sexta-feira, 28 de outubro de 2022

PESADELOS

 






PESADELOS

Eu era mentalmente sadio. Colecionava algumas bizarrices, não nego, mas nada que me fizesse desconfiar do próprio quengo. Colecionava gols do Alecrim FC, tampinhas de Brahma e abris. Abandonei os gols do Alecrim, larguei as tampinhas de Brahma e passei a colecionar aneizinhos de Skol. Mas permaneço colecionando abris. Já colei seis dúzias deles num álbum verde meio enrugado.

Pois bem. A fim de não deixar os abris isolados, enfiei na cachola a ideia de colecionar figurinhas. Mas não as do futebol brasileiro. São brasileiras, contudo de outro esporte. Prego as figurinhas num álbum chamado horrores. Foi a partir da coleção delas, coisa de quatro anos atrás, que comecei a desconfiar de minha sanidade. Desconfiar, uma piula. Estou mentalmente enfermo, sim. E o mal só faz se agravar. Não durmo que preste. Toda a noite tenho pesadelo. De manhã e de tarde também. Sinto-me confuso, irritado, impaciente, desconectado. Meus neurônios estão com os circuitos invertidos, chego a pensar. Discordo veementemente do que milhões de pessoas pensam e falam. E milhões de pessoas discordam veementemente do que penso e falo. Uma angústia infinita, gente.

Habite este contextinho, meu nobre.

Moro em Natal. Parede-meia com um colégio e pertinho da feira do Carrasco. Não conto as vezes em que o chuá, chuá, chuá da caixa d’água do colégio sangrando deixa chorosa a minha cidadania. Já liguei e religuei pra diretora do colégio, nove, dez horas da noite, mas o chuá, chuá sempre reaparece. Minha reação é coçar o quengo.

No dia da feira, é danado pra deixarem carro obstruindo a minha garagem. Só não deu merda ainda porque não sou lá essas coisas nas coisas de brigas.

Falava disso pro Anchieta... Anchieta, minha nobre, é amigo de meus filhos. Afeição nascida da afinidade entre torcedores do ABC FC. Ele mexe com conveniência. Tem duas lojinhas dia e noite abertas. Anchieta costuma vir aqui em casa comer churrasco e biritar. O cara é doido por futebol: nunca o vi sem a camisa 22 da seleção brasileira (mas usa também a do Ceará).

Pois então. Domingo passado eu falava pro Anchieta sobre o pesadelo, o inquieto estado de espírito, e ilustrava a inquietude com a caixa d’água sangrando e com a obstrução da garagem:

Ah, Dr. Bastião (não tenho cara de doutor, mas assim ele me chama), essas coisas é assim mesmo (ele falou assim, sim). Acontece. É normal. É o doutor quem vai pagar a conta d’água do colégio? É o doutor quem vai pagar a multa de trânsito se o cara for multado? Então! Não esquente com essas coisas, não, hômi. Vida que segue.

Puta que pariu, Anchieta. Não tô falando disso não, porra.

Não retruquei com essas palavras, é lógico, mas as danadinhas se encontraram com a cerveja na garganta. E fizeram-me coçar o quengo. Estava só na segunda gela, gente. Anchieta ficou repetindo “o vida que segue”:

Vida que segue, vida que segue, doutor. Sabe, Dr. Bastião, fiquei curioso com o pesadelo diário. O doutor disse que basta fechar os olhos pro bicho aparecer. É isso mesmo? Como é ele?

Como se fosse um filme assistido aos pedaços, Anchieta. É um aperreio de vida sem fim. O pesadelo acontece num país sul-americano chamado Andiroba, fronteiriço com o Brasil. Numa triste manhã, os andirobenses sentem uma coceirinha no braço seguida duma catinga de queimado. A coceirinha vai embora em minutos, mas o fedor fica. À tarde, Anchieta, o mundo todo já fica sabendo que todo o mundo está fedendo.

É evidente que “o mundo todo e todo o mundo fedendo” é força de expressão. Força de expressão que vai se revestindo de força da razão à medida que os dias passam. Passados 15 dias de catinga, as redes sociais obrigam a OMS declarar pandemia a coceirinha e a soltar o alerta: 23% da população mundial já pegaram o fedor. Mas o fedor é o de menos.

De mais é a própria doença, Anchieta, até ali falada com reservas em obediência à incurável estupidez humana. Os fedorentos perdem a libido, meu caro.

