JORNAL DO PORCO – EDIÇÃO ESPECIAL
Bom-dia a todos.
Antes das palavras do Dr.
Bião, gostaria de prestar alguns esclarecimentos. É, é... O som está me
parecendo imperfeito. Por favor, peço ao encarregado...
“O som está cortando,
doutora. Tá chegando pra gente de carroça, bêbado todo. Estiquei o pescoço prum
lado, mas mesmo assim não compreendi bem o que a doutora disse. Aqui atrás só
vai entender a senhora quem tiver as ouças de tuberculoso. A doutora estava
lamentando a ausência da prefeita, não era isso?”
É claro que a risadeira foi
geral. É claro também que geral significa os escritores que estavam próximos à
mestra de cerimônias, visto os que estavam no fundo da sala terem entendido
exatamente o que o reclamante dissera.
Antecipando-me aos tais
esclarecimentos, convém explicar:
Quem quer dar as informações
é a educadora
Angellina Nimuz. Ela
desempenha o papel de mestre de cerimônias de um evento sobre educação. O
encontro ocorre em 2050, na capital do Rio Pequeno do Norte, Cristal. Cristal
fica no nordeste de Andiroba, país cujas pernas fazem terra com as do Brasil. A
reclamação advém do escritor JB, que vive de mãos dadas com a poesia.
Domado o riso, sonorização
sóbria, a Dra. Angellina retoma os trabalhos:
Ilustre JB, estava me referindo precisamente à imperfeição sonora. Mas
o senhor está certo. E este é um dos esclarecimentos, poeta. A prefeita, Dra.
Carlinha - assim como a governadora, Dra. Rosinha - não virá à convenção.
Soubemos há pouquinho tempo por meio de um programa esportivo. Tampouco mandarão
emissários, pois estão todos numa importantíssima reunião sobre a Copa do
Mundo, a ser realizada no meio do ano. E, sabemos, Cristal será sede de três
jogos. Imaginamos que devido à concentração de esforços governamentais na área
esportiva é que tenham se esquecido de enviar as passagens aos escritores
estrangeiros. Displicência compreensível, não? Os outros convidados só estão
presentes porque vieram em avião particular.
Dada a ausência de
administradores públicos, o cerimonial pede que o Dr. Bião faça a abertura
deste congresso educacional. A cerimônia...
Neste momento o som voltou a
falhar. Aproveitei e contextualizei logo certas explicações a fim de que não
saiam dizendo que o repórter do Jornal do Porco omitiu
informações.
O congresso educacional, leitor,
é patrocinado pelo governo federal, numa jogada política a fim de fazer com que
a Dra. Internete desista de afastar-se dos PMGs (antigos computadores) dos
andirobenses. Não obstante a aparente preocupação, o Ministério da Educação
passou um imeio em que pedia que a organização local cuidasse do evento,
porquanto não mandaria representante por falta de diárias. Este seminário,
gente, é o primeiro de uma série de três. Depois virão os de Segurança e Saúde.
Continuemos com as explicações.
Dr. Bião é cidadão
cristalense, escritor e operador mental. É o porta voz da Dra. Internete dos
Pontos Dáblius nesta briga de foice com as autoridades andirobenses.
Uílame Chicopires, Agata
Cristo e Alexrandre Tchecol são os escritores estrangeiros, os sem-passagens,
citados pela Dra. Angellina. A ideia do Governo é dizer ao mundo que está
preocupado com a intenção chantagista da Dra. Internete. Daí, nada melhor que a
presença desses autores e dos empresários convidados.
Por fim, Dr. Gugo, Dr. Biu
Leite e Dr. Estêvam Bobs são os convidados que vieram em avião particular.
Tendo em vista a demora em
consertar o som, peguei meu bloquinho e caneta e saí a procurar algo em que se
esfregassem. Comecei pela mestra de cerimônias e doutora em educação, a Dra.
Angellina:
Dra. Angellina, tá meio
complicada a situação, não?
“Um despropósito, meu caro.
Parece mais um dos N contos do Tchékhov”.
Escritor Lívio Neto, por
gentileza. Sua opinião sobre o enclave, escritor:
“Que enclave? Este ambiente
não está sendo um lugar de palavras, só digo isso”.
Professor Parente Cereja,
sua análise acerca deste tumultuado encontro. O que está achando, professor?
“Dentro do esperado. A
rigor, este é o final de uma crônica conhecida, senhor repórter”.
Escritor Mançuá Campestre, o
senhor já tinha presenciado qualquer coisa parecida com este serrote de
desatinos?
“Tô acostumado. Mas esse
passou da conta. Isso é um crime. Uma cuspida na esmeralda da educação. É um
tiro de doze no santuário da educação, meu filho”.
