sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O Mar de Camocim

 

    

                                                Imagem Google


Colaboração do contista Mardone França

O Mar de Camocim 

                                                                                       Mardone França

Naquele dia, o menino acordou com uns pensamentos na cabeça sobre o mar de Camocim. Intuiu como chegar lá a partir da conversa que teve com o padrinho. E imaginou seu plano: entrar no riacho do Meio, navegar pelo rio Pequeno e adentrar nas correntezas do rio Grande. Assim, pensou que chegaria ao mar de Camocim. Pelo chão, montado em cavalo estradeiro, gastaria entre quatro e cinco horas; pela água, nunca foi medido. Começou a tomar as providências para executar seu plano de navegação. Juntou madeira de cerca velha, uns tantos paus que desse para fazer uma balsa; mais para jirau do que algo que navegasse. Com corda de tucum fez a amarração e testou a flutuação com seu peso de menino seco de 11 anos. 

Encomendou à avó rapadura, farinha, macaxeira e peixe fritos para o dia seguinte. Dormiu com ideias confusas na cabeça e até sonhou chegando ao mar de Camocim. 

No dia seguinte, logo cedo, embalou os alimentos em papel de embrulho e colocou no farnel de couro. Para quantos

dias daria, nem Deus sabia! Ao sair, pegou a vara de anzol, uma garrafa de fundo furado, o farnel e disse para avó que iria pescar no açude do Padre. Nuvens baixas e escuras encobriam a serra prenunciando muita chuva nas cabeceiros do riacho e dos rios. Já saiu na chuva grossa. Caminhou uma hora na tempestade. Ventos, raios, trovões e as grotas já correndo velozes até chegar ao ponto da partida no riacho do Meio. Animou-se. O riacho logo estaria derramado sobre os tabuleiros. 

Enquanto aguardava a grande cheia do riacho, descansou e se protegeu da chuva sob uma moita de mofumbo. Antes, escondeu a balsa no mato, amarrando-a ao tronco de uma árvore seca.

Relembrou do diálogo que manteve com o dentista, seu padrinho, sobre o mar de Camocim. 

 ̶ Para que bandas fica o mar?

  ̶ Por que aqui não tem mar?

  ̶ Tem caminho pra gente ir para o mar de Camocim, saindo daqui?

  ̶ Quem bota sal no mar? 

Doutor Ananias não respondeu de imediato. Ao voltar, na sua motocicleta, de um atendimento fora da cidade, explicou tudo pacientemente. Sem intenção, atiçou mais ainda o interesse do afilhado em conhecer o mar de Camocim.

  ̶ Fica lá para bandas de Camocim. É o mais perto daqui. Dizem até que aqui já foi mar, mas o mar secou e foi salgar outras paragens. O que se diz é que o Sertão vai virar Mar e o Mar vai virar Sertão. Tem sim, é só descer nas correntezas dos rios que se vai bater no mar de Camocim.

O Mar é um açudão enorme, salgado. São os rios que levam sal para o mar. 

O garoto escutou tudo, sem pestanejar. 

Moisés mora com a avó viúva, quase cega, das duas vistas. Perdeu pai e mãe sem nunca os ter tido: a mãe morreu do seu parto; o pai, logo se mandou para o Acre. Foi trabalhar nos seringais. A floresta deu cabo dele. Encontraram-no podre com uma flecha nas costas. A notícia chegou por carta demorada.

 O padre, avexado, depois de dar a extrema-unção à mãe, batizou o menino ainda ensanguentado, dando-lhe o nome de Moisés, para que ele não morresse pagão e fosse para o limbo. A mãe jazia estendida, fria sobre meia-porta na sala da frente. A avó pediu ajuda ao padre para criar o menino. O bondoso pároco lhe disse que não tinha com que ajudar, a não ser com rezas e bênçãos. Nazaré, desconsolada, reagiu. 

  ̶ A Igreja é rica. Dizem que o Papa mora num palácio suntuoso e se senta num trono de ouro. Eu sei que ele manda dinheiro para a sua Igreja, e o senhor fica aí com sua mão de vaca, me negando uma caridade. Eu quero é leite, farinha, feijão e toucinho pra botar sustança e gosto na comida. O senhor tem uma fazendona com gado, criação, açude, engenho, casa de farinha...

