Imagem Google
Colaboração do contista Mardone França
O Mar de Camocim
Mardone França
Naquele dia, o menino acordou com
uns pensamentos na cabeça sobre o mar de Camocim. Intuiu como chegar lá a
partir da conversa que teve com o padrinho. E imaginou seu plano: entrar no
riacho do Meio, navegar pelo rio Pequeno e adentrar nas correntezas do rio
Grande. Assim, pensou que chegaria ao mar de Camocim. Pelo chão, montado em
cavalo estradeiro, gastaria entre quatro e cinco horas; pela água, nunca foi
medido. Começou a tomar as providências para executar seu plano de navegação.
Juntou madeira de cerca velha, uns tantos paus que desse para fazer uma balsa;
mais para jirau do que algo que navegasse. Com corda de tucum fez a amarração e
testou a flutuação com seu peso de menino seco de 11 anos.
Encomendou à avó rapadura,
farinha, macaxeira e peixe fritos para o dia seguinte. Dormiu com ideias
confusas na cabeça e até sonhou chegando ao mar de Camocim.
No dia seguinte, logo cedo, embalou os alimentos em papel de embrulho e colocou no farnel de couro. Para quantos
dias daria, nem Deus sabia! Ao sair, pegou a vara de anzol, uma garrafa de fundo furado, o farnel e disse para avó que iria pescar no açude do Padre. Nuvens baixas e escuras encobriam a serra prenunciando muita chuva nas cabeceiros do riacho e dos rios. Já saiu na chuva grossa. Caminhou uma hora na tempestade. Ventos, raios, trovões e as grotas já correndo velozes até chegar ao ponto da partida no riacho do Meio. Animou-se. O riacho logo estaria derramado sobre os tabuleiros.Enquanto aguardava a grande cheia
do riacho, descansou e se protegeu da chuva sob uma moita de mofumbo. Antes,
escondeu a balsa no mato, amarrando-a ao tronco de uma árvore seca.
Relembrou do diálogo que
manteve com o dentista, seu padrinho, sobre o mar de Camocim.
̶ Para que bandas fica o mar?
̶ Por que aqui não tem mar?
̶ Tem caminho pra gente ir para o mar de
Camocim, saindo daqui?
̶ Quem bota sal no mar?
Doutor Ananias não respondeu de
imediato. Ao voltar, na sua motocicleta, de um atendimento fora da cidade,
explicou tudo pacientemente. Sem intenção, atiçou mais ainda o interesse do
afilhado em conhecer o mar de Camocim.
̶ Fica lá para bandas de Camocim. É o mais perto daqui. Dizem até que
aqui já foi mar, mas o mar secou e foi salgar outras paragens. O que se diz é
que o Sertão vai virar Mar e o Mar vai virar Sertão. Tem sim, é só descer nas
correntezas dos rios que se vai bater no mar de Camocim.
O Mar é um açudão enorme,
salgado. São os rios que levam sal para o mar.
O
garoto escutou tudo, sem pestanejar.
Moisés mora com a avó viúva, quase cega, das duas
vistas. Perdeu pai e mãe sem nunca os ter tido: a mãe morreu do seu parto; o
pai, logo se mandou para o Acre. Foi trabalhar nos seringais. A floresta deu
cabo dele. Encontraram-no podre com uma flecha nas costas. A notícia chegou por
carta demorada.
O padre, avexado, depois de dar a
extrema-unção à mãe, batizou o menino ainda ensanguentado, dando-lhe o nome de
Moisés, para que ele não morresse pagão e fosse para o limbo. A mãe jazia
estendida, fria sobre meia-porta na sala da frente. A avó pediu ajuda ao padre
para criar o menino. O bondoso pároco lhe disse que não tinha com que ajudar, a
não ser com rezas e bênçãos. Nazaré, desconsolada, reagiu.
̶ A Igreja é rica. Dizem que o Papa mora num palácio suntuoso e se senta
num trono de ouro. Eu sei que ele manda dinheiro para a sua Igreja, e o senhor
fica aí com sua mão de vaca, me negando uma caridade. Eu quero é leite,
farinha, feijão e toucinho pra botar sustança e gosto na comida. O senhor tem
uma fazendona com gado, criação, açude, engenho, casa de farinha...
̶ Não é verdade, Nazaré, nossa Igreja é pobre, às vezes não tem dinheiro
nem para as velas. Peça ajuda às pessoas mais abastadas da cidade. A fazenda
não é só minha, é herança dos meus pais. Quem cuida dela são meus irmãos.
̶ Já sei que não vai me socorrer. Vou pedir ajuda ao doutor Ananias. Ele
sim, é um homem caridoso. Arranca dente dos pobres de graça, dá remédio pros
doentes e até dá terras para os trabalhadores de sua fazenda plantarem seus
roçados, sem cobrar a parte que lhe toca. Aqui na cidade, os pobres gostam
dele; já os ricos, não gostam; chamam ele de comunista. Nem sei o que é
isso.
Nazaré continuou.
̶ O senhor, Padre, disse que ele tem parte com o demônio porque fala mal
dos padres, nunca pôs os pés na igreja e não é temente a Deus. Nem por isso se
pode dizer que ele tem parte com o demônio. Padre, a bondade não mora na
Igreja; mora no coração dos bons.
O vigário se inquietou, ouvindo
os despautérios da velha e se arvorou de sua autoridade para repreendeu
severamente sua fiel.
̶ Nazaré, você está sendo muito impertinente. Respeite nossa Igreja e a
mim também. Sou o vigário dessa paróquia da Virgem da Piedade, e não admito que
você fale bem deste comunista, que está infernizando nossos fieis com suas mentiras
contra a nossa Igreja. Eu não sossego enquanto não escorraçar este demônio de
carne e osso que apareceu aqui a mando do Satanás.
Nazaré convidou o dentista para
padrinho do menino, só de faz de conta, posto que comunista não se submete aos
rituais dos sacramentos da Igreja. A contra gosto do vigário, Moisés tinha um
padrinho, por fora, que lhe dedicava atenção e
ensinava coisas da vida.
Abril de 1949 foi mês de muita
chuva nas cabeceiras e no vale do rio Grande.
Não demorou muito, a enchente derramou as águas sobre os tabuleiros.
Moisés lembrou que, no dia anterior, amarrara seus apetrechos num galho alto de
uma árvore seca. Alongou a vista no entorno e não viu a balsa. Primeira se
agoniou, pra depois chorar. Pensou: “a balsa se foi, e agora? Em que diachos se
meteu essa balsa?” A agoniação ficou medonha, as águas subindo e as horas
passando. Sem sinal da balsa. Não sabia mais onde ficava o leito do riacho;
virou tudo uma alagação só. Subiu na maior árvore que havia por perto.
Aturdido, viu aquele marzão de água e se perguntou: “Vixe, será se o Sertão já
virou mar e o Mar de Camocim não esperou por mim e veio me encontrar
aqui?”
O tempo abriu um pouco. Ele viu
um vulto escuro boiando a uns 30 metros. Era a balsa! Desceu da árvore. Com
braçadas rápidas atingiu sua embarcação. Lembrou-se dos apetrechos de viagem
que deixara na árvore. Outro vexame e novo choro de desconsolo. Não podia
navegar sem seus instrumentos e a comida.
Nadou na redondeza e nada de
identificar a árvore. Voltou cansado e sentou-se na sua embarcação, o único
assento flutuante que tinha naquelas redondezas de águas. Percebeu, a pouca
distância, a árvore perdida. Desta vez chorou de alegria abraçado à balsa. “Se
eu não achasse as minhas coisas, a gente ia só nós dois, a balsa e eu.” Pegou
tudo, acomodou e amarrou à balsa.
Esqueceu do remo
que havia feito. E disse: “Vamos assim mesmo, a correnteza leva a gente.”
Deitou sobre a balsa e fez remos das duas pequenas mãos. Remou correnteza
abaixo para alcançar o rio Pequeno. A chuva, os relâmpagos e os trovões não
davam trégua. Prenunciava-se um final de tarde assustador.
Não demorou muito, o pequeno
navegante adentraria no rio Pequeno, que espumava, contorcendo-se em seus
remansos. Antes de chegar à povoação de Pedrinhas o rio Pequeno mergulha no rio
Grande. Moisés se assustou diante de sua grandeza, mas não recuou. A partir
dali tudo seria grande. O desafio de chegar à foz de Camocim navegando sobre
uma balsa tosca seria uma odisseia até para intrépidos navegantes dos contos de
aventura; imagine-se para um menino, ingênuo.
A avó deu pela falta do neto que
saíra para pescar e não voltou para dormir em casa. Já passara o dia e nenhum
sinal dele. A pequena cidade se alvoroçou e a notícia se espalhou de boca em
boca. Em pouco tempo, o padre organizou a operação de busca convocando os
pescadores mais experientes para mergulhar no açude de sua fazenda, para aonde
a avó informara que o neto teria ido pescar. O açude não é grande, mas é
profundo. As grutas de pedras submersas do pequeno serrote são esconderijos que
assustam até pescadores experientes. Durante um dia inteiro o fundo das águas
foi vasculhado e nada foi encontrado. Decidiu-se esperar o corpo boiar. Uma
semana e nada do corpo de Moisés. Foi dado como morto, enterrado na lama ou preso
nalguma das grutas em que nenhum mergulhador se atreveria a entrar.
A ninguém o pequeno navegante
aventou a possibilidade de ir ao encontro do mar de Camocim. Doutor Ananias
sofreu dolorosamente a perda do afilhado. Era a única pessoa com quem o menino
demostrara interesse em conhecer o mar. Nem para Ana Rosa, seu grande amor e
companheira, o dentista contou sobre sua angústia. Pesaroso, sentiu um profundo
remorso e desconfiou que o menino poderia ter se metido numa aventura solitária
de chegar ao mar navegando pelos rios.
O mistério do desaparecimento do
afilhado o desalentou. Refletiu sobre sua vida e seu papel naquela comunidade.
Sentiu que seu projeto malogrou. Decidiu deixar a cidade e voltar para sua
terra na Bahia. Não havia mais nada a fazer. Antes, vendeu metade da fazenda e
metade do gado para apurar recursos que precisaria. A outra metade ficaria para
sua amada Ana Rosa com a recomendação aos moradores da fazenda que cuidassem
como se fosse deles. Assegurou que todos continuariam a viver e trabalhar da
mesma forma como era com ele. Sua motocicleta, companheira de viagens para
atender aos moradores da zona rural, deixou-a para seu auxiliar, o dentista
prático, continuar seu trabalho.
̶ Aninha, tenho que voltar para Bahia. Vou
descansar das minhas lutas inglórias. É-me doloroso entender que você não
poderá partir comigo. Sua mãe, prostada, precisa de você mais do que você
precisa de mim. Você é uma mulher valente como nunca conheci outra. Enfrentou a
cidade inteira por seu amor por mim. Nunca a esquecerei. Até meu último dia me
lembrarei de você.
Com a bandeira vermelha da foice
e do martelo aberta nas costas sobre os ombros, doutor Ananias atravessou a
Praça da Matriz para pegar o transporte que o levaria de volta à Bahia. Foi
comedidamente aplaudido por alguns poucos e vaiado “fora comunista, fora
comunistas” por muitos. Foi embora amargando, na dúvida, sua culpa pela morte
do afilhado. Três dores dilaceravam seu coração ateu: a perda do grande amor; a
perda do afilhado e o desalento.
Enquanto o dentista comunista
atravessava a Praça, Ana Rosa postou-se na janela acompanhando-o até que
sumisse na esquina. Em prantos, fechou a janela. Ninguém, jamais na cidade, viu
outra vez aquela janela aberta.
O padre anunciou no sermão, da
missa de domingo, que faria um oratório na beira do açude para o menino Moisés.
“Nosso querido Moisés, a quem batizei e dei este nome, é um mártir da pobreza.
Morreu em busca do alimento para sua avó, Nazaré, uma pobre mulher cega e fiel
à Igreja. O padre olhou para a Igreja lotada, fez uma pausa, e com voz
embargada exclamou de forma a ser ouvido até pelos fieis da última fila:
̶ Que Deus os tenham!.
Um comentário:
Muito bom! Parabéns Mardone.
Postar um comentário