terça-feira, 20 de dezembro de 2022

A MORTE DA CIGANA

 



 

A Morte da Cigana

Colaboração de Mardone França

 

Mardone França  Cigana Cigana agonizara três dias no curral, sem forças para se manter de pé, tampouco, se interessava mais pela água e o capim que lhe ofereciam. Definhara tanto que as carnes já não cobriam os ossos, os quais espetavam a pelagem branca acinzentada, outrora, luzidia. Quedou-se estendida embaixo da latada, feita para protegê-la do sol inclemente da seca de 1958, no Ceará. Os urubus não se achegaram; a latada, os impediam de vê-la. 

Porém, a malta de famintos, homens, mulheres e crianças, desde o dia anterior, fazia vigilância em torno do curral munidos de peixeiras, fações e machados, dispostos a entrar em ação ao primeiro sinal de descuido da vigilância do proprietário que, determinara aos seus serviçais, enterrar rapidamente, tão logo a Cigana morresse. Era preciso evitar que a carne fosse consumida por pessoas pois, não se sabia a causa da morte. Alguns, mais entendidos, diziam que fora tuberculose galopante, dada a rapidez da doença, outros atribuíam à picada de cascavel ou jararaca. 

            Cigana era a estrela do pequeno rebanho, estava na terceira cria. Por ser boa produtora de leite e de cria recente, ficou para fornecer leite à família, enquanto o restante do gado foi na retirada para o Piauí, escapar da morte por fome e sede no Ceará. Da fome ela escapou, mas, no sertão da seca, o bicho que não morre de fome e sede, morre por picada de cobra, por morte matada ou por doença desconhecida.

            No terceiro dia, antes mesmo que a morte se abatesse sobre Cigana, a fome e a impaciência do grupo que fazia sentinela, era prenúncio de invasão do curral. Num instante, naquela tarde de sol escaldante,

muita gente pulou a cerca de pau-a-pique lançando-se, num salve quem puder, empunhando as armas e bramindo de contentamento sobre o quase cadáver. Uma cena estarrecedora, seres humanos se portando como urubus na carniça. Em poucos minutos, esquartejaram a desinfeliz, sem sequer tirar o couro.     Estacas mais finas da cerca do curral foram arrancadas. Quartos, costelas, cabeça, vísceras maiores foram espetadas nas estacas e conduzidas por dois homens, ainda com força, um em cada ponta. 

            Iniciava-se uma procissão macabra que cruzou a cidade em direção a periferia, nas imediações do cemitério, aonde moravam parte da população mais pobre do lugar. Naquele cortejo não havia a Marcha Fúnebre, tocada pela banda de música local, comum aos rituais de sepultamento dos mortos das famílias importantes. Ouvia-se, por onde passava o repugnante cortejo, a algaravia de contentamento dos que conduziam os restos mortais da Cigana, que em vida, foi tão prestimosa em fornecer leite para a nutrição das crianças de seu dono. Agora, por alguns dias, não o leite que secara, mas, sua carne mataria a fome de famílias que padeciam o flagelo da seca.

Pelo que se soube, ninguém morreu por ter comido a carne de Cigana; os vermes respeitam a fome dos homens. 

                                                                                               ***       

 Ainda escrevo a biografia de Cigana; sei de sua história, sua liderança no rebanho e sua nobreza de ‘Vaca Rainha’. Nunca ouvi falar de biografia de vaca. A vida de Cigana tem mais a mostrar do que muitas biografias, de gente, compradas. 

 

                                                                       ***

Detesto fazer isso, mas a fidelidade aos acontecimentos me obriga a consertar um equívoco do nobre Mardone França. Os vermes respeitam a fome e a sede dos homens. Isso é verdade. Contudo, não foi por causa do respeito dos vermes que ninguém morreu. A verdade verdadeira, Mardone, é que ninguém comeu a carne da Cigana. Aconteceu o seguinte.

É verdade: havia um frenético grupo de esfomeados num pé e noutro para invadir o ambiente da Cigana naquela tarde de sol escaldante. A algazarra faminta fazia a porteira do curral ranger e o arame farpado gemer.

Cigana jazia no centro do curral do Sr. Mozair remoendo os derradeiros minutos de vida.