  ̶ Não é verdade, Nazaré, nossa Igreja é pobre, às vezes não tem dinheiro nem para as velas. Peça ajuda às pessoas mais abastadas da cidade. A fazenda não é só minha, é herança dos meus pais. Quem cuida dela são meus irmãos.

  ̶ Já sei que não vai me socorrer. Vou pedir ajuda ao doutor Ananias. Ele sim, é um homem caridoso. Arranca dente dos pobres de graça, dá remédio pros doentes e até dá terras para os trabalhadores de sua fazenda plantarem seus roçados, sem cobrar a parte que lhe toca. Aqui na cidade, os pobres gostam dele; já os ricos, não gostam; chamam ele de comunista. Nem sei o que é isso. 

Nazaré continuou.

  ̶ O senhor, Padre, disse que ele tem parte com o demônio porque fala mal dos padres, nunca pôs os pés na igreja e não é temente a Deus. Nem por isso se pode dizer que ele tem parte com o demônio. Padre, a bondade não mora na Igreja; mora no coração dos bons. 

O vigário se inquietou, ouvindo os despautérios da velha e se arvorou de sua autoridade para repreendeu severamente sua fiel.

  ̶ Nazaré, você está sendo muito impertinente. Respeite nossa Igreja e a mim também. Sou o vigário dessa paróquia da Virgem da Piedade, e não admito que você fale bem deste comunista, que está infernizando nossos fieis com suas mentiras contra a nossa Igreja. Eu não sossego enquanto não escorraçar este demônio de carne e osso que apareceu aqui a mando do Satanás.

Nazaré convidou o dentista para padrinho do menino, só de faz de conta, posto que comunista não se submete aos rituais dos sacramentos da Igreja. A contra gosto do vigário, Moisés tinha um padrinho, por fora, que lhe dedicava atenção e  ensinava coisas da vida.

Abril de 1949 foi mês de muita chuva nas cabeceiras e no vale do rio Grande.  Não demorou muito, a enchente derramou as águas sobre os tabuleiros. Moisés lembrou que, no dia anterior, amarrara seus apetrechos num galho alto de uma árvore seca. Alongou a vista no entorno e não viu a balsa. Primeira se agoniou, pra depois chorar. Pensou: “a balsa se foi, e agora? Em que diachos se meteu essa balsa?” A agoniação ficou medonha, as águas subindo e as horas passando. Sem sinal da balsa. Não sabia mais onde ficava o leito do riacho; virou tudo uma alagação só. Subiu na maior árvore que havia por perto. Aturdido, viu aquele marzão de água e se perguntou: “Vixe, será se o Sertão já virou mar e o Mar de Camocim não esperou por mim e veio me encontrar aqui?” 

O tempo abriu um pouco. Ele viu um vulto escuro boiando a uns 30 metros. Era a balsa! Desceu da árvore. Com braçadas rápidas atingiu sua embarcação. Lembrou-se dos apetrechos de viagem que deixara na árvore. Outro vexame e novo choro de desconsolo. Não podia navegar sem seus instrumentos e a comida. 

Nadou na redondeza e nada de identificar a árvore. Voltou cansado e sentou-se na sua embarcação, o único assento flutuante que tinha naquelas redondezas de águas. Percebeu, a pouca distância, a árvore perdida. Desta vez chorou de alegria abraçado à balsa. “Se eu não achasse as minhas coisas, a gente ia só nós dois, a balsa e eu.” Pegou tudo, acomodou e amarrou à balsa.

Esqueceu do remo que havia feito. E disse: “Vamos assim mesmo, a correnteza leva a gente.” Deitou sobre a balsa e fez remos das duas pequenas mãos. Remou correnteza abaixo para alcançar o rio Pequeno. A chuva, os relâmpagos e os trovões não davam trégua. Prenunciava-se um final de tarde assustador.  

