O Bolso, a Barba, o Bundão, a Bela, o Botão, a Bermuda, a Batata, a
B. E o B
Sou
apolítico, Bastão, falou-me um recém-conhecido, duas semanas atrás. O contexto
era a eleição para presidente da República agora em 22. O churrasco estava assando,
a gela descendo (a primeira), o papo fluindo. Esse recém é prestador de
serviços do ramo de informática. Pequena empresa, diga-se, mas empresário é. E
é formado mas não sei informar em que. Fiquei meio assim. Meio assim porque acho
estranho a pessoa com o perfil sociocultural daquele recém declarar-se
apolítico.
Apolítico
em termos partidários, você quer dizer, provoquei-o, querendo esmiuçar o
discernimento dele.
Não
só partidário, Bastão (ele costuma comer o “i” do meu nome). Acho que política,
religião e futebol não se discute, respondeu, dando uma golada na cerveja.
Mais
uma vez fiquei meio assim. Meio assim porque acho estranho a pessoa com o
perfil sociocultural dele não entender que levantar questões a respeito de
algo, defender pontos de vista contrários etc. são sinais de maturidade. São processos
de conhecimento, sobretudo nos universais temas citados por ele. Discutir, pra
ele, é pré-bofetes, pensei.
Aí
o papo mudou e começamos a “discutir” futebol (meu recém é torcedor do América.
Sou do Alecrim). Deu-me uma crise de riso daquelas, mas o apolítico não atinava
o porquê.
Então.
Quarta-feira, 14 do 9, o presidente/candidato Bolsonaro esteve em Natal. Então,
de novo, e de novo eu tomando gela (mas sem churrasco), alguém me mostra uma
foto do recém, trajando amarelo da cabeça aos pés, bandeirola na mão – direita
-, abaixo a legenda: com Bolsonaro na Cidade da Esperança.
Estou na segunda gelada
quando o recém chega do comício. Parece “chumbado”. Traz uma latinha de Skol na mão – direita -, mas sem farda e bandeirola. Aquele alguém lhe mostra a foto e comenta com ar de riso:Vai
votar no imbroxável que não gosta de jornalista mulher, Rogério*? Acha mesmo o
melhor candidato?
Vou.
Fruto de profunda reflexão, Natália*. Acho o Bolsonaro o melhor candidato, sim.
Você não?
Não.
Não acho.
Sei.
Bom pra você é o nove dedos. O molusco que quebrou o país e que quer implantar
o comunismo aqui. O cara que os capas pretas tiraram do xilindró pra ele fazer
uma Venezuela no Brasil. Me dê um motivo pra eu não votar no candidato
destemido, autêntico, trabalhador. No presidente que bombou o agronegócio, que tá
fazendo a economia sair do buraco, que baixou a gasolina, que tá dando
seiscentos reais aos pobres. Me dê um motivo. Me dê, me dê, me dê. Quanto às
jornalistas, grande parte delas são de idiotas canhotas, amiga.
Ih!,
soltei. Melhor, prendi. Tranquei logo três “Ihs” no baú da intimidade. O
primeiro para o “comunismo aqui”, o segundo para os “capas pretas”, o terceiro para
as “idiotas canhotas”. Engraçado que eu vinha notando o enjambrado Rogério se desmanchando
pela lindíssima Natália. E ela correspondendo. Vai rolar, matutava.
Não
vai rolar. Lascou-se que é pra deixar de ser burro, Rogério, matutei de novo. A
Natália vai soltar os cachorros pra cima de você. E outros bichos.
É
hora de informar que a Natália é jornalista especializada em economia. Também é
bom anunciar que o Rogério é igualmente recém-conhecido da Natália.
Olhei
pra Natália. Ela me contradizia. Falava calmamente. Trocava bichos por batatas.
As batatas do Rogério estavam assando, certamente. Natália aplicava, digamos
assim, tremenda chicotada de cidadania no Rogério:
Você
faz parte, Rogério, de expressiva parcela da população brasileira que vê como
favor a obrigação governamental de provê-la de bens e serviços. Mas o prover
precisa ser feito com equidade entre os segmentos mercadológicos e com a devida
ponderação entre crescimento econômico e desenvolvimento social. Seu puxa-saquismo,
Rogério, desconsiderou a toxidade do modelo exportador do agronegócio, já que a
pujança vem deixando anêmicas a economia doméstica e a agricultura familiar. Sua
fala, Rogério, acerca de a economia “sair do buraco” deixa triste 33 milhões de
brasileiros que vivem de barriga esburacada de tanto passarem fome. Sobre o
mercado de combustíveis...
Nisso
a Natália suspende a falação e me olha rindo. Eu também ria. Silenciosamente, é
claro. Meu único botão, o da bermuda, já havia me dito que o bundão não estava
entendendo nada. Ou fazia questão de não entender. O que dava na mesma coisa. Natália
volta a falar. Ria. Mas de dentes trincados, num esgar parecendo careta. Sintoma
das batatas do Rogério assando, certamente:
Sabe,
Rogério, tenho a impressão de que meus argumentos econômicos lhe deixam com sono.