Com 30 dias nessa pisada - sem pisadas e sem pegadas é melhor - e com a ciência quebrando a cabeça por uma saída a fim de que o mundo volte a produzir cópia humana, o próprio mundo quebra a cabeça, pois antevê o caos dando psiu para o apocalipse e se pergunta quanto tempo lhe resta...

Como assim tempo lhe resta, Dr. Bastião? Não entendi.

Puta que pariu, Anchieta. Tens o que na cabeça, porra.

Aloprei, gente. Não me aguentei. Falei desse jeitinho. Falei, ri, peguei um guardanapo, fiz um desenho e entreguei a ele. O desenho mostrava um casal se beijando na cama, um menino e uma menina ao lado. Mesmo assim traduzi:

Entendeu, Anchieta? A verdadeira doença é a perda da imaginação libidinosa. E sem ela não rola sexo. E sem sexo não haverá meninos e meninas para substituir homens e mulheres que vão morrendo. Por isso o mundo se pergunta quanto tempo lhe resta na hipótese de transas zeradas. Entenda de uma vez por todas, Anchieta, que o sexo começa na libido, na imaginação, e que a cópula é apenas o ápice físico desse processo. Quer outro desenho ou um tutorial do processo?

Nossa, Dr. Bastião. Mas voltando ao pesadelo...

O pesadelo fica se misturando com outros cenários, Anchieta. Num desses cenários, está rolando um campeonato de vale tudo entre formigas. Mas só assisto às lutas quando estou espichado na rede. Tá um quebra pau dos grandes, cara. Pena que já esteja pertinho da final. O ringue fica pequeno para certas formiguinhas. Se o juiz, um humano de casco reluzente, não tivesse tanto pulso, não atino com o desatino que...

Mas a coisa da falta da libido. O doutor disse que com 15 dias...

Ah, sim. Então. Passados mais 15 dias, um mês de pandemia, portanto, a OMS divulga um relatório assustador: 22% de homens e mulheres sexualmente ativos estão borocoxôs. Entenda a estatística, rapaz. 22% de pegadores e de pegadoras não estão pegando ninguém, cara. Acompanha o relatório, Anchieta, um comunicado que faz a ficha da humanidade cair. O comunicado é prenhe de obviedades. Eis um resumo dele:

 Que o Disfuncional XY é pego nas ruas por meio de um microrganismo indefinido; que... (a OMS, Anchieta, chama a coisa de “Disfuncional XY”, mas o povão apelidou a desgraça de “Broxantevírus”); que tinha a suspeita de que o Disfuncional estivesse escapando de equipamentos nucleares, posto ter atingido o mundo ao mesmo tempo, mas que tal suspeita não havia se confirmado; que a ciência buscava incansavelmente a cura para a doença; que se o percentual de 22% atingisse a casa dos 50% só restaria aos humanos a contagem regressiva para a sua extinção, ainda que nos meses subsequentes os disfuncionais readquirissem a potência libidinosa e que, diante do apocalíptico quadro, sentia-se na obrigação de recomendar que as pessoas só saíssem de casa para afazeres estritamente inadiáveis, mesmo assim agasalhadas da cabeça aos pés e que, como radical tentativa de formar mão de obra para um futuro de 16, 17, 18 anos, recomendava que casais héteros composto de um parceiro sadio e outro contaminado deviam ativar a consciência cósmica a fim de que o sadio pudesse se juntar a parceiros ou parceiras em análoga situação para a humana cópula de sobrevivência da espécie.

“Pelo amor de Deus, humanos, não é hora de preconceito, vergonha, dogmas”.

Foi assim que a OMS encerrou o comunicado. Entendeu, Anchieta?

Entendi. A cornagem oficializada. Não cederia minha mulher nem a pau, doutor. Mas e aí? Essa pouca vergonha foi pra frente ou...

Espere, espere. Vou abrir uma latinha.

Mas aí, Anchieta, renomado microbiologista, o Dr. Átila Campeta, descobre a origem do broxante. É um microrganismo da família dos Alfas chamado cientificamente de YXZ666. Dr. Campeta localiza o indivíduo no próprio país dele, República da Andiroba. Segundo o Dr. Campeta, esse pestinha existe em todo pé de mato não frutífero do mundo, não ofende o comer que come e a espécie é altamente solidária. Vou historiar a coisa, Anchieta.