Não demorou muito, o pequeno navegante adentraria no rio Pequeno, que espumava, contorcendo-se em seus remansos. Antes de chegar à povoação de Pedrinhas o rio Pequeno mergulha no rio Grande. Moisés se assustou diante de sua grandeza, mas não recuou. A partir dali tudo seria grande. O desafio de chegar à foz de Camocim navegando sobre uma balsa tosca seria uma odisseia até para intrépidos navegantes dos contos de aventura; imagine-se para um menino, ingênuo.   

A avó deu pela falta do neto que saíra para pescar e não voltou para dormir em casa. Já passara o dia e nenhum sinal dele. A pequena cidade se alvoroçou e a notícia se espalhou de boca em boca. Em pouco tempo, o padre organizou a operação de busca convocando os pescadores mais experientes para mergulhar no açude de sua fazenda, para aonde a avó informara que o neto teria ido pescar. O açude não é grande, mas é profundo. As grutas de pedras submersas do pequeno serrote são esconderijos que assustam até pescadores experientes. Durante um dia inteiro o fundo das águas foi vasculhado e nada foi encontrado. Decidiu-se esperar o corpo boiar. Uma semana e nada do corpo de Moisés. Foi dado como morto, enterrado na lama ou preso nalguma das grutas em que nenhum mergulhador se atreveria a entrar.

A ninguém o pequeno navegante aventou a possibilidade de ir ao encontro do mar de Camocim. Doutor Ananias sofreu dolorosamente a perda do afilhado. Era a única pessoa com quem o menino demostrara interesse em conhecer o mar. Nem para Ana Rosa, seu grande amor e companheira, o dentista contou sobre sua angústia. Pesaroso, sentiu um profundo remorso e desconfiou que o menino poderia ter se metido numa aventura solitária de chegar ao mar navegando pelos rios. 

O mistério do desaparecimento do afilhado o desalentou. Refletiu sobre sua vida e seu papel naquela comunidade. Sentiu que seu projeto malogrou. Decidiu deixar a cidade e voltar para sua terra na Bahia. Não havia mais nada a fazer. Antes, vendeu metade da fazenda e metade do gado para apurar recursos que precisaria. A outra metade ficaria para sua amada Ana Rosa com a recomendação aos moradores da fazenda que cuidassem como se fosse deles. Assegurou que todos continuariam a viver e trabalhar da mesma forma como era com ele. Sua motocicleta, companheira de viagens para atender aos moradores da zona rural, deixou-a para seu auxiliar, o dentista prático, continuar seu trabalho. 

 ̶ Aninha, tenho que voltar para Bahia. Vou descansar das minhas lutas inglórias. É-me doloroso entender que você não poderá partir comigo. Sua mãe, prostada, precisa de você mais do que você precisa de mim. Você é uma mulher valente como nunca conheci outra. Enfrentou a cidade inteira por seu amor por mim. Nunca a esquecerei. Até meu último dia me lembrarei de você.

Com a bandeira vermelha da foice e do martelo aberta nas costas sobre os ombros, doutor Ananias atravessou a Praça da Matriz para pegar o transporte que o levaria de volta à Bahia. Foi comedidamente aplaudido por alguns poucos e vaiado “fora comunista, fora comunistas” por muitos. Foi embora amargando, na dúvida, sua culpa pela morte do afilhado. Três dores dilaceravam seu coração ateu: a perda do grande amor; a perda do afilhado e o desalento.

Enquanto o dentista comunista atravessava a Praça, Ana Rosa postou-se na janela acompanhando-o até que sumisse na esquina. Em prantos, fechou a janela. Ninguém, jamais na cidade, viu outra vez aquela janela aberta.

O padre anunciou no sermão, da missa de domingo, que faria um oratório na beira do açude para o menino Moisés. “Nosso querido Moisés, a quem batizei e dei este nome, é um mártir da pobreza. Morreu em busca do alimento para sua avó, Nazaré, uma pobre mulher cega e fiel à Igreja. O padre olhou para a Igreja lotada, fez uma pausa, e com voz embargada exclamou de forma a ser ouvido até pelos fieis da última fila: 

  ̶ Que Deus os tenham!. 

Um comentário:

Ivo disse...

Muito bom! Parabéns Mardone.