PESADELOS
Eu era mentalmente sadio. Colecionava algumas bizarrices, não
nego, mas nada que me fizesse desconfiar do próprio quengo. Colecionava gols do
Alecrim FC, tampinhas de Brahma e abris. Abandonei os gols do Alecrim, larguei as
tampinhas de Brahma e passei a colecionar aneizinhos de Skol. Mas permaneço colecionando
abris. Já colei seis dúzias deles num álbum verde meio enrugado.
Pois bem. A fim de não deixar os abris isolados, enfiei na
cachola a ideia de colecionar figurinhas. Mas não as do futebol brasileiro. São
brasileiras, contudo de outro esporte. Prego as figurinhas num álbum chamado
horrores. Foi a partir da coleção delas, coisa de quatro anos atrás, que comecei
a desconfiar de minha sanidade. Desconfiar, uma piula. Estou mentalmente
enfermo, sim. E o mal só faz se agravar. Não durmo que preste. Toda a noite
tenho pesadelo. De manhã e de tarde também. Sinto-me confuso, irritado,
impaciente, desconectado. Meus neurônios estão com os circuitos invertidos,
chego a pensar. Discordo veementemente do que milhões de pessoas pensam e falam.
E milhões de pessoas discordam veementemente do que penso e falo. Uma angústia
infinita, gente.
Habite este contextinho, meu nobre.
Moro em Natal. Parede-meia com um colégio e pertinho da feira
do Carrasco. Não conto as vezes em que o chuá, chuá, chuá da caixa d’água do
colégio sangrando deixa chorosa a minha cidadania. Já liguei e religuei pra
diretora do colégio, nove, dez horas da noite, mas o chuá, chuá sempre
reaparece. Minha reação é coçar o quengo.
No dia da feira, é danado pra deixarem carro obstruindo a
minha garagem. Só não deu merda ainda porque não sou lá essas coisas nas coisas
de brigas.
Falava disso pro Anchieta... Anchieta, minha nobre, é amigo
de meus filhos. Afeição nascida da afinidade entre torcedores do ABC FC. Ele mexe
com conveniência. Tem duas lojinhas dia e noite abertas. Anchieta costuma vir
aqui em casa comer churrasco e biritar. O cara é doido por futebol: nunca o vi
sem a camisa 22 da seleção brasileira (mas usa também a do Ceará).
Pois então. Domingo passado eu falava pro Anchieta sobre o pesadelo,
o inquieto estado de espírito, e ilustrava a inquietude com a caixa d’água sangrando
e com a obstrução da garagem:
Ah, Dr. Bastião (não tenho cara de doutor, mas assim ele me
chama), essas coisas é assim mesmo (ele falou assim, sim). Acontece. É normal. É
o doutor quem vai pagar a conta d’água do colégio? É o doutor quem vai pagar a
multa de trânsito se o cara for multado? Então! Não esquente com essas coisas,
não, hômi. Vida que segue.
Puta que pariu, Anchieta. Não tô falando disso não, porra.
Não retruquei com essas palavras, é lógico, mas as danadinhas
se encontraram com a cerveja na garganta. E fizeram-me coçar o quengo. Estava
só na segunda gela, gente. Anchieta ficou repetindo “o vida que segue”:
Vida que segue, vida que segue, doutor. Sabe, Dr. Bastião, fiquei
curioso com o pesadelo diário. O doutor disse que basta fechar os olhos pro
bicho aparecer. É isso mesmo? Como é ele?
Como se fosse um filme assistido aos pedaços, Anchieta. É um
aperreio de vida sem fim. O pesadelo acontece num país sul-americano chamado
Andiroba, fronteiriço com o Brasil. Numa triste manhã, os andirobenses sentem
uma coceirinha no braço seguida duma catinga de queimado. A coceirinha vai
embora em minutos, mas o fedor fica. À tarde, Anchieta, o mundo todo já fica
sabendo que todo o mundo está fedendo.
É evidente que “o mundo todo e todo o mundo fedendo” é força
de expressão. Força de expressão que vai se revestindo de força da razão à
medida que os dias passam. Passados 15 dias de catinga, as redes sociais
obrigam a OMS declarar pandemia a coceirinha e a soltar o alerta: 23% da
população mundial já pegaram o fedor. Mas o fedor é o de menos.
De mais é a própria doença, Anchieta, até ali falada com reservas
em obediência à incurável estupidez humana. Os fedorentos perdem a libido, meu
caro.