Falemos então de seu poder dedutivo. Descomunal poder, diria, porquanto foi só eu
dizer que não achava o Bolsonaro o melhor candidato pra você afirmar que bom
pra mim é o “molusco” o “nove dedos”. Viu-me logo eleitora do Lula, Rogério. Sou
supersticiosa com essa coisa de números, meu caro. Não morro de amores pelo 13,
mas sofro horrores com o 22. Meu número de sorte é o 15.
Meu
voto é da Simone, Rogério. Gosto de votar em mulher, rapaz.
Deixe-me
lhe contar um segredinho. Sou lésbica. Minha amante não larga meu pé. Cricri
toda, cara. Pra você ter ideia, ontem, desligada, deixei o carro numa vaga de idoso.
Pra quê?
“Ei,
mocinha serelepe, bote a porra desse carro noutro lugar. Não vê que essa vaga
não pertence a você, imbecil?
Falar
em amante, você tem uma amante, Rogério?
Não,
Natália. Sou livre e desimpedido.
Esse
é um problema, Rogério. Desculpe as obviedades, mas quem não tem amante não
ama. E quem não ama é um zero humano. Quem não ama tem zero vírgula zero de empatia,
zero vírgula zero de solidariedade, zero vírgula zero de compaixão. Conheço um
monte de pessoas sem amantes, Rogério. Elas veem as outras como veem um saco de
pipoca, recolhem a mão a outra estendida, riem do sofrimento alheio.
Minha
amante é 10, Rogério. O nome de minha amante é Consciência.
Ela,
sim, é imbroxável. E não me deixa broxar também. Percebeu no caso do
estacionamento? Quis dar uma broxada, ela já veio pra cima de mim com excitação
de sangue nos olhos e me tachando de imbecil.
Mas,
voltando à vaca fria da eleição, Rogério, você me pediu um motivo para não
votar no Bolsonaro. Quem sou eu para lhe dar esse motivo, cara. Até porque se o
desse, você o levaria na caçoada e me chamaria de canhota idiota. Agora, se
você tivesse uma amante...
Deixe-me
lhe contar outro segredinho, Rogério. Minha amante, a Cons, vive numa agitação extrema
desde que o Bolsonaro subiu nas pesquisas na eleição de 18. Tornou-se até
pornográfica aquele poço de ternura. A Cons, taça de vinho na mão, a outra “cafunezando-me”
o quengo, falava-me assim:
Esse
cara, amor, disse que só não estuprava uma mulher porque ela era uma baranga.
Esse cara é fã de torturador, Natália. Esse cara tem perfil de ditador, linda. Esse
cara mente mais, querida, do que cachorro de preá. Ele não tem cacoete algum
pra ser presidente do país, minha filha. E o povo ainda pensa em votar num cara
desse. Que porra é uma, minha paixão?
A
Cons vive acamada de angústia em razão do governo Bolsonaro, Rogério. Vou dar
só uma resumida do desabafo dela quando se inteirava das manifestações do
Bolsonaro durante a pandemia:
Não
sou coveiro – Puta que pariu, idiota.
Todo
mundo vai morrer um dia – Mas não precisa acordar a esquelética, imbecil.
Porra!
Vão
virar jacaré com essa vacina – Vou cevá-lo se comer escorpião engravatado, cacete.
Aglomerar
e passear sem máscara – Aqui, Rogério, a Cons dava um treco e desmaiava.
Tem
mais, Rogério, mas deixo as excrecências para a sua memória. Sempre depois
dessas falas, a Cons virava pra mim e perguntava numa ira de cortar coração:
Você
não vai fazer nada, amor, a fim de acabar a minha angústia? Não percebe que de
humano esse homem tem apenas o “ano” de insano? Chame as amigas e deixem de
passar pano nesse insano, minha filha.
Fiz
e continuo fazendo planos, Rogério. Quando começou a andar por aqui, até pensei
em pedir a sua ajuda. Mas... Planejo iniciar uma ação agora em outubro. Mas
receio que não possa me ajudar. O que me diz, Rogério?
Nada,
Natália. Pra ser franco, não entendi nadica de nada do que falou. Pareceu mimimi
de intelectual, de gente da bandeira vermelha. E sua amante, a tal da Cons?
Como é que ela está?
Bem
melhor, Rogério. Vem tomando promissores remédios. Vou até pedir a permissão
dela para que eu seja pragmática e acione meu plano logo no começo do mês que
vem.
Deixe
passar a eleição, Natália. Fica melhor, não é, Bastão?
Só
restou a mim e à Natália a gaitada de riso. Mas logo em seguida veio o silêncio
do pesar.
Tchau,
gente,
Só
volto no início de outubro,
TC
* Nomes fictícios
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