A Morte da Cigana
Colaboração de Mardone França
Mardone
França Cigana Cigana agonizara três dias no
curral, sem forças para se manter de pé, tampouco, se interessava mais pela água
e o capim que lhe ofereciam. Definhara tanto que as carnes já não cobriam os
ossos, os quais espetavam a pelagem branca acinzentada, outrora, luzidia.
Quedou-se estendida embaixo da latada, feita para protegê-la do sol inclemente
da seca de 1958, no Ceará. Os urubus não se achegaram; a latada, os impediam de
vê-la.
Porém, a malta de
famintos, homens, mulheres e crianças, desde o dia anterior, fazia vigilância
em torno do curral munidos de peixeiras, fações e machados, dispostos a entrar
em ação ao primeiro sinal de descuido da vigilância do proprietário que,
determinara aos seus serviçais, enterrar rapidamente, tão logo a Cigana
morresse. Era preciso evitar que a carne fosse consumida por pessoas pois, não
se sabia a causa da morte. Alguns, mais entendidos, diziam que fora tuberculose
galopante, dada a rapidez da doença, outros atribuíam à picada de cascavel ou
jararaca.
Cigana
era a estrela do pequeno rebanho, estava na terceira cria. Por ser boa
produtora de leite e de cria recente, ficou para fornecer leite à família,
enquanto o restante do gado foi na retirada para o Piauí, escapar da morte por
fome e sede no Ceará. Da fome ela escapou, mas, no sertão da seca, o bicho que
não morre de fome e sede, morre por picada de cobra, por morte matada ou por doença
desconhecida.
No terceiro dia, antes mesmo que a morte se abatesse sobre Cigana, a fome e a impaciência do grupo que fazia sentinela, era prenúncio de invasão do curral. Num instante, naquela tarde de sol escaldante,
muita gente pulou a cerca de pau-a-pique lançando-se, num salve quem puder, empunhando as armas e bramindo de contentamento sobre o quase cadáver. Uma cena estarrecedora, seres humanos se portando como urubus na carniça. Em poucos minutos, esquartejaram a desinfeliz, sem sequer tirar o couro. Estacas mais finas da cerca do curral foram arrancadas. Quartos, costelas, cabeça, vísceras maiores foram espetadas nas estacas e conduzidas por dois homens, ainda com força, um em cada ponta. Iniciava-se uma procissão macabra que
cruzou a cidade em direção a periferia, nas imediações do cemitério, aonde
moravam parte da população mais pobre do lugar. Naquele cortejo não havia a
Marcha Fúnebre, tocada pela banda de música local, comum aos rituais de
sepultamento dos mortos das famílias importantes. Ouvia-se, por onde passava o
repugnante cortejo, a algaravia de contentamento dos que conduziam os restos
mortais da Cigana, que em vida, foi tão prestimosa em fornecer leite para a
nutrição das crianças de seu dono. Agora, por alguns dias, não o leite que
secara, mas, sua carne mataria a fome de famílias que padeciam o flagelo da
seca.
Pelo que se soube, ninguém morreu por
ter comido a carne de Cigana; os vermes respeitam a fome dos homens.
***
Ainda escrevo a biografia de Cigana; sei de
sua história, sua liderança no rebanho e sua nobreza de ‘Vaca Rainha’. Nunca
ouvi falar de biografia de vaca. A vida de Cigana tem mais a mostrar do que
muitas biografias, de gente, compradas.
***
Detesto fazer isso, mas a fidelidade aos acontecimentos me obriga a consertar
um equívoco do nobre Mardone França. Os vermes respeitam a fome e a sede dos
homens. Isso é verdade. Contudo, não foi por causa do respeito dos vermes que ninguém
morreu. A verdade verdadeira, Mardone, é que ninguém comeu a carne da Cigana.
Aconteceu o seguinte.
É verdade: havia um frenético grupo de esfomeados num pé e noutro para
invadir o ambiente da Cigana naquela tarde de sol escaldante. A algazarra faminta
fazia a porteira do curral ranger e o arame farpado gemer.
Cigana jazia no centro do curral do Sr. Mozair remoendo os derradeiros
minutos de vida.