Romancista Neil Lastro. É,
é, o que o senhor tem a dizer sobre o início deste encontro, senhor Neil.
“O que tenho a dizer? Que a
gente peleja, peleja, mas não consegue afastar do bolo da sabedoria as mansas
moscas da estupidez”.
Por aqui também o poeta
Kardex Aparecido.
“Recomendações a todos,
recomendações a todos, meu querido”.
Vi o Dr. Bião, de bobeira, e
corri para entrevistá-lo.
Dr. Bião, a Dra. Angellina
Nimuz já o elegeu para abrir a assembleia. O senhor já conhece a decisão da
Dra. Internete? Ela vai realmente nos abandonar? E o que significam essas
papeletas numeradas, Dr. Bião?
- Segundo minha intuição, ficaremos sem internet, sim. Só não
sabemos dizer se daqui a 22 segundos, 22 minutos ou 22 horas. O número nas
papeletas é um trilha para os arquivos do PMG, o computador. Um clique no 1 e veremos
os dados sobre o oportunismo na capenga distribuição do fardamento estudantil e
da merenda escolar. O 2 mostra os dados da cratera salarial dos professores.
Enfim, a numeração é um atalho para as estatísticas sobre a brutal deficiência
nos serviços apresentados pelo Estado andirobense. Ainda que tais carências
estejam verrugadas na cidadania dos andirobenses, os números escancaram isso de
forma carniçada, senhor jornalista. São atributos fidedignos, pois
auto-organizados pela Dra. Internete.
Dr. Bião, no ano passado,
suportamos a aflição de ficar dois meses sem internet. Passaremos agora um
período semelhante e nos mesmos moldes? O senhor não acha que, com tamanha
birra, a Dra. Internete esteja atacando a população?
- Veja, nobre jornalista.
Como bem disse o senhor, no ano passado a Dra. Internete deu um ultimato
mundial (http://www.protexto.com.br/livro.php?livro=425
e http://www.pocilgadeouro.com/2012/05/as-besteiras-do-biao.html): saiu do ar e
disse aos governantes que só voltaria quando estivessem em níveis aceitáveis os
serviços de Saúde, Segurança e Educação postos à disposição dos governados.
Todos cumpriram o combinado, exceto o nosso país, Andiroba. Dra. Internete
devolveu a internet pra todo mundo, mas poderia ter nos deixados sem ela,
entendeu? Mas não foi vingativa, senhor repórter. Ao contrário, pediu à minha
intuição que entrasse em contato com o Ministério Público a fim de
estabelecermos um acordo com os governantes andirobenses. Está vendo estas duas
pastas?
Sim, Dr. Bião. Identificadas
com TAC e TIC. O que...
- TAC significa Termo de
Ajustamento de Conduta. TIC, Termo de Inadimplência de Conduta. São três termos
de cada modalidade, porquanto a cada TAC corresponde um TIC. Termo de
Ajustamento para os nossos gestores é risco na água. Então, de tic a tac e de
tac a tic o tempo passou e adeus tia chica de novidades, morreu maria preá de
melhorar os serviços. Restou tão somente à Dra. Internete punir o Estado, já
que as três tentativas de acordo falharam. E, como sabemos, três é o número que
faz com que a Dra. Internete bloqueie a senha de confiança de qualquer ente.
O senhor acha, caro
jornalista, que ataca quem defende o infeliz que não pode pagar um plano de
saúde? O senhor julga atacante quem protege o assalariado que não pode arcar
com a despesa de segurança privada? O senhor tacha de agressor quem ampara o
pai de família que não consegue colocar o filho numa escola particular?
Ficaremos sem internet por
um período indeterminado, senhor jornalista. Passaremos por idêntica tortura.
Nenhuma planilha advinda da internet funcionará. Isso quer dizer falta de
energia, de água, de telefone, de metrô, disso, daquilo, daquilo outro.
Agora, tudo depende do
Estado andirobense. Dra. Internete quer ver o Governo agindo. Ajam e a internet
brevemente nos beijará. Enrolação? Enrolem e da internet não verão um sorriso.
Ia fazer outra pergunta, mas
o som estava voltando. Dr.Gugo se aborreceu com a demora, foi lá e consertou o
bicho. Dra. Angellina estava chamando o Dr. Bião.
Dr. Bião chegou ao púlpito,
então o inusitado aconteceu. Muita gente ali não conhecia o Dr. Bião, de
maneira que...
Bem, o Dr. Bião tem mais ou
menos um metro e cinquenta centímetros, pesa 45 quilos, no máximo, usa cabelos
compridos, encaracolados. Os olhos são amarelados. As pernas são de sibites.
