Vejamos os microcontos da
postagem de hoje.
1. Pediu caranguejo. Marido trouxe. Ao abrir a embalagem, berrou. “É siri! Não
quero”. Marido: “Amor, siri é
caranguejo melhorado, coma!” (Rubo Medina, Canto do Escritor).
2. Por que não me abraçam, não riem pra mim, não me
chamam pra mesa? Só porque tô descalço nem trouxe presente? Ninguém merece!
(Tião).
BAR-TE-PAPO NATALINO
Renato chegou ao Parlamento Bar e começou a praticar
seu esporte preferido. Pensaram em levantamento de copo e arremesso de piúba?
Maldosos, vocês, não! O esporte predileto do Renato é observar. Conjugado a
alguns levantamentos, naturalmente. Naturalmente que geladamente. Certos
levantamentos, quando quentes, segundo o Renato, nunca descem redondos.
O Parlamento é excelente ponto de observação. Gatos e
gatas abundam por lá. Cachorros e cachorras também. Bem-te-vis,
galos-de-campina e pardais brindam os cliente com verdadeiras sinfonias.
Alojam-se nas castanholas do canteiro e pegue cantoria.
Aboletado numa mesinha do canteiro, Renato pede uma
gela à Vanessa e curte esse cenário. Nisso aparece um gatinho branco, dourada
cordinha adorna-lhe o pescoço. O bichano passa por ele, olha-o de relance,
para. Fica cerca de trinta segundos olhando fixamente para o Renato. Já viveu
essa experiência, leitor? Chega a embevecer e a incomodar, não é? Parece que o
animal quer nos dizer algo. É impressionante! Bom, Renato dá-lhe um sorriso de
cumplicidade e levanta o polegar. O Gato eriça os pelos, abana o rabo e vai
embora.
Renato desvia a atenção
para um casal que se acomoda na mesa vizinha. Ele, agitado, tenso, nervoso. Ela, serena, calma, tranqüila. Diz ela ao rapaz que precisam resolver aquele imbróglio. Não demora dez segundos para Renato reconhecê-la, pois sempre que estava ali obserbebendo a bonitona aparecia. Nunca lhe acompanhava o mesmo homem. Invariavelmente, procurava sentar-se ao redor de Renato. A moça é extremamente feminina, absurdamente linda, escandalosamente sensual, de voz dengosamente doce. Quanto ao Renato...
para um casal que se acomoda na mesa vizinha. Ele, agitado, tenso, nervoso. Ela, serena, calma, tranqüila. Diz ela ao rapaz que precisam resolver aquele imbróglio. Não demora dez segundos para Renato reconhecê-la, pois sempre que estava ali obserbebendo a bonitona aparecia. Nunca lhe acompanhava o mesmo homem. Invariavelmente, procurava sentar-se ao redor de Renato. A moça é extremamente feminina, absurdamente linda, escandalosamente sensual, de voz dengosamente doce. Quanto ao Renato...
“Podes, Renato, elevar tua imaginação ao cubo que
ainda será insuficiente pra quantificar a beleza, a inteligência e a doçura
dessa moça. Estás a fim dela, não?”, disse-lhe aquele sujeito, falando alto,
fixando os olhos na moça, estendendo a mão pro Renato, puxando uma cadeira, sentando-se
e pedindo a Vanessa uma taça de vinho.
Desculpe, amigo, mas você me conhece? Como é que sabe
meu nome? Que negócio é esse de elevar minha visualização ao cubo? Você parece
desequilibrado. Tá louco, meu? Renato foi contundente na repreensão, a fim de
mostrar ao casal que não compactuava com a postura inconveniente do desatinado.
“Só estás certo em chamar-me de amigo. No mais,
cometeste duas impropriedades.”
“Primeira: não estou aqui a negócio. Estou em missão.”
“Segunda: não falei em visualização. Falei em
imaginação, meu amigo. São coisas diferentes, Renato. Imaginar é visualizar
aquilo que ainda não conheceste. Visualizar é imaginar aquilo que já
conheceste. Se só faz dois minutos que viste a moça, como podes visualizá-la?