Tanto que ao examiná-la, Ana Rosa constatou que Cigana estava viva. Mas Ana Rosa não chegou a dar a boa notícia ao marido: Cigana morria minutinhos depois. Pelo visto, Cigana estava esperando tão somente o afago da ruivinha protetora. Transformada num vale de lágrimas, Ana Rosa anuncia:

É a Cigana, Ananias. Tá morta. Nossa ciganinha morreu, meu marido.

Peço desculpa aos leitores do Mardone, mas esse triste episódio não pode ser descrito sem a participação de Ana Rosa e a do marido, o Dr. Ananias G. Dr. Ananias G é abastado fazendeiro daquele rincão cearense. Cigana é uma das vacas do casal Ananias, digo logo. Ocorre que, em razão da seca braba daquele 58, o Sr. Mozair envia o magricela rebanho para o Piaui. Sensibilizado com a situação do vizinho de duas léguas, já que o Sr. Mozair fica sem sequer o leite diário para as crianças, Dr. Ananias G deixa Cigana aos cuidados dele. Todos os dias, Ana Rosa ou um vaqueiro do casal Ananias levava tronco de bananeira ou farelo para o novo lar da Cigana.

Dr. Ananias G é um rico sem besteira. O doutor do nome advém do fato de ele ser dentista formado em Fortaleza. A profissão acadêmica é adicional prazer do Dr. Ananias G, Mardone: ele botava a mulher, Ana Rosa, na garupa da motocicleta e saía pelos distantes lugarejos tirando tipoia de queixos e arrancando dentes podres.

Dr. Ananias G era autêntico altruísta. Ele e a mulher, diga-se. Dr. Ananias cuidava de humanos e Ana Rosa, veterinária amadora, falemos assim, cuidava de animais. Primeiros socorros para todas as mazelas não humanas não faltavam na maleta que costumeiramente levava no bagageiro da motocicleta do marido.

Falar em Dr. Ananias, oferece-me o ensejo de fazer um reparo histórico sobre a literatura de postulados. Mas não posso falar do casal Ananias sem falar do sábio rei Salomão. Esse vai e vem das coisas, Mardone, é um dos motivos deste matuto escrevinhador não ser lido. Reluto em omitir fatos, a prosa se alonga e o possível leitor acaba caindo no alongamento de dormir. Mas não me avexo com leitores sonolentos, Mardone. E você?

Pois então 1, Mardone. A história de Salomão é conhecida. Com 12 anos, Salomão foi coroado rei de Israel pelo pai, Davi. Aí Deus apareceu e mandou que ele, Salomão, pedisse o que quisesse. Mas o menino pediu apenas sabedoria para governar seu povo. Fascinado com tamanha humildade, Deus o transformou no homem mais sábio e vitorioso de todos os tempos.

Pois então 2, Mardone. O casal Ananias vive lendo e praticando as coisas de Salomão. Sobretudo as que se derivam das duas palavrinhas básicas do mestre da sabedoria.

“O ser humano precisa ser diligente e gracioso”, dizia Salomão. No linguajar de hoje, Salomão dizia que o ser humano precisava viver focado no que faz (ser diligente) e ter a humildade de buscar parcerias no fazer (ser gracioso), já que sozinho ninguém é de ninguém. É aqui, numa ação altruística, que entra o reparo histórico de que falei, Mardone.

Deu-se assim:

O rapazola Ananias G chega correndo à estação de Sobral a fim de pegar o trem para Camocim. Consegue apanhar o trem, mas se atrapalha e uma das alpercatas sai do pé e fica na estação. O que faz ele? Corre pra janela e joga a outra alpercata. Boquiaberta, a ruivinha ao lado não se conteve:

Tá maluco? Por que fez isso?

É que a alpercata do pé esquerdo ficou na estação, moça. Então a que joguei fora não teria serventia pra mim, assim como não terá a quem encontrar a que ficou na estação. Mas a jogada pela janela será útil a quem encontrar as duas.

A ruivinha argumenta que a atitude dele teria sido em vão, já que, distante uma da outra, a chance de uma mesma pessoa achar as duas alpercatas seria remota.

O rapazola sorriu e contrapôs:

É verdade, é verdade. Mas veja. Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas se você não fizer nada, não existirão resultados.