Com 30 dias nessa pisada - sem pisadas e sem pegadas é melhor
- e com a ciência quebrando a cabeça por uma saída a fim de que o mundo volte a
produzir cópia humana, o próprio mundo quebra a cabeça, pois antevê o caos dando
psiu para o apocalipse e se pergunta quanto tempo lhe resta...
Como assim tempo lhe resta, Dr. Bastião? Não entendi.
Puta que pariu, Anchieta. Tens o que na cabeça, porra.
Aloprei, gente. Não me aguentei. Falei desse jeitinho. Falei,
ri, peguei um guardanapo, fiz um desenho e entreguei a ele. O desenho mostrava
um casal se beijando na cama, um menino e uma menina ao lado. Mesmo assim traduzi:
Entendeu, Anchieta? A verdadeira doença é a perda da
imaginação libidinosa. E sem ela não rola sexo. E sem sexo não haverá meninos e
meninas para substituir homens e mulheres que vão morrendo. Por isso o mundo se
pergunta quanto tempo lhe resta na hipótese de transas zeradas. Entenda de uma
vez por todas, Anchieta, que o sexo começa na libido, na imaginação, e que a
cópula é apenas o ápice físico desse processo. Quer outro desenho ou um tutorial
do processo?
Nossa, Dr. Bastião. Mas voltando ao pesadelo...
O pesadelo fica se misturando com outros cenários, Anchieta. Num
desses cenários, está rolando um campeonato de vale tudo entre formigas. Mas só
assisto às lutas quando estou espichado na rede. Tá um quebra pau dos grandes, cara.
Pena que já esteja pertinho da final. O ringue fica pequeno para certas formiguinhas.
Se o juiz, um humano de casco reluzente, não tivesse tanto pulso, não atino com
o desatino que...
Mas a coisa da falta da libido. O doutor disse que com 15
dias...
Ah, sim. Então. Passados mais 15 dias, um mês de pandemia,
portanto, a OMS divulga um relatório assustador: 22% de homens e mulheres
sexualmente ativos estão borocoxôs. Entenda a estatística, rapaz. 22% de
pegadores e de pegadoras não estão pegando ninguém, cara. Acompanha o relatório,
Anchieta, um comunicado que faz a ficha da humanidade cair. O comunicado é
prenhe de obviedades. Eis um resumo dele:
Que o Disfuncional XY
é pego nas ruas por meio de um microrganismo indefinido; que... (a OMS,
Anchieta, chama a coisa de “Disfuncional XY”, mas o povão apelidou a desgraça
de “Broxantevírus”); que tinha a suspeita de que o Disfuncional estivesse
escapando de equipamentos nucleares, posto ter atingido o mundo ao mesmo tempo,
mas que tal suspeita não havia se confirmado; que a ciência buscava incansavelmente
a cura para a doença; que se o percentual de 22% atingisse a casa dos 50% só
restaria aos humanos a contagem regressiva para a sua extinção, ainda que nos
meses subsequentes os disfuncionais readquirissem a potência libidinosa e que,
diante do apocalíptico quadro, sentia-se na obrigação de recomendar que as
pessoas só saíssem de casa para afazeres estritamente inadiáveis, mesmo assim agasalhadas
da cabeça aos pés e que, como radical tentativa de formar mão de obra para um
futuro de 16, 17, 18 anos, recomendava que casais héteros composto de um
parceiro sadio e outro contaminado deviam ativar a consciência cósmica a fim de
que o sadio pudesse se juntar a parceiros ou parceiras em análoga situação para
a humana cópula de sobrevivência da espécie.
“Pelo amor de Deus, humanos, não é hora de preconceito,
vergonha, dogmas”.
Foi assim que a OMS encerrou o comunicado. Entendeu,
Anchieta?
Entendi. A cornagem oficializada. Não cederia minha mulher
nem a pau, doutor. Mas e aí? Essa pouca vergonha foi pra frente ou...
Espere, espere. Vou abrir uma latinha.
Mas aí, Anchieta, renomado microbiologista, o Dr. Átila Campeta,
descobre a origem do broxante. É um microrganismo da família dos Alfas chamado
cientificamente de YXZ666. Dr. Campeta localiza o indivíduo no próprio país
dele, República da Andiroba. Segundo o Dr. Campeta, esse pestinha existe em todo
pé de mato não frutífero do mundo, não ofende o comer que come e a espécie é altamente
solidária. Vou historiar a coisa, Anchieta.
Seguinte. Situa-se em Andiroba grande parte da floresta
amazônica. O que acontece. Dr. Campeta descobre no centro dessa floresta uma
área de aproximadamente 100 mil campos de futebol pegando fogo, um fumaceiro
só. Ocorre, meu caro, que o infeliz YXZ se sente sufocado com o fumaceiro e foge
fazendo nuvem tóxica. Daí a catinga de queimado que a população sente e a
queima de sua autoestima. A solidariedade da espécie, garante o doutor, faz com
que os XYZ de outras partes do mundo também saíssem pra gandaia.
Capeta mesmo esse Dr. Campeta. Mundo salvo, né, Dr. Bastião,
já que o trabalho foi só apagar fogo. Apagado o fogo, o tal do YXZ não mais
precisa fugir, bem como os colegas de outras paragens. Seu pesadelo acabou
nesse ponto, não?
Não, Anchieta. Pelo contrário: aumentou. Sentia o pesadelo
mesmo sem fechar os olhos. O que era de se esperar naquela situação? Que o
apagado de fogo começasse já no dia seguinte à descoberta do Dr. Campeta.
Acontece que entra na história o presidente da Andiroba.
Veja, meu caro. O presidente negava a pandemia. Um mês de
sufoco, mas o presidente não abandonava o discurso de que a coisa era só uma
broxadinha. Ele falava com autoridade, Anchieta, pois se dizia imbroxável,
entende? Sabe o que falava o presidente sobre aquela recomendação da OMS para a
população saudável não sair de casa, mas que, se saísse, saísse protegida dos
pés à cabeça? Dizia que aquilo era coisa de maricas.
Pois bem. O mundo planeja um mutirão a fim de apagar o fogo.
O presidente diz que ninguém entra em sua Andiroba, que todo aquele circo é um
projeto comunista para se apoderarem da Amazônia andirobense e que o cientista
Campeta é canhoto desde criancinha. Pra você ter ideia do furdunço, Anchieta, o
presidente baixa um monte de decreto para facilitar a compra de armas por parte
dos andirobenses. “Povo armado nunca será escravizado”, afirma ele.
Bom. Depois de intensa pressão internacional, OMS, ONU, OTAM,
escambau, e com a invasão amazônica devidamente autorizada pela Justiça
andirobense, eis que o presidente anuncia que vai fazer uma licitação para
apagar o fogo. Aí, cara, os Estados Unidos e a Rússia pegaram ar. Literalmente,
Anchieta. O que tinha de avião com gigantescas mangueiras sobrevoando a área
fumegante não estava no gibi. O presidente não deu um pio, Anchieta.
Apagaram o fogo em 15 dias. Mais 15 dias e a OMS declarou
extinta a pandemia. Os humanos estavam salvos. A euforia foi tamanha que o
psicológico que fez o povo feder e brochar fez também o povo morder e beijar:
tiravam o atraso em minutos. Cena histórica, Anchieta, teve o protagonismo de
linda e famosíssima repórter da Globo. Afogueada toda e toda sorrisos, como se
saindo de vitoriosa maratona, ela exulta ao noticiar o fim da pandemia. Fala,
exultante, embora tenha posto a mão na boca e arregalado os olhos em seguida:
“Ufa! Escapamos fedendo”!
A exclamação da repórter, Anchieta, passou para a história assim:
“Ufa! Escapamos fedendo”!
Já ouviu expressões desse tipo, Anchieta?
Sim, sim, doutor. Não conto as vezes. É a mesma coisa que
quase ter morrido. Mas, me diga, Dr. Bastião, esse pesadelo acabou assim, não
sentiu mais nada dele não? Tem outros? O doutor não procurou ajuda médica não,
não?
Do mundo se acabando praticamente acabou, Anchieta. Aqui,
acolá surgem uns flashes, mas logo passam. O do campeonato das formigas
continua. Esse está bom demais, bicho. Têm dois pesadelos novos, sim. Num
deles, um bando de baratas fica roendo o sol. Noutro, eu faço dois gols pelo
Alecrim na final de um mundial de clubes na Síria.