Porque poderes me foram outorgados, eu sim, posso visualizá-la. Acompanho Maria
há 29 anos, 28 dias, 4 horas e 18 minutos. É claro que podes imaginá-la
feminina, linda, sensual e doce. Uma gata, no linguajar de vocês. Só não podes
visualizá-la. Refiro-me, naturalmente, ao sentido em que estás a pensar, o do
prazer sexual. Mas a imaginação do prazer, qualquer que seja a origem, é a
fonte de tudo, estás a entender, Renato?”
Eu a conheço, sim,
moço! Não conto as vezes que a vi aqui. Você quer dizer que a origem da gente é
o prazer e que tal prazer, a fonte de tudo na vida, nasce da imaginação? É
isso, mesmo, seu, seu...
“Nazareno, Renato.
É isso mesmo. Mataste a pau, meu. Mas não conheces essa moça, não, Renato. O
nome dela é Maria. Quem costumas contemplar aqui no Parlamento é a irmã gêmea
da Maria, a Miraia. Sabias que a Maria é pu...”
Bicho, exclamou o Renato, quase cochichando, sem
querer ouvir a última sílaba do palavrão. Você é doido de pedra, cara. Pelo
amor de Deus, fale baixo, caso contrário esse baixinho vai nos encher de porrada.
Você chega a minha mesa, não se apresenta e começa logo a falar barbaridades,
rapaz? Dizer que a moça é puta é demais. Vou mudar de lugar. Quer me meter em
encrenca, homem de Deus! Outra coisa, continuou o Renato, aliviado e atônito
com o comportamento do casal: parecia que o maluco não havia falado nada, tal a
indiferença deles. Outra coisinha, repetiu, qual é a diferença entre imaginá-la
e visualizá-la?
“Calma, Renato”, exclamou o indiscreto, segurando-lhe
o braço. Só então o Renato pôde avaliar direitinho aquela criatura. A figura
deveria ter entre trinta e três e trinta e cinco anos. Era alto, rosto
comprido, barba cerrada. O olhar era impressionante. Era firme, era penetrante,
era sincero, era sereno, era amoroso, era... Nunca achara macho bonito, mas
aquele aluado, senão bonito, mas fascinante era. É o que as mulheres chamam de gato, pensou o Renato.
“Sossega, Renato. Concede-me um travessão? Quero te
dizer uma coisa.”
Você tem uma maneira bem esquisita de pedir a
palavra. Nunca ouvi isso. Concedo-lhe o
travessão, sim.
- É o seguinte. Imaginar é visualizar aquilo que ainda
não conheceste. Visualizar é imaginar aquilo que já conheceste. Como conheço a
Maria de cabo a rabo, posso visualizá-la e chamá-la de pura. Pura! Falei pura,
não puta. Compreendeste bem, Renato? Tu não a conheces, por isso só podes ter a
primeira imaginação.
Muito bem, agora vou te dar um beijo de despedida e
bater um papo com o acompanhante de minha afilhada pra ver se ele deixa o
coraçãozinho dela em paz. Antes, pega este cartão de Natal. São meus votos de
felicidade a ti, aos amigos, aos colegas de trabalho e - por que não? - aos parceiros de cerveja.
Ei, cara, você não é nada criativo, né, brincou o
Renato, lendo o cartão:
Feliz Natal e próspero ano-novo.
Outra coisa, sabichão, que papo é esse de me dar um
beijo? Sei não, bicho, mas...
Você é... é... é... Gay?
Que conversa é uma, Renato? Perguntei se queria outra
cerveja, e você me responde, num tom escancarado de preconceito, se sou gay?
Qual é, Renato, indignou-se a Vanessinha.
Falei com você não, Vanessa. Falei com o esquisitão
aqui. Cadê ele? Cadê o casal dessa mesa? Cadê o cartão de Natal que estava
aqui?
- Chega, Ricardo, Renato tá delirando. Não havia
ninguém com você, Renato, tampouco havia casal nessa mesa, seu aluado.
Renato sorriu amarelo, pagou a cerveja, levantou-se e
ficou imóvel a olhar o gatinho branco que caminhava na direção dele.
O bichano passa por ele, olha-o de relance, para. Fica
cerca de trinta segundos olhando fixamente pra Renato, coça a barbicha, dá uma
gargalhada em forma de miado e afasta-se, faceiro.
Renato coça o queixo, dá um miado em forma de
gargalhada e vai pro carro, matutando e feliz com a ideia que acabara de ter
após a conversa com o esquisitão.
Tenho papo pra noite, pensou Renato. Venho pra cá, aí
provarei ao Ivanildo, agnóstico todo, a existência do Criador ou outro nome que
se queira dá ao Manda-chuva. Sexo e imaginação, Ivan, constituem a prova de
tudo, direi. É impossível não antever a Presença Infinita no ato de geração do
ser humano. Do contato físico entre um homem e uma mulher vir ao mundo outro
homem ou outra mulher é algo transcendente, axiomático. E axioma é como
sentença judicial, aceita-se e cumpre-se.
E o que há por trás desse milagre, senão o prazer
proporcionado pelo sexo? Por que a humanidade não se extinguiu na primeira
geração? Sabe qual foi o pulo do gato, meu caro Ivan? A imaginação. Se homens e
mulheres são anatomicamente iguais, sem a imaginação antecedente do prazer
carnal não haveria motivo para continuar a se esfregarem, pois o tédio os
abraçaria, não é verdade? Acha você que depois dos coitos da primeira geração,
rolaria alguma pegação caso a galera não ficasse imaginando os momentos do
sublime néctar? Duvido dê o dó!
Então, como acabei de dizer, meu caro Ivan, Deus, o
Criador, seja qual for o nome que lhe demos, seja adorado em templos distintos,
seja no Ocidente, seja no Oriente, esse Cara, Ivan, repito, reside na
imaginação agasalhada em nossa mente. Deus está em nossa imaginação. Melhor
ainda, Ivan: Deus é a própria imaginação. Deus é mental, sacou, Ivan?
Ah, você está simplesmente dizendo, Renato, que somos
racionais, daí sentimos prazer etc. etc. etc. grande novidade, dirá o Ivan. Aí
eu pego a historinha da imaginação/visualização do barbudo e entro de sola
nele:
Sabe, Ivan, visualizar é imaginar o que conhecemos.
Imaginar é visualizar o que não conhecemos. Visualizamos o prazer sexual de
quem somos parceiros, visualizamos o prazer de um jogo de futebol que a ele
assistimos, visualizamos o prazer de um bocado de coisa, correto? Mas ficamos
doidos pelo repeteco, ou seja, ficamos imaginando. Entenda, Ivan. Já conhecemos
a genitália, os artistas da bola, os atores da peça, mas não conhecemos o
prazer do porvir. A origem de tudo – até porque na ausência dele não estaríamos
aqui - é o prazer supremo, o sexual, tanto que nos comprazemos apenas com a
imaginação, sem o correspondente... Entendesse, ou quer que desenhe, Ivan?
Renato anteviu o riso irônico e o deboche verbal do
Ivan:
Quanta babaquice, Renato.
Renato estava abrindo a porta do carro quando ouviu a
voz:
“Renato, Renato! Estás pensando em que, homem, pra
ficar assim tão longe?”
Renato virou-se e viu a escultural mulher. Será a
Maria ou a Miraia? Ah, tanto faz:
Tô imaginando você.
É isso, boas festas pra vocês e até mais ver,
Tião
2 comentários:
Parabéns amigo por este espaço e muito obrigado por este presente maravilhoso adoramos. VALEU!
Não cabe agradecimento, meus nobres. Cabe, isto sim, lamento. Isso, é claro, na hipótese de caírem na besteira de ler o tijolão. Mas quem o leu gostou. E quem está lendo está gostando. O problema é que a história que eu queria contar precisava de muitos detalhes. Aí não contei conversa e tornei o bicho gigante. Mas, não me recordo se disse isto no autógrafo, o livro serve pra insônia (basta ler uma página), é útil para calçar móveis, e é ideal para exercício muscular.
Escuta só, Franklin, acho que errei a grafia de teu nome na dedicatória. A culpa foi da danada da Patrícia, viu, Elecinda? Ela vai negar, vai dizer que eu estava bêbado, mas é a pura verdade. Verdade que ela vai negar, entendam, não que eu estava bêbado.
Falar em Patrícia, leram o texto O HOMEM DE BRANCO? A história se passa no barraco da mãe dela.
Doidice total, gente.
Um abraço pra vocês e um grande 2012.
Valeu!
Tião
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