A ruivinha ficou pensativa e pensativa chegou à Camocim. E Ananias também. Olhavam-se furtivamente: protocolavam luxúrias nos guichês da imaginação libidinosa.

Certo 1 é que chegaram à Camocim com as asas arriadas um pro outro.

Certo 2 é que dali a dois meses, o sarará Ananias G e a ruivinha Ana Rosa estavam com aqueles paninhos juntos.

O reparo histórico de que falei, Mardone, é que o episódio da alpercata passou pra história tendo como protagonista um indiano, um tal de Mahatma G. Mas a verdade é que tal feito foi do cearense Ananias G.

Pois então 3, Mardone. Na volta de uma das costumeiras viagens assistenciais, o Dr. Ananias G vê aquele furdunço no curral do Sr. Mozair, estaciona a motocicleta e ordena logo um “Parem”.

Parem, por favor. O que está acontecendo, amigos?

Embora falem se atropelando, Ana Rosa capta o contexto da coisa, pega no bagageiro da motocicleta a maletinha veterinária, pula a porteira do curral e começa a chorar ao tomar conhecimento de que o objeto de desejo daquela turba é a sua protegida Cigana.

 É a Cigana, Ananias. Tá morta. Nossa ciganinha morreu, meu marido.

“Quando a gente chegou ela tava viva, doutora”, retrucaram alguns.

Pois é. Eu também. Meu Deus do céu. Venha aqui, Ananias. Você e mais quatro. Quero que vejam uma coisa.

Foram e viram. E se benzeram. Assustados, foram unânimes no parecer:

Atacada por uma cascavel choca. Só a picada de uma cascavel choca é capaz de deixar um animal daquele jeito. Esse “jeito”, Mardone, é a rigidez da Cigana. Em apenas três minutos, a pobre fica fria, fria, fria. Geladíssima, Mardone. Dr. Ananias foi diligente:

Não podem nem chegar perto da carne dela, amigos. Vamos pra minha fazenda. Vou mandar abater dois garrotes.

Foram. Exceto Ana Rosa. Ana Rosa ficou na companhia do Sr. Mozair. Faziam quarto para a finada Cigana. A tarde caía quando o processo abate dos garrotes/distribuição da carne deu-se por encerrado. Todo mundo tinha carne para uma semana.

Dr. Ananias G se pronunciou:

Preciso de alguns de vocês para me ajudar no enterro da Cigana. Ela merece um enterro digno, não acham?

Cigana? A vaca fria?

Sim, Sr. Vasconcelos. Aquela vaca é minha. Era, quero dizer. O nome dela é Cigana. Minha mulher quem deu o nome. O senhor volta comigo pra fazendo do Sr. Mozair?

Sim. Volto. Vamos voltar à vaca fria, sim, Dr. Ananias.

Voltaram o Dr. Ananias G, o Sr. Vasconcelos e mais três voluntários. Naquele momento, Mardone, surgia a expressão popular “voltar à vaca fria”. Adoro essa expressão, confesso. Significa, e você deve saber, voltar a um assunto deixado pra trás, ressuscitar uma conversa aparentemente morta, digamos assim.

Voltaram e... Surpresa. Cigana estava em pé. Trôpega, é verdade, mas em pé. Recebia afagos da sorridente Ana Rosa. Ana Rosa explicou:

Vi logo que Cigana fora atacada por uma cobra. Apliquei-lhe um contraveneno, untei-a com gel permanentemente gelado e falei pra vocês que ela tinha morrido. A frieza do couro dela fez com que fossem unânimes no parecer de morte por picada de cascavel choca. Precisava induzi-los a pensar num veneno de natureza mortal para todos, já que não queria que os mais afoitos fatiassem a Cigana na minha presença. Desculpe, meu marido, por não ter lhe confidenciado essas coisas. Você precisava crer naquela versão, entende?

É isso. Tudo se passou assim, Mardone. Espero tê-lo ajudado na biografia da Cigana.

Espero, igualmente, que, em 2023, voltemos - brasileiros de todos os credos e ideologias - à vaca fria da tolerância e à da empatia. Um 2023 desprovido de veneno de cascavel choca veria a calhar, não acha, meu nobre?

Um abraço,

12 do 22,

TC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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