quinta-feira, 25 de agosto de 2022

DAMIÃO, O CORONAVÍRUS E O GALO

 

Oi, gente

Falei não falei que tava com uma coletânea de contos num pé e noutro para ser publicada? Pois! Tá pertinho. Tô na pré-venda que é pra pagar à editora, ao o Osair. Tô otimista. Em 4 meses já pré-vendi 2 exemplares. Daí que acho que não exagero no otimismo se chegar à Copa de 26 com 30 exemplares pré-vendidos. Mão na roda, né, não? A coletânea ficou porreta, gente.

Veja o conto 12, escrito por um tal de Zião. São dois os contistas da coletânea: Zião e Kião. Eles escrevem e enviam pra irmã, a Feição, avaliar. A Feição, também escritora, é casada com o Tição, igualmente escritor.

Sem mais delongas:







12 - ZIÂO – DAMIÃO, O CORONAVÍRUS E O GALO

 

A coisa começa com D. Damiana e o filho, Damião. Damião tem treze anos de sapequices. Tanto que é conhecido como Seu Danado:

Damião, meu filho, não tenho como fazer o almoço. Não vendi nenhuma máscara e o Bolsa Família só deu pra pagar a bodega de Seu Lira. Seu Lira tá muito importante. Disse que não vendia mais fiado a gente. Bom. Pegue esse galo, veja se vende por aí, e compre um quilo de feijão, um quilo de farinha, um quilo de arroz, um pacote de café, um quilo de açúcar e uma bandeja de ovos. Vê se pega ao menos cinquenta reais. Decorou?

Decorei. O galo é difícil de vender, mãe. O bem-te-vi é bem mais fácil. O povo até me chama de mentiroso quando eu digo que a gente cria um bem-te-vi. Dizem que bem-te-vi não se acostuma em gaiola. Morre de desgosto. Então se eu sair com ele...

O bem-te-vi não, meu filho. O finado seu pai é capaz de se levantar do túmulo só pra brigar comigo. Venda o galo. Vá. Mas venha logo. Não vá ficar aglomerando por aí não, viu? Leve umas máscaras. Quem sabe não consegue vender algumas.

Dessas que a senhora faz não vende não, mãe. Depois que aquele homem mandou o povo socar máscaras de pano no rabo, só... Ah, mãe, tô cansado de dizer a senhora: bote quenga de coco no lugar de pano e bambu ensebado no lugar de elástico que vamos vender feito água. Mas a senhora é uma mula de teimosa.

Damião! Misericórdia! Deixe de coisa. Agora vá, meu filho.

Damião botou algumas máscaras no bolso da bunda e saiu. Na mão esquerda o galo, na direita uma garrafinha de álcool em gel.

Aí, ao passar no oitão duma casa, vê uma janela aberta e escuta uns gemidos estranhos. Damião para, assuntando, dá uns pulinhos, apoia-se no parapeito da janela e fica de boca aberta com a presepada: um homem aglomerava com uma mulher:

Mas óia só! Puxa-vida, eu pensava que essa arrumação só acontecia de noite.

O pestinha coça o queixo, ri, olha em volta. Não dá pra subir na janela com o galo. Mas isso é café pequeno pra ele. Chama um menino que passa do outro lado da rua:

Ei, boy. Chamo, chamo e mãe não atende. Me ajude a subir aqui. Vou dar um pulinho. Depois tu me dá o galo, tá ligado?

Em segundos, Damião está sentado no beiço da cama. Bate duas vezes no ombro do homem:

Moço, me compre

esse galo, vá lá!

Mas que porra é essa! Como entrou aqui, moleque? Tá maluco, berrou o homem, subindo o cuecão.

Entrei pela janela, moço. Quem manda deixarem aberta? E não tô maluco não, viu? Quem tava maluco era o senhor e a senhora aí. Estavam até estrebuchando.

Aberta pra entrar vento devido ao corona, seu merdinha. Sai daqui, fedelho. Isso é lá hora de vender bexiga de galo, esbravejou a mulher, ajeitando a calçola e colocando as mãos sobre os caidões. Vai! Vaza!         

Nisso, a mulher, D. Messalina, escuta o ronco da moto do marido:

Meu marido. Meu Deus! Ele tem a chave. Pra debaixo da cama. Os dois. Rápido!

D. Messalina dá a ordem, veste-se e, para justificar o borradão nos lábios, suja de batom duas páginas de um livro, deita-se e “pega no sono”. Mas o marido, o Cornélio, demora um pouquinho pra entrar. Está tirando a roupa na área. Entra nu no quarto. Tosse. D. Messalina “acorda”:

Nossa, amoreco? Por que entrou pelado?

Tô com uma puta dor no pé da barriga, Messalina. Se não for por causa dos ovos que comi com batata é a peste da covid. Tirei a roupa na área por precaução de não passar a coisa pra você. Mas hoje ainda o laboratório me manda o resultado do teste pelo Zap.

Tá toda assanhada e com os beiços borrados de batom. E esse livro de quem é? Me dê ele aí. “Por uma Taça de Vinho”. O nome é bonito. É ensinando a tomar vinho, é?

Não sei ainda, Cornélio. Foi a Consolação que trouxe pra mim. Comecei a ler deitada de bruços, mas logo peguei no sono.

Já sei que não presta. Capotasse, mulher. Sujou até o livro de batom.

Enquanto isso, debaixo da cama, Damião e o homem sussurram:

Que é que tá olhando, moleque? Tá maluco? Bote a cabeça pra debaixo da cama, infeliz.

Fui ver se o tal do Cornélio tava peladão mesmo, tá ligado? Falar nisso, é bom o moço se vestir. Me dê a ceroula e a bermuda que eu fico empurrando as duas pelos seus pés. O Cornélio tá com duas pistolas, moço. Uma dependurada, pixititinha, pixititinha, e uma grandona em cima do criado-mudo. Ainda bem que o bicho é mudo, senão o senhor ia se ferrar. Ele se sentou na cama. Tá com a bunda mesmo na sua cara, moço. O moço tá pegando o rescaldinho dos peidos dele.

Rescaldinho uma ova. Rescaldão, moleque.

É mesmo. Tenho máscaras aqui. Pegue. Bote na cara. Essa covid é foda, moço. Catinga de ardido da porra. Tenho álcool gel também. Tome. Passe nas mãos e no rosto.

Ele é um policial famoso, moleque.

E é? Pois diga! O senhor vai comprar o galo, não vai? Ele canta que é uma beleza. Só num tá cantando agora por causa que eu tô segurando o pescoço dele, tá ligado? Vendo bem baratinho. Uma galinha morta.

Eu quero lá comprar bexiguento de galo, cabrito.
           Então eu vou afrouxar o pescoço dele e botar álcool no bico, tá ligado?
           Espera! Espera! Quanto é a merda desse galo?

É cem real.
           Cem reais! E você ainda diz que é uma galinha morta? Toma! Mas segura o galo aí. Não solte o pescoço dele. Quando a gente sair você me dá.
           Se a gente sair, né?

Falta cem real, seu rescaldão.

De quê?

Três cheiringadas de álcool dá 30, mais 40 da máscara, mais 30 pelo empurrado da roupa.

Ladrãozinho, você, viu?
           Enquanto isso, em cima da cama, D. Messalina dá uma sugestão ao marido, seguida duma indireta pra debaixo da cama:

Acho melhor você tomar banho, Cornélio. E segure a onda aí embaixo.
           Que droga de banho, Messalina. Já visse cacete de banho servir pra bucho inchado? Agora tá até me dando uma dor na testa. Parece que a testa vai se abrir. Faça um chá de boldo aí.

Enquanto isso, debaixo da cama, o sussurro corre solto:

Sabe, seu rescaldão. Esse abrido da testa do homem não é da covid não. É o chifre fazendo força pra sair. A mulher mandou o senhor segurar a onda, tá ligado? Tá ouvindo, seu rescaldão?

Que foi agora, porra?

Sabe, seu rescaldão, já que eu tô segurando o seu galo, quer vender ele?

É claro! Pra que eu quero bexiga de galo? Me dê os cem reais que o galo é seu.

Dou dez real, tá ligado?

Tá maluco, moleque? Você acabou de me vender por cem e agora quer me comprar por dez? Nada feito.

Então eu vou afrouxar o pescoço dele e pingar álcool no bico, tá ligado?

Tá bom, tá bom. Tá vendido, seu bexiguento. Toma. Mas pare com essa porra de tá ligado e seu rescaldão.

O senhor tira de cem? Tem noventa real aí?

Tenho não, idiota. A gente troca o dinheiro quando sair. Aí você me dá os dez.

Se a gente sair, né?

Sabe, seu rescaldão, acho que vou fazer um finca pé e pular a janela. Não aguento mais a peidaria do homem não. Mas aí eu não posso levar o galo, tá ligado? O senhor quer comprar o galo de volta ou quer que eu solte ele aqui?

Mas que droga! Isso é um inferno! Compro pelos dez que vendi, seu ladrãozinho.

É cento e dez real. O senhor desconta os dez que eu devo e me dá cem real.

Enquanto isso, em cima da cama...

Beba o chá, Cornélio. É boldo com ameixa. Santo remédio pra limpar as tripas.

Durante o tempo em que Cornélio espera pelo efeito do chá, irmã, a compra e venda do galo continua. O moleque já estava embolsando seiscentos reais quando Cornélio corre pro banheiro:

Vou abrir a porta. Saiam, saiam logo, ordenou D. Messalina.

Mas esse seu marido peida, viu D. Messalina, diz Damião, pegando o beco, ao mesmo tempo em que o rescaldão tenta alcançá-lo a fim de pegar a grana de volta.

Não consegue. Não recupera a grana. Mas recebe o galo:

Pegue essa porra, seu rescaldão, graceja o moleque, jogando o galo na direção do endinheirado amante.

A reação do endinheirado foi cair na risada em razão dos pedaços de gesso espalhados ao redor.

Duas horas depois, o rescaldão avista o moleque no estacionamento de um mercadinho. Enchia a mala dum táxi de coisas de comer. Rescaldão quis ir lá, mas acabou rindo e dando de ombros.

A esperteza do Damião passou para o anedotário popular. É que o pestinha saiu falando da história, sem dizer o nome dos protagonistas, é claro. Mas falava do homem que havia ficado com ele debaixo da cama e que o chamava de rescaldão por conta das sobras de bufas que os dois ficavam engolindo. A galera ria e... Enfim, a situação caiu na gozação. De rescaldão para ricardão foi um pulo.

 

Sabe o que quer dizer ricardão, não sabe, irmã? Pois!

            Um cheiro no coracisco, irmã.

 

 

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