sábado, 5 de fevereiro de 2022

NO QUARTO DA VALDIRENE

 



            Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa:

– Estava aflita para você chegar.

E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha:

– Tem um homem no quarto da Valdirene.

Sacudiu a cabeça com irritação:

– Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela nunca me enganou.

Valdirene, a jovem empregada, uma mulata de olhos grandes, não faria feio num palco.

– Como é que você sabe? – perguntou ele, para ganhar tempo. Não partilhava da opinião da mulher: desde o primeiro dia achou que a Valdirene era ótima.

– Sei porque vi. Escutei um ruído qualquer aí fora no corredor, olhei pelo olho mágico, e vi quando ela punha ele para dentro pela porta de serviço.

– Ele quem?

– O homem. Não sei quem é, só sei que é um homem. Deve ser o namorado dela, ou o amante, tanto faz. O certo é que os dois estão trancados lá no quarto faz um tempão.

– Vai ver que já saiu.

– Não saiu não, que eu não sou boba, fiquei de olho. Está lá dentro com ela até agora.

– E o que é que você quer que eu faça?

– Quero que bote ele pra fora, essa é boa.

– Por quê?

Ela botou as mãos na cintura:

– Por quê? Você ainda pergunta por que? Então tem cabimento a gente deixar que a empregada receba homens no quarto dela? O que é que essa menina está pensando que minha casa é? Um motel? Se você não for lá, eu mesma vou.

– Espera aí, vamos com calma, mulher. Você tem razão, mas deixa a gente raciocinar um pouco. Não podemos é perder a cabeça. Pode ser perigoso. Como é que ele é?

– Não cheguei a ver direito. Só vi que era um homem. Para mim, basta.

– Não posso ir lá no quarto dela sem mais nem menos. Quem sabe é algum parente? Um irmão, talvez…

– Um irmão, talvez… Você tem cada uma! Pior ainda: que é que um irmão tem de ficar fazendo trancado no quarto com a irmã como eles dois estão? Você tem de pôr esse homem pra fora.

– E se estiver armado? Ele pode muito bem estar armado.

– Já que você está com medo…

– Não estou com medo. Só que temos de agir com calma. Vamos ver como a gente sai dessa. Deixa comigo.

Ele respirou fundo e se meteu pela cozinha, ganhou a área de serviço, ficou à escuta. Nada, tudo quieto e às escuras no quarto da Valdirene. Bateu de leve na porta:

– Valdirene.

Via-se pelas frestas da veneziana na própria porta que o quarto continuava no escuro. Ele bateu de novo:

– Valdirene, está me ouvindo? Valdirene!

Escutou alguém se mexendo lá dentro e a voz estremunhada da moça:

– Senhor?

– Tem alguém com você aí dentro, Valdirene?

– Tem não senhor.

– Abra um instante, por favor.

Em pouco ela abria a porta, furtivamente, e o encarava sem piscar. Vestia um baby-doll pequenino e transparente que, sob a luz mortiça vinda da área, deixava quase todo seu corpo à mostra.

– Acenda essa luz, minha filha.

Mais para vê-la melhor do que para olhar o quarto, pois mesmo no escuro podia-se verificar que ali dentro não havia mais ninguém. Luz acesa, ela se protegia discretamente com os braços, enquanto ele dava uma olhada rápida por cima do seu ombro:

– Tudo bem. Desculpe o incômodo. Boa noite.

Voltou para a sala, onde a mulher o aguardava, tensa de expectativa. – E então?

– Não tem ninguém.

– Como não tem ninguém? Pois se eu vi o homem entrando!

– Se viu entrando, não viu saindo. O certo é que não tem ninguém no quarto da Valdirene, além dela própria. Vamos dormir.

– Como é que eu posso ir dormir sabendo que tem um estranho dentro de casa? Você vai voltar lá e olhar direito.

– Eu olhei direito. Se não acredita, vai lá e olha você.

– Quem é o homem nesta casa? Se você não for olhar eu não fico aqui dentro nem mais um minuto. Vou direto à polícia.

Ele ergueu os braços e os deixou cair, com um suspiro resignado:

– Essa mulher, meu Deus. Agora é você que está com medo. Direto à polícia. Como se fosse um crime… Tudo bem, eu vou lá olhar direito.

Voltou a bater na porta da empregada:

– Valdirene.

Desta vez ela respondeu logo:

– Senhor?

– Abra aí um instante, por favor.

– Sim senhor.

Ela abriu e foi logo acendendo a luz. Estimulado pela nova oportunidade de vê-la tão de perto, ele perdeu a cerimônia e entrou no quarto. Sempre de olho nela e ouvido atento à mulher lá na sala. Ali dentro só cabia a cama e o armariozinho com uma cortina, atrás da qual ninguém poderia se esconder. Ainda assim ergueu o pano para se certificar. Satisfeito, voltou-se para a moça que, ao sentir seus olhos tão próximos, abaixara modestamente os dela:

– Desculpe, minha filha. É que minha mulher, você sabe, quando ela cisma uma coisa… Mas pode dormir sossegada. Boa noite.

Na sala, a mulher voltou a questioná-lo:

– Você olhou direito desta vez?

– Não há como olhar errado. Um quarto deste tamaninho! Olhei o que tinha para olhar: a Valdirene e a cama.

– A Valdirene e a cama? O que você quer dizer com isso?

– Não quero dizer coisa nenhuma. É que ali dentro não cabe mais nada além da Valdirene e da cama.

– Não é isso que parece estar insinuando, com essa sua cara.

– Que é que tem minha cara? Você é que insinuou que tinha um homem lá dentro, não fui eu. Não me admiraria nada. Mas acontece que não tem. Só faltou olhar debaixo da cama.

– Não admiraria nada – ela o imitou, com um trejeito. E ordenou, braço estendido:

– Pois então vai olhar debaixo da cama.

– Essa não! – relutou ele: – Já disse que não cabe ninguém…

Mas acabou indo. Pobre da menina, de novo importunada:

– Me desculpe, Valdirene, mas é preciso que você abra aí outra vez.

Ela acendeu a luz, abriu a porta e deu-lhe passagem. Seus olhos o acompanharam impassíveis, quando ele entrou e se agachou para olhar debaixo da cama. De quatro, sentindo-se ridículo naquela postura, ele baixou a cabeça até que a ponta do queixo tocasse o chão, e enfiou-a sob o estrado. Seu nariz esbarrou de cheio em algo branco e macio – era nada menos que o traseiro de um homem.

– Oi – assustou-se, recuando.

– Oi – fez o homem, como um eco, encolhendo-se ainda mais.

Ele se ergueu. Perturbado, limpou a garganta, procurando dar firmeza à voz:

– O senhor tem um minuto pra sair deste quarto.

Um último olhar para Valdirene, como a dizer que sentia muito, mas não podia deixar de cumprir o seu dever, e foi ter com a mulher na sala:

– Tinha sim. Tinha um homem debaixo da cama. Está satisfeita?

– Eu não disse? E o que é que você fez?

– Mandei que ele se pusesse pra fora. É o tempo de se vestir.

– Meu Deus, ele estava nu?

– Que é que você queria? Não sei é como ele pôde caber lá debaixo. Imagino o susto dele. E o da Valdirene, coitadinha.

No dia seguinte, mal amanheceu, ela despedia a Valdirene, coitadinha.

 

No Quarto da Valdirene foi escrito por Fernando Sabino (1923 – 2004). Sabia disso, não sabia, irmã? Permita-me, porém, uma indiscrição. O grande Sabino excluiu detalhes e alterou o desfecho da história, irmã. A Valdirene não foi despedida. Veja a verdade.

Essa treta se deu no Rio de Janeiro em 1983. A patroa da Valdirene chamava-se Rita e o patrão era conhecido por Gastão. Gastão era amante da empregada, a Valdirene. Viviam apenas os três na casa. A rotina noturna era esta. Sete horas e já estavam jantando. Apenas a Valdirene e a Rita, pois o Gastão costumava ficar bebendo e jogando sinuca na rua. Jantavam e, na companhia da vizinha, a Claudete, assistiam às novelas da Globo na TV da sala. Só a Rita e a Claudete, diga-se, pois a Valdirene logo começava a cochilar e ia dormir. Dormir, mas era só chegar aos aposentos para também logo o sono passar e ela passar a esperar o Gastão. Já a Rita e a Claudete emendavam Guerra dos Sexos, Louco Amor e por aí vai.

É lógico que nem toda noite o Gastão batia ponto no quarto da Valdirene. Mas para não dar bandeira, todas as noites o sono da Valdirene passava o cartão na hora da novela. Não dava ponto sem nó, a mulata. O Gastão, por sua vez, assinava ponto nos bares. Nas noites combinadas, porém, dava duas batidinhas na porta da Valdirene e conferia o cartão de ponto dela. Terminada a conferência, fazia o caminho de volta aos bares ou fazia barulho na cozinha sinalizando para a esposa que estava em casa. Também especialista em ponto com nó, o Gastão “acostumou-se” a só entrar em casa pela porta do oitão e fazia de tudo para não fazer barulho no abrir e fechar. Ocorre que naquela noite o barulhinho...

