UM SÃO JOÃO ARRETADO
A mesona era do São João, a alegria
abraçava os presentes, a tradição felicitava a fogueira. Eu papeava e ria com dileta
amiga, quando Santinha se juntou a nós. Dava gulosos tragos numa latinha de
cerveja. Sabíamos de sua aversão ao
álcool, por isso ficamos de queixo no chão com a cena. Mas, em conluio, nossas
mentes não verbalizaram a surpresa.
A causa do riso era a votação para
eleger o casal vencedor do concurso de dança. Votação apertada, o par campeão
só ganhou porque um bêbado corrupto levantou a mão de um dos jurados, o bêbado e
roncador Everaldo. Sacanagem pura, já que a preferência do público era para o malabarismo
corporal de certa dupla. Frenesi com rascunhos eróticos, segunda as palavras de
conservadora jurada.
Bom, como a bebida só quer um pé
para expor o fã, o ronco do bêbado levou Santinha a nos perguntar se tínhamos o
costume de roncar. Mas nem quis conhecer as respostas e logo deu a sua:
- Desconheço se ronco. Como vou
saber, seu menino, se ninguém me fala, já que sempre dormi sozinha? Mas acho
que ronco muito. Desconfio, pois tenho bastante pecado. E o ronco nada mais é do
que o engasgamento do pecado. É o bicho fazendo força a fim de passar pela
garganta.
Santinha falava olhando-me displicentemente,
mas encarava com força a minha amiga