Tanto que ao examiná-la, Ana Rosa constatou que Cigana estava viva. Mas
Ana Rosa não chegou a dar a boa notícia ao marido: Cigana morria minutinhos
depois. Pelo visto, Cigana estava esperando tão somente o afago da ruivinha protetora.
Transformada num vale de lágrimas, Ana Rosa anuncia:
É a Cigana,
Ananias. Tá morta. Nossa ciganinha morreu, meu marido.
Peço desculpa aos leitores do Mardone, mas esse triste episódio não
pode ser descrito sem a participação de Ana Rosa e a do marido, o Dr. Ananias G.
Dr. Ananias G é abastado fazendeiro daquele rincão cearense. Cigana é uma das
vacas do casal Ananias, digo logo. Ocorre que, em razão da seca braba daquele 58,
o Sr. Mozair envia o magricela rebanho para o Piaui. Sensibilizado com a
situação do vizinho de duas léguas, já que o Sr. Mozair fica sem sequer o leite
diário para as crianças, Dr. Ananias G deixa Cigana aos cuidados dele. Todos os
dias, Ana Rosa ou um vaqueiro do casal Ananias levava tronco de bananeira ou
farelo para o novo lar da Cigana.
Dr. Ananias G é um rico sem besteira. O doutor do nome advém do fato de
ele ser dentista formado em Fortaleza. A profissão acadêmica é adicional prazer
do Dr. Ananias G, Mardone: ele botava a mulher, Ana Rosa, na garupa da
motocicleta e saía pelos distantes lugarejos tirando tipoia de queixos e
arrancando dentes podres.
Dr. Ananias G era autêntico altruísta. Ele e a mulher, diga-se. Dr.
Ananias cuidava de humanos e Ana Rosa, veterinária amadora, falemos assim,
cuidava de animais. Primeiros socorros para todas as mazelas não humanas não
faltavam na maleta que costumeiramente levava no bagageiro da motocicleta do
marido.
Falar em Dr. Ananias, oferece-me o ensejo de fazer um reparo histórico
sobre a literatura de postulados. Mas não posso falar do casal Ananias sem
falar do sábio rei Salomão. Esse vai e vem das coisas, Mardone, é um dos
motivos deste matuto escrevinhador não ser lido. Reluto em omitir fatos, a
prosa se alonga e o possível leitor acaba caindo no alongamento de dormir. Mas
não me avexo com leitores sonolentos, Mardone. E você?
Pois então 1, Mardone. A história de Salomão é conhecida. Com 12 anos, Salomão
foi coroado rei de Israel pelo pai, Davi. Aí Deus apareceu e mandou que ele,
Salomão, pedisse o que quisesse. Mas o menino pediu apenas sabedoria para
governar seu povo. Fascinado com tamanha humildade, Deus o transformou no homem
mais sábio e vitorioso de todos os tempos.
Pois então 2, Mardone. O casal Ananias vive lendo e praticando as
coisas de Salomão. Sobretudo as que se derivam das duas palavrinhas básicas do
mestre da sabedoria.
“O ser humano precisa ser diligente e gracioso”, dizia Salomão. No
linguajar de hoje, Salomão dizia que o ser humano precisava viver focado no que
faz (ser diligente) e ter a humildade de buscar parcerias no fazer (ser
gracioso), já que sozinho ninguém é de ninguém. É aqui, numa ação altruística, que
entra o reparo histórico de que falei, Mardone.
Deu-se assim:
O rapazola Ananias G chega correndo à estação de Sobral a fim de pegar
o trem para Camocim. Consegue apanhar o trem, mas se atrapalha e uma das
alpercatas sai do pé e fica na estação. O que faz ele? Corre pra janela e joga
a outra alpercata. Boquiaberta, a ruivinha ao lado não se conteve:
Tá maluco? Por que fez isso?
É que a alpercata do pé esquerdo ficou na estação, moça. Então a que joguei
fora não teria serventia pra mim, assim como não terá a quem
encontrar a que ficou na estação. Mas a jogada pela janela será útil a quem encontrar
as duas.
A ruivinha argumenta que a atitude
dele teria sido em vão, já que, distante uma da outra, a chance de uma mesma
pessoa achar as duas alpercatas seria remota.
O rapazola sorriu e contrapôs:
É verdade, é verdade. Mas veja.
Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada,
não existirão resultados.
