CHICO
Gorete não se
conformava com o tom de desprezo da voz da secretária atendente:
“Acontece, D. Gorete, que o Chico
não pode falar com a senhora. Nem agora nem nunca. Que coisa! Desculpe, mas vou
desligar”.
E desligou. Na
cara da Gorete.
Cabelos
engolindo o vento, dentes se alimentando de unhas, corpo maleitado, voz
arremedando varas verdes, Gorete pegou ar, tornou a ligar e soltou o verbo:
“Como
assim nem agora nem nunca, sinha abusada! Tá maluca! Chame...”
Nova
desligada na cara da Gorete.
Gorete
sorveu o ar puro da praia, olhou a hora: 7 e 34 da noite.
Atravessou a avenida,
subiu para o apartamento, esparramou-se na cama. Levantou-se e ficou andando
pra cima e pra baixo e de baixo pra cima. Cada passo um enxadeco cavava o paul
da depressão, os neurônios enchia de minhocas um caçuá, e a mente se
encarregava de trazê-lo para o quengo da coitada. Deitou-se no chão, entre as
pernas uma almofada, nas mãos a foto do Chico, na mente o temor de perdê-lo
para sempre.
Começara com
as amigas, passara pelo emprego, e agora até a família achava que um parafuso
se soltara da cachola da Gorete, tão apaixonada ela era pelo Chico. Viviam na
cola dela
“Na certa vão
me internar. Nunca se apaixonaram. Coitados! Aí como verei o Chico? Minha
nossa!”, pensava a Gorete. Pensava e alisava-lhe os pelos, e acariciava-lhe o
rosto, e beijava-lhe os verdes olhos. E
assim, alisando, acariciando e beijando a foto do Chico, a Gorete tomou a
decisão: sairia de fininho, pegaria um táxi e iria falar logo com o Chico.
Depois poderia ser tarde. Aí não adiantava chorar o leite derramado.
Amor vivo a
ponto de cegar a razão. Isso é paixão, meus nobres. Profundo entusiasmo por
alguma coisa. O nome desse vício dominador é paixão, minhas nobres. Dominado
pelo afeto, dedicação emocional violenta, irracionalidade. São sintomas de
paixonite, gente. E a Gorete viva bebendo no cálice desses velhos sentimentos,
entenderam? Daí a ser tachada de pinel foi um passo só.
Gorete apanhou
um táxi e se mandou. Tão estabanada estava que nem percebeu que o irmão
conversava com a taxista e logo se afastou quando a viu saindo do prédio.
Gorete entrou no táxi e simplesmente falou:
- Pro Chico.
- Tá bem. O Chico é um lindo gato, não é,
senhora?
- É, sim. Mas a senhora não o conhece, não é?
A taxista apenas sorriu. Dez minutos depois
parou o táxi na frente da clínica Seu Animal é Você.
“Seu gato está bem, senhora. Tinha somente um
probleminha nas cordas miais. Raramente se vê um gato de oito anos com tamanho
vigor, D. Gorete. O Chico ainda vai miar muito, viu? Vou dar a alta dele agora,
tá certo? Parabéns à senhora pelo gato que cria, e parabéns ao Chico pela gata
que dele...”. Ante o olhar reprovador da Gorete, o veterinário cortou o gracejo
e a levou até a gaiolinha onde o Chico coçava as patinhas.
Chico viu a Gorete
e deu sonoro miado, Gorete derreteu-se toda, sorriu e pôs-se a conversar com
ele.
Abraços
bichanados,
Tião
2 comentários:
Confesso Tião, que o inicio do texto me enganou direitinho. Se o cabra não for bem de leitura, fica meio encafifado, ou seja, confuso. O bom da leitura é isso. Mas no final, entendi. KKKK!!! Valeu! Gostei!
Era esse o objetivo do texto,
Valeu!
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