Estava usando uma camisa compridona, quadriculada, tipo toalha de mesa,
bastante comum na roça de antigamente. Numa solenidade daquele porte e o Dr.
Bião alegre, óculos escuros, bermuda colorida, com oito bolsos, cheguei a
contar.
Daí que foi o Dr. Bião
aparecer junto à Dra. Angellina para a plateia cair na risada. Dr. Gugo, então!
A beleza da doutora, de vestido longo, junto à feiura do Bião, de calça
bermuda, deu aos presentes a exata definição de contraste. A doutora segurou o
constrangimento, mas deu para perceber a bochecha inchada, os olhos
sorridentes, o nariz aceso. O riso se esperneando, em síntese.
“Bom-dia”, disse o Dr. Bião,
e também caiu na risadagem. “Ainda bem que temos ânimo para rir. Não sou feio
porque sou feio. Porque feios, feios agiram os nossos governantes. Tão feios
que nos fizeram de idiotas. Onde estão eles? Cadê os omissos? Dão notícias dos
infiéis? Viram os enganadores? Se nada têm a nos falar, porque aqui não vieram,
não vejo razão para estarmos aqui.
“Declaro aberta e encerrada
a assembleia.”
Os acontecimentos entre a
fala do Dr. Bião e a falta da energia, coisa de dez minutos, pessoa alguma
presente ali será capaz de descrever. Com precisão, não. Sabemos que a energia
foi embora, que o Dr. Bião e a Dra. Angellina sumiram e que no lugar deles
apareceu uma mulher absurdamente linda. Até aí, beleza.
Depois. Bom, depois tudo
ficou embaçado, coçávamos os olhos, sorríamos abestalhados. Num piscar de olhos
tudo ficou extremamente iluminado. Impossível dizer a cor dos olhos da mulher.
Em segundos, mudava do azul pro castanho, pro verde, pro mel. Mas podia ser o
contrário. Louro, preto, ruivo, colorido. Assim ficava o cabelo dela. Ou
pensávamos que ficava. Ela tinha em torno de quarenta anos e usava um vestido
vermelho, de alcinha. Vermelho, acreditava eu. Mas, acabado o transe,
juraram-me que era verde, sem alças. A moça não apenas olhava pra gente.
Cravava o fundo de nossa alma, no mais das vezes. De mais a mais, abaixava o
tronco, numa mesura digna da mais verdadeira gueixa.
De repente a luz sumiu, o êxtase acabou, a mulher desapareceu, a
verdade surgiu. Estávamos sem internet, anunciava, aos gritos, o Dr. Bião. Dra.
Angellina nos fitava, surpresa com o nosso silêncio e a expressão de
abobalhados.
“Andiroba está sem internet,
senhores. Aguardemos as atitudes dos governantes”.
Cadê a moça, perguntamos,
praticamente a uma só voz.
Que moça, gente? Meu Deus! O
que aconteceu com os senhores?
“A mulher mais bonita do mundo, doutora, ficou uns
dez minutos onde a senhora está, a fazer mesuras pra gente. Estamos loucos, por
acaso? Cadê ela?”, irritou-se o Dr. Gugo, falando no mais genuíno português.
Aí foi a vez do queixo caído
da Dra. Angellina esbugalhar os olhos. Dr. Bião explicou o ocorrido:
“Ah, entendi, pessoal. Bati
numa tecla do PMG exatamente na hora em que a Dra. Internete ia fazer a
internet cair. Muita coincidência, senhores. Essa operação fez brilhar o meu
papel de trabalho, a foto de minha namorada, na tela do PMG. Ampliada pelo
equipamento, a imagem da Salete lhes pareceu real, meus amigos.”
“Perfeitamente, Dr. Bião.
Mas tal episódio durou somente três segundos, li isso nitidamente, e a internet
caiu”, concordou a Dra. Angellina.
“Três segundos foi o tempo
internético, doutora. Um segundo internético equivale a duzentos e dois
segundos na ficção real, entendeu?”
“Com todo o respeito, Dr.
Bião, mas isso está me sugerindo conversa pra boi dormir”, brincou o Dr. Biu
Leite, enquanto o Dr Gugo coçava a barbicha, pensando em expandir a informação,
e o Dr. Estêvam Bobs fitava o além, imaginando transformar a notícia em
dinheiro.
Dr. Bião apenas sorriu. Dra.
Angellina riu e nos sorriu. Sorrimos, rimos, demo-nos chuazinho. Fazer o quê?
Um abraço e até nova edição
de o Jornal do Porco.
Tião
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