A ruivinha ficou pensativa e
pensativa chegou à Camocim. E Ananias também. Olhavam-se furtivamente: protocolavam
luxúrias nos guichês da imaginação libidinosa.
Certo 1 é que chegaram à Camocim
com as asas arriadas um pro outro.
Certo 2 é que dali a dois meses, o
sarará Ananias G e a ruivinha Ana Rosa estavam com aqueles paninhos juntos.
O reparo histórico de que falei,
Mardone, é que o episódio da alpercata passou pra história tendo como protagonista
um indiano, um tal de Mahatma G. Mas a verdade é que tal feito foi do cearense
Ananias G.
Pois então 3, Mardone. Na volta de
uma das costumeiras viagens assistenciais, o Dr. Ananias G vê aquele furdunço
no curral do Sr. Mozair, estaciona a motocicleta e ordena logo um “Parem”.
Parem, por favor. O que está acontecendo,
amigos?
Embora falem se atropelando, Ana Rosa capta
o contexto da coisa, pega no bagageiro da motocicleta a maletinha veterinária,
pula a porteira do curral e começa a chorar ao tomar conhecimento de que o
objeto de desejo daquela turba é a sua protegida Cigana.
É a Cigana, Ananias. Tá morta.
Nossa ciganinha morreu, meu marido.
“Quando a gente chegou ela tava viva, doutora”, retrucaram alguns.
Pois é. Eu também. Meu Deus do céu. Venha aqui, Ananias. Você e mais
quatro. Quero que vejam uma coisa.
Foram e viram. E se benzeram. Assustados, foram unânimes no parecer:
Atacada por uma cascavel choca. Só a picada de uma cascavel choca é capaz
de deixar um animal daquele jeito. Esse “jeito”, Mardone, é a rigidez da
Cigana. Em apenas três minutos, a pobre fica fria, fria, fria. Geladíssima,
Mardone. Dr. Ananias foi diligente:
Não podem nem chegar perto da carne dela, amigos. Vamos pra minha
fazenda. Vou mandar abater dois garrotes.
Foram. Exceto Ana Rosa. Ana Rosa ficou na companhia do Sr. Mozair. Faziam
quarto para a finada Cigana. A tarde caía quando o processo abate dos garrotes/distribuição
da carne deu-se por encerrado. Todo mundo tinha carne para uma semana.
Dr. Ananias G se pronunciou:
Preciso de alguns de vocês para me ajudar no enterro da Cigana. Ela
merece um enterro digno, não acham?
Cigana? A vaca fria?
Sim, Sr. Vasconcelos. Aquela vaca é
minha. Era, quero dizer. O nome dela é Cigana. Minha mulher quem deu o nome. O
senhor volta comigo pra fazendo do Sr. Mozair?
Sim. Volto. Vamos voltar à vaca fria, sim, Dr. Ananias.
Voltaram o Dr. Ananias G, o Sr. Vasconcelos e mais três voluntários. Naquele
momento, Mardone, surgia a expressão popular “voltar à vaca fria”. Adoro essa
expressão, confesso. Significa, e você deve saber, voltar a um assunto deixado
pra trás, ressuscitar uma conversa aparentemente morta, digamos assim.
Voltaram e... Surpresa. Cigana estava em pé. Trôpega, é verdade, mas em
pé. Recebia afagos da sorridente Ana Rosa. Ana Rosa explicou:
Vi logo que Cigana fora atacada por uma cobra. Apliquei-lhe um contraveneno,
untei-a com gel permanentemente gelado e falei pra vocês que ela tinha morrido.
A frieza do couro dela fez com que fossem unânimes no parecer de morte por
picada de cascavel choca. Precisava induzi-los a pensar num veneno de natureza mortal
para todos, já que não queria que os mais afoitos fatiassem a Cigana na minha
presença. Desculpe, meu marido, por não ter lhe confidenciado essas coisas.
Você precisava crer naquela versão, entende?
É isso. Tudo se passou assim, Mardone. Espero tê-lo ajudado na
biografia da Cigana.
Espero, igualmente, que, em 2023, voltemos - brasileiros de todos os
credos e ideologias - à vaca fria da tolerância e à da empatia. Um 2023 desprovido
de veneno de cascavel choca veria a calhar, não acha, meu nobre?
Um abraço,
12 do 22,
TC
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