Seguinte. Situa-se em Andiroba grande parte da floresta amazônica. O que acontece. Dr. Campeta descobre no centro dessa floresta uma área de aproximadamente 100 mil campos de futebol pegando fogo, um fumaceiro só. Ocorre, meu caro, que o infeliz YXZ se sente sufocado com o fumaceiro e foge fazendo nuvem tóxica. Daí a catinga de queimado que a população sente e a queima de sua autoestima. A solidariedade da espécie, garante o doutor, faz com que os XYZ de outras partes do mundo também saíssem pra gandaia.

Capeta mesmo esse Dr. Campeta. Mundo salvo, né, Dr. Bastião, já que o trabalho foi só apagar fogo. Apagado o fogo, o tal do YXZ não mais precisa fugir, bem como os colegas de outras paragens. Seu pesadelo acabou nesse ponto, não?

Não, Anchieta. Pelo contrário: aumentou. Sentia o pesadelo mesmo sem fechar os olhos. O que era de se esperar naquela situação? Que o apagado de fogo começasse já no dia seguinte à descoberta do Dr. Campeta. Acontece que entra na história o presidente da Andiroba.

Veja, meu caro. O presidente negava a pandemia. Um mês de sufoco, mas o presidente não abandonava o discurso de que a coisa era só uma broxadinha. Ele falava com autoridade, Anchieta, pois se dizia imbroxável, entende? Sabe o que falava o presidente sobre aquela recomendação da OMS para a população saudável não sair de casa, mas que, se saísse, saísse protegida dos pés à cabeça? Dizia que aquilo era coisa de maricas.

Pois bem. O mundo planeja um mutirão a fim de apagar o fogo. O presidente diz que ninguém entra em sua Andiroba, que todo aquele circo é um projeto comunista para se apoderarem da Amazônia andirobense e que o cientista Campeta é canhoto desde criancinha. Pra você ter ideia do furdunço, Anchieta, o presidente baixa um monte de decreto para facilitar a compra de armas por parte dos andirobenses. “Povo armado nunca será escravizado”, afirma ele.

Bom. Depois de intensa pressão internacional, OMS, ONU, OTAM, escambau, e com a invasão amazônica devidamente autorizada pela Justiça andirobense, eis que o presidente anuncia que vai fazer uma licitação para apagar o fogo. Aí, cara, os Estados Unidos e a Rússia pegaram ar. Literalmente, Anchieta. O que tinha de avião com gigantescas mangueiras sobrevoando a área fumegante não estava no gibi. O presidente não deu um pio, Anchieta.

Apagaram o fogo em 15 dias. Mais 15 dias e a OMS declarou extinta a pandemia. Os humanos estavam salvos. A euforia foi tamanha que o psicológico que fez o povo feder e brochar fez também o povo morder e beijar: tiravam o atraso em minutos. Cena histórica, Anchieta, teve o protagonismo de linda e famosíssima repórter da Globo. Afogueada toda e toda sorrisos, como se saindo de vitoriosa maratona, ela exulta ao noticiar o fim da pandemia. Fala, exultante, embora tenha posto a mão na boca e arregalado os olhos em seguida:

“Ufa! Escapamos fedendo”!

A exclamação da repórter, Anchieta, passou para a história assim:

“Ufa! Escapamos fedendo”!

Já ouviu expressões desse tipo, Anchieta?

Sim, sim, doutor. Não conto as vezes. É a mesma coisa que quase ter morrido. Mas, me diga, Dr. Bastião, esse pesadelo acabou assim, não sentiu mais nada dele não? Tem outros? O doutor não procurou ajuda médica não, não?

Do mundo se acabando praticamente acabou, Anchieta. Aqui, acolá surgem uns flashes, mas logo passam. O do campeonato das formigas continua. Esse está bom demais, bicho. Têm dois pesadelos novos, sim. Num deles, um bando de baratas fica roendo o sol. Noutro, eu faço dois gols pelo Alecrim na final de um mundial de clubes na Síria.