Fui ternontonte ao médico, Anchieta. Psiquiatra, meu amigo, o
Dr. Thiago. Mas... Quer saber, cara, vou abrir o jogo, porquanto achar que
consegui botar papinha na sua boca. Olhe só. Thiago é meu amigo há tempos. Ele,
assim como você, vota no Bolsonaro. Anda até com bandeirinhas no carro. Desculpe,
Anchieta, mas vivo quebrando a cabeça a fim de entender como alguém vota no Bolsonaro
depois do comportamento dele em relação à pandemia covid. Sobretudo muitos religiosos
de templos, cujas paredes vivem ecoando clemência, piedade, compaixão, indulgência.
Tudo, enfim, que o nosso governante negou aos governados.
Thiago, Anchieta, perdeu dois tios e uma irmã para a infeliz.
E o próprio ficou uma semana internado, cara. Agora, fico constrangido de
perguntar a ele e a você a razão desse voto no impiedoso. Especialmente a um
médico, Anchieta. Daí bolei o plano dos pesadelos...
Não teve os pesadelos, não? Enganou-me direitinho, viu?
Não tive nada, Anchieta. Tudo foi fingimento. Fiquei me queixando na
frente do Thiago com o intuito de marcar formal consulta com ele e assim criar
o contexto para a inquietante pergunta. Comecei a criar o contexto assim:
“Estou me convencendo, Dr. Thiago, de que o tal do óbvio não
existe. O que é bastante lógico e objetivo aos meus olhos passa longe de ser
percebido por milhões de pessoas”.
Consulta atípica, Anchieta. Atípica, já que, por mais que quiséssemos
dar um tom formal a ela, a amizade de anos teimava em nos dirigir para a benquerença.
Aí o Thiago saiu-se com este arrazoado filosófico:
Engano seu, Sr. Tião.
Pouquíssimas coisas no mundo não são óbvias. E o que não é encontra-se no
caminho de ser. Sei aonde quer chegar, pois o senhor é bastante óbvio. Só não é
mais porque teima em não enxergar que você não é você.
Espera aí, espera aí, Thiago, doutor, digo, o pinel aqui sou
eu. O maluco aqui não é você, cacete. Eu não sou eu! Que porra é uma, Thiago?
Você foi você apenas quando estava no ventre da mãe, Tião. Em
seguida passou a ser dois. Um do agora, o do presente, o de curto prazo; e
outro que foi se formando – e ainda está -, o do futuro, o do depois, o de
longo prazo.
Minha Nossa Senhora, Thiago!
Veja o instantâneo do Tião de curto prazo, Tião.
Com dor de dente você é uma pessoa, na saúde plena já é
outra, no liseu é caladão de dá pena, na grana é um blábláblá sem fim, na
transa é sinônimo de contentamento, na frustação dela é uma carranca só, na vitória
do Fluminense transforma-se em amabilidades, na derrota a amabilidade é um sai
da frente. E nessa oscilação equilibra-se você, Tião. Você escolhe. Ou você são
muitos você ou você não é você.
Você, Tião, é o seu estado mental em determinado momento.
Isso é óbvio ou não é?
Veja a formação do Tião de longo prazo, Tião.
Bebê no berço, menino no Jardim, adolescente no colégio.
Adulto na faculdade, no lazer, no trabalho. Shoppings, filmes, conversas. Encontros,
desencontros. Verdades, mentiras. Sim, não. O que leu, o que não leu. Nesses e
noutros estágios da vida, Tião, você foi abrindo precedentes. Alguns viraram
costumes, outros foram descartados. Mas todos foram experiências de vida.
Algumas sobrevivem na memória, outras nos cafundós da mente. Essas experiências
agregaram e agregam conceitos numa mente em constante ebulição. Conceitos que
se transformaram e se transformam em escolhas, alternativas, valores.
A soma dessas coisas fez o Tião de longo prazo, Tião.
Você é uma complexidade de coisas inconstantes que habitam a
sua mente. Você e eu somos os outros. Somos uma manada. Sozinho a gente morre
de fome, de afeto, de isolamento. A solidão, seja a comportamental, seja a ideológica,
seja a espiritual, vai nos deixando enlouquecidos, Tião. Por isso vivemos nos
juntando aos iguais e formando manadinhas, manadinhas, manadinhas... Isso é óbvio
ou não é?
Então eu e outros indivíduos não temos culpa, Tião, de amarmos
rock e ruivinhas. Da mesma forma que você e sua manadinha não têm culpa de detestá-las.
Mas nossa escala de preferência deve coincidir noutras manadinhas da vida. Concorda?
Caramba, Dr. Bastião. Esse Dr. Thiago ou é muito sabido ou é
muito pirado. Ele disse que sabia aonde o doutor queria chegar. Era o quê? Fiquei
curioso. O Doutor detesta ruivinhas mesmo, é?
Sacanagem daquele sacana, Anchieta. Thiago sabia de tudo.
Confessou:
Sabia que você não tinha porra de doença nenhuma, Tião. Conheço
você, meu amigo. Mas você quebrava a cabeça procurando o motivo pelo qual voto
no Bolsonaro. Seria mais simples me perguntar, não? Ocorre que a complexidade
humana chamada Tião o deixava constrangido de me fazer tal pergunta. Então
armou todo esse teatro a fim de capturar a resposta. Mas fique tranquilo. Você não
está sozinho no aspecto constrangimento. Tem a sua manadinha. E é claro que
amanhã já pode estar se unindo a uma manadinha desprovida dessa vergonha.
Voto no Bolsonaro, Tião, porque não quero que um ex-presidiário,
o responsável pelo maior esquema de corrupção deste país, volte a governá-lo.
Simples assim. A pauta ideológica e a de costumes não me afetam, Tião. Sinto-me
desconfortável, confesso, no tocante à pandemia, mas relevo o jeito insano, tosco,
insensível, autoritário e impiedoso do presidente. Sou Bolsonaro, Tião. Não
voto nem Lula nem nulo, amigo.
Então você, Thiago, e um monte de pessoas, fazem parte daquela
manadinha proverbial que vive repetindo o “Cesteiro que faz um cesto faz um
cento”.
Isso mesmo, Tião.
E o que me diz, Thiago, do “O homem é o homem e suas
circunstâncias”.
Sábias palavras de José Ortega y Gasset, Tião. Resumo do que
acabo de falar. Manadinhas nada mais são do que desfiles de circunstâncias que chegam
ao pódio sob aplausos de específicos grupos de pessoas ou segmentos sociais.
Isso mesmo, Thiago. O ex-presidiário, o Lula, governou o país
durante oito anos. Nesse período, diz a leitura do mundo – e não se deve
duvidar dela – o país passou por descomunal corrupção. Nele, o Lula era dez
anos mais novo, as leis anticorrupção eram brandas, a vigilância oposicionista era
outra, outra também era a vigilância jornalística etc. As circunstâncias eram
outras, concorda, Thiago?
Sem dúvida, Tião.
Então, Thiago. As circunstâncias atuais são dez mil vezes
mais desfavoráveis para que seja instalado um sistema corruptivo daqueles. Isso
não garante, obviamente, que não vai haver corrupção num hipotético governo do
ex-presidiário. Mas esse futuro é incertíssimo, meu nobre Thiago, pelo simples
fato de ser futuro. Desculpe a redundante ênfase, meu caro. O que não tem nada
de incerto, pois já presente, é, como você acabou de falar, a permanência do
insano, tosco, insensível, autoritário e impiedoso na hipotética permanência do
atual governo. Desculpe, de novo, a ênfase redundante, meu nobre.
Sabe o que estou sentindo e vendo neste contexto eleitoral,
Thiago? Estou sentindo forte cheiro do surreal, pois grande parte da população tem
certeza de incerta disfunção no amanhã, mas ovaciona a brutal disfunção de
hoje. Hilário, não? Acho que é a roda grande passando por dentro da pequena. O que
me diz, Thiago?
Mas aí é que tá... Você tem que ver... Sabe, Tião, você foi o
último paciente. Vamos tomar uma cerveja que é melhor.
Foram, Dr. Bastião? Sabe, doutor, falar em manadinha, penso
igual ao Dr. Thiago. Corrupção é um câncer social, doutor. Mas e ai? Voltaram ao
assunto lá na cervejinha?
Vagamente, Anchieta. Thiago ficava pensativo, nas nuvens...
Está me ouvindo, Anchieta. Tá desligado, meu. Mas, na despedida,
o Thiago, Anchieta, zombou dos meus pesadelos:
O mundo não acabou, Tião, mas como acabou o vale tudo de
formigas?
Acabou ainda não, Thiago. A final é domingo, dia 30. A barbudinha
Lucas contra a azuladinha Amaro. Tô torcendo pela barbudinha, Thiago.
Anchieta, gente, não
ouviu a resposta que dei pro Dr. Thiago. Estava pensativo, nas nuvens...
Sei não, gente, mas acho que aqueles dois estavam pensando em
torcer pela formiga barbudinha também.
Bom voto, pessoal!
Natal, 10 do 22,
TC
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