Nesse ponto, irmã, o Sabino se equivoca. Rita não vê homem algum pelo olho mágico. Quem a Rita vê é a vizinha, a Claudete, que, atrasada, chega para assistir às novelas. A Rita abre a porta principal da casa, dá os básicos beijinhos na Claudete, escuta o barulhinho, fica cismada, volta pra sala e então percebe o vulto entrando no quarto da Valdirene. Se o Gastão, irmã, não cobre tão rápido o percurso oitão, cozinha, quarto, a esposa o teria reconhecido. Malandro de sorte, viu.

Pois muito bem, ligadona nas novelas, a Rita nem sonha com a caseira pegação. Naquela noite, contudo, uma atônita Rita fofoca com a Claudete e ficam, as duas, com um olho na novela e outro no quarto da Valdirene. Esperavam o homem sair para conhecer de quem a serviçal era a espingarda. Num dos olhos só da novela, o sortudo Gastão sai e volta pro bar sem elas se darem conta.

Mais um detalhe, irmã. O Gastão foi quatro vezes ao quarto da Valdirene e não três, como disse o Sabino. Entenda. O Gastão não podia ficar de papo com a Valdirene, já que fora ao quarto apenas para ver se havia um homem com ela. Então ele voltava e dizia displicentemente à consorte que não havia homem lá. Inconformada, a Rita o mandava retornar: “Olhe direitinho, veja a cortina, espie debaixo da cama”. Era só o que Gastão queria. Voltava e voltava a fazer planos com a Valdirene.

A verdade é que estamos numa sinuca de bico, minha rainha. É impossível convencer a Rita de que nenhum homem entrou aqui, conformou-se o Gastão na última conversa com a Valdirene.

Mas há saída pra tudo, meu rei. Diga a sua mulher que realmente tinha um homem debaixo da cama, que você deu um minuto pra ele pegar o beco e que quero falar com ela. Vá. Traga a patroa e nos deixe a sós.

Tá maluca, Val? Minha mulher... Vê o que vai fazer, Val.

Vá, homem. Deixe comigo.

Rita veio pisando em brasas. Mal a Valdirene tranca o quarto, o Gastão encosta o ouvido na porta:

O que quer? Quer que eu mande pro olho da rua agora mesmo, é? Fazendo de minha casa motel. Tem vergonha não, sua vadia arrombada?

Vadia arrombada é você. E não grite comigo. Não grite comigo, tá legal? Seja educada. Vamos conversar.

Gastão afasta-se, olhos apitombados. Caramba! Valdirene! Quem diria. Peitando a Rita. Gastão encosta o ouvido de novo. Nada. Não dá pra ouvir nada. Vai pra cozinha tomar um dreher.

Gastão toma dois dreher de olho na porta.

Valdirene e Rita saem num sorriso só:

Estava certo, meu marido. O rapaz é irmão da Valdirene. Veio deixar um dinheiro pra ela. Aí tiveram sobrosso de você entender diferente e armaram o teatro de ele se socar debaixo da cama. A mente humana é cheia de armadilha, não é, meu marido? Esquenta a janta do Gastão pra mim, Valdirene? Vou assistir à última parte de Louco Amor.

Nossa! Ela acreditou nisso? Se eu disse que o homem estava nu debaixo da cama.

Não falei isso pra ela não, meu rei. Coisa de mulher sonsa. Mulher que tem vergonha de dizer que sente tesão igual a homem. Sua mulher inventou isso pra se passar por santa, casta, pura, essas merdas todas. Sabe o que disse a ela? Disse que, realmente, tinha recebido um antigo namorado, um coroa, que eu estava subindo pelas paredes, que ela, como mulher, devia entender essas coisas e que nunca mais isso iria acontecer. Acho bom você comprar uma peruca grisalha, meu rei. Vai que noutra bobeira dessas...

É mesmo, minha rainha, alegrou-se o Gastão, dando um beliscão na coxa da Valdirene.

Valdirene botava a janta do Gastão e ria.

Não convinha dizer ao Gastão que dissera à Rita que ela, a Rita, e a vizinha, a Claudete, costumavam assistir às novelas em sofás separados. Mas que bastava ela, a Valdirene, ir dormir, para as duas ficarem aos amassos. Os beijos de língua ganhavam de capote dos artificiais beijos das novelas a que assistiam. E que elas nunca portavam o suporte de cima. E que também não usavam a guarita do meio. Pelo menos era o que lhe asseguravam os trejeitos faciais provenientes dos trajetos de mãos.

Igualmente não convinha dizer ao Gastão que o acaso a fizera desconfiar das duas, que a perspicácia a fizera comprovar tudo e que as rotineiras brechadas a faziam se arrepiar toda.

A Valdirene amava uma cachorrada, irmã. Quando não era a protagonista, deleitava-se com o protagonismo alheio.

 


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