Fui ternontonte ao médico, Anchieta. Psiquiatra, meu amigo, o Dr. Thiago. Mas... Quer saber, cara, vou abrir o jogo, porquanto achar que consegui botar papinha na sua boca. Olhe só. Thiago é meu amigo há tempos. Ele, assim como você, vota no Bolsonaro. Anda até com bandeirinhas no carro. Desculpe, Anchieta, mas vivo quebrando a cabeça a fim de entender como alguém vota no Bolsonaro depois do comportamento dele em relação à pandemia covid. Sobretudo muitos religiosos de templos, cujas paredes vivem ecoando clemência, piedade, compaixão, indulgência. Tudo, enfim, que o nosso governante negou aos governados.

Thiago, Anchieta, perdeu dois tios e uma irmã para a infeliz. E o próprio ficou uma semana internado, cara. Agora, fico constrangido de perguntar a ele e a você a razão desse voto no impiedoso. Especialmente a um médico, Anchieta. Daí bolei o plano dos pesadelos...

Não teve os pesadelos, não? Enganou-me direitinho, viu?

Não tive nada, Anchieta.  Tudo foi fingimento. Fiquei me queixando na frente do Thiago com o intuito de marcar formal consulta com ele e assim criar o contexto para a inquietante pergunta. Comecei a criar o contexto assim:

 

“Estou me convencendo, Dr. Thiago, de que o tal do óbvio não existe. O que é bastante lógico e objetivo aos meus olhos passa longe de ser percebido por milhões de pessoas”.

Consulta atípica, Anchieta. Atípica, já que, por mais que quiséssemos dar um tom formal a ela, a amizade de anos teimava em nos dirigir para a benquerença. Aí o Thiago saiu-se com este arrazoado filosófico:

 Engano seu, Sr. Tião. Pouquíssimas coisas no mundo não são óbvias. E o que não é encontra-se no caminho de ser. Sei aonde quer chegar, pois o senhor é bastante óbvio. Só não é mais porque teima em não enxergar que você não é você.

Espera aí, espera aí, Thiago, doutor, digo, o pinel aqui sou eu. O maluco aqui não é você, cacete. Eu não sou eu! Que porra é uma, Thiago?

Você foi você apenas quando estava no ventre da mãe, Tião. Em seguida passou a ser dois. Um do agora, o do presente, o de curto prazo; e outro que foi se formando – e ainda está -, o do futuro, o do depois, o de longo prazo.

Minha Nossa Senhora, Thiago!

Veja o instantâneo do Tião de curto prazo, Tião.

Com dor de dente você é uma pessoa, na saúde plena já é outra, no liseu é caladão de dá pena, na grana é um blábláblá sem fim, na transa é sinônimo de contentamento, na frustação dela é uma carranca só, na vitória do Fluminense transforma-se em amabilidades, na derrota a amabilidade é um sai da frente. E nessa oscilação equilibra-se você, Tião. Você escolhe. Ou você são muitos você ou você não é você.

Você, Tião, é o seu estado mental em determinado momento. Isso é óbvio ou não é?

Veja a formação do Tião de longo prazo, Tião.

Bebê no berço, menino no Jardim, adolescente no colégio. Adulto na faculdade, no lazer, no trabalho. Shoppings, filmes, conversas. Encontros, desencontros. Verdades, mentiras. Sim, não. O que leu, o que não leu. Nesses e noutros estágios da vida, Tião, você foi abrindo precedentes. Alguns viraram costumes, outros foram descartados. Mas todos foram experiências de vida. Algumas sobrevivem na memória, outras nos cafundós da mente. Essas experiências agregaram e agregam conceitos numa mente em constante ebulição. Conceitos que se transformaram e se transformam em escolhas, alternativas, valores.

A soma dessas coisas fez o Tião de longo prazo, Tião.

Você é uma complexidade de coisas inconstantes que habitam a sua mente. Você e eu somos os outros. Somos uma manada. Sozinho a gente morre de fome, de afeto, de isolamento. A solidão, seja a comportamental, seja a ideológica, seja a espiritual, vai nos deixando enlouquecidos, Tião. Por isso vivemos nos juntando aos iguais e formando manadinhas, manadinhas, manadinhas... Isso é óbvio ou não é?

Então eu e outros indivíduos não temos culpa, Tião, de amarmos rock e ruivinhas. Da mesma forma que você e sua manadinha não têm culpa de detestá-las. Mas nossa escala de preferência deve coincidir noutras manadinhas da vida. Concorda?

Caramba, Dr. Bastião. Esse Dr. Thiago ou é muito sabido ou é muito pirado. Ele disse que sabia aonde o doutor queria chegar. Era o quê? Fiquei curioso. O Doutor detesta ruivinhas mesmo, é?

