Quis jogar-lhe na cara um bocado de
coisas, mas viu que os argumentos só iriam tocar mais fogo no emocional dela. Está
acostumado a vê-la puxar briga em razão da tranquilidade dele. Mais ele dando o
mote.
Percebia a causa de seu
ressentimento. Ela achava que ele fazia pouco dela porque fez companhia a duas
de suas colegas no lançamento do livro. As colegas o chamaram para tomar um
pouco de ar puro no terraço da livraria. Foi, até para que ela entendesse que
ele não era exclusivo dela.
Gigolô, garoto de
programa. Quem já viu? Nunca lhe exigira nada. Nem dela nem dos milhões de
mulheres que conhecera.
Ele fica alerta. Ela está
se levantando da cadeira de palhinha. Vem pegá-lo, já que imprevisível. Não
vinha. Passou pelo sofá só faltando estraçalhá-lo com os olhos, dizia-lhe o
olhar de desejo e a cara de vampe.
Deve ter ido usar algum artifício a fim de se aliviar. É nisso
que dá certas abstinências. Se pudesse, diria algumas verdades a ela. Estava cheio daquela oscilação de humor. Diria na cama, local onde ela o consome com mais vagar e carinho, embora termine enojada, pois vai correndo lavar as mãos e escovar os dentes. Por que tamanho asseio depois de tanto anseio? Estupidez, por certo. Agora, se realmente pudesse a corrigiria num brutal equívoco em que costuma incorrer. Pasmoso para letrada dama do porte dela. Ela costuma afirmar que lhe dou prazer. Não dou. Ela...A beldade voltou.
Lindíssima, de banho tomado, vestidão solto, algo na boca, dizia o remexido de
língua. Trouxe uma garrafa de vinho, uma taça vazia, um centro mesa. Pegou na
cadeira de palhinha o isqueiro em formato caneta e o livro.
Senta-se numa almofada,
de frente pra ele, e cruza as pernas. Don Porfírio constata duas coisinhas: que
ela estava realmente a fim e que esquecera algo. Havia esquecido mesmo. Ela vai
à cozinha, volta com um cinzeiro e o põe no centro mesa. Põe nele o halls que remoía,
dá uma golada no vinho e, gulosa de vontade, caminha na direção de Don Porfírio.
Don Porfírio tem a terceira constatação: vai virar cinza.
Ela o segura, remove o
selo de autenticidade, abre a tampinha de proteção, tira um cigarro, acende, dá
vigorosa sugada e põe a carteira no centro mesa. Num êxtase indescritível, fica
acompanhando os círculos da fumaça.
Ah se eu pudesse falar
com ela. Diria que não lhe dou prazer algum. Diria que dar prazer a ela e a
todos os sapiens é prerrogativa de singular ser: SEXO. Diria que só existe um
prazer no mundo. O sexual. O resto, o êxtase que ela está sentindo agora, tudo
que costumam chamar de prazer, é só, e tão somente só, sensação prazerosa. Diria
que depende do sexo a sobrevivência da espécie humana. Por isso ele é não
pecaminoso, não indecente, não vergonhoso. É criação da natureza superior. É divino.
Diria que sensações prazerosas são efêmeras, tal a fumaça que ora ela tira de
mim e solta pelas narinas. Teria muita coisa pra dizer a ela.
Por último, diria que estou
disposto a ajudá-la na insana luta de deixar de fumar, embora fique de filtro
sangrando, já que os seus lábios são os mais doces que um ser inanimado
experimentou.
NOTA. Don Porfírio, na
verdade, não é marca de cigarro. É de charuto. Mas não quis botar charuto na
boca dela. E ela não é nenhuma cadela. Ela é a Sylvia, colombiana personagem do
livro daquele lançamento. E o livro não é nenhum livro cão. Chama-se “Por Uma
taça de Vinho”. E eu? Eu sou um idiota. Sou dependente e governado por um
idiota: cigarro. Sou fumante.
Já vou.
8 do 21,
TC
TIM-TIM
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