Sacanagem daquele sacana, Anchieta. Thiago sabia de tudo. Confessou:

Sabia que você não tinha porra de doença nenhuma, Tião. Conheço você, meu amigo. Mas você quebrava a cabeça procurando o motivo pelo qual voto no Bolsonaro. Seria mais simples me perguntar, não? Ocorre que a complexidade humana chamada Tião o deixava constrangido de me fazer tal pergunta. Então armou todo esse teatro a fim de capturar a resposta. Mas fique tranquilo. Você não está sozinho no aspecto constrangimento. Tem a sua manadinha. E é claro que amanhã já pode estar se unindo a uma manadinha desprovida dessa vergonha.

Voto no Bolsonaro, Tião, porque não quero que um ex-presidiário, o responsável pelo maior esquema de corrupção deste país, volte a governá-lo. Simples assim. A pauta ideológica e a de costumes não me afetam, Tião. Sinto-me desconfortável, confesso, no tocante à pandemia, mas relevo o jeito insano, tosco, insensível, autoritário e impiedoso do presidente. Sou Bolsonaro, Tião. Não voto nem Lula nem nulo, amigo.

Então você, Thiago, e um monte de pessoas, fazem parte daquela manadinha proverbial que vive repetindo o “Cesteiro que faz um cesto faz um cento”.

Isso mesmo, Tião.

E o que me diz, Thiago, do “O homem é o homem e suas circunstâncias”.

Sábias palavras de José Ortega y Gasset, Tião. Resumo do que acabo de falar. Manadinhas nada mais são do que desfiles de circunstâncias que chegam ao pódio sob aplausos de específicos grupos de pessoas ou segmentos sociais.

Isso mesmo, Thiago. O ex-presidiário, o Lula, governou o país durante oito anos. Nesse período, diz a leitura do mundo – e não se deve duvidar dela – o país passou por descomunal corrupção. Nele, o Lula era dez anos mais novo, as leis anticorrupção eram brandas, a vigilância oposicionista era outra, outra também era a vigilância jornalística etc. As circunstâncias eram outras, concorda, Thiago?

Sem dúvida, Tião.

Então, Thiago. As circunstâncias atuais são dez mil vezes mais desfavoráveis para que seja instalado um sistema corruptivo daqueles. Isso não garante, obviamente, que não vai haver corrupção num hipotético governo do ex-presidiário. Mas esse futuro é incertíssimo, meu nobre Thiago, pelo simples fato de ser futuro. Desculpe a redundante ênfase, meu caro. O que não tem nada de incerto, pois já presente, é, como você acabou de falar, a permanência do insano, tosco, insensível, autoritário e impiedoso na hipotética permanência do atual governo. Desculpe, de novo, a ênfase redundante, meu nobre.

Sabe o que estou sentindo e vendo neste contexto eleitoral, Thiago? Estou sentindo forte cheiro do surreal, pois grande parte da população tem certeza de incerta disfunção no amanhã, mas ovaciona a brutal disfunção de hoje. Hilário, não? Acho que é a roda grande passando por dentro da pequena. O que me diz, Thiago?

Mas aí é que tá... Você tem que ver... Sabe, Tião, você foi o último paciente. Vamos tomar uma cerveja que é melhor.

Foram, Dr. Bastião? Sabe, doutor, falar em manadinha, penso igual ao Dr. Thiago. Corrupção é um câncer social, doutor. Mas e ai? Voltaram ao assunto lá na cervejinha?

Vagamente, Anchieta. Thiago ficava pensativo, nas nuvens...

Está me ouvindo, Anchieta. Tá desligado, meu. Mas, na despedida, o Thiago, Anchieta, zombou dos meus pesadelos:

O mundo não acabou, Tião, mas como acabou o vale tudo de formigas?

Acabou ainda não, Thiago. A final é domingo, dia 30. A barbudinha Lucas contra a azuladinha Amaro. Tô torcendo pela barbudinha, Thiago.

 Anchieta, gente, não ouviu a resposta que dei pro Dr. Thiago. Estava pensativo, nas nuvens...

Sei não, gente, mas acho que aqueles dois estavam pensando em torcer pela formiga barbudinha também.

 

Bom voto, pessoal!

Natal, 10 do 22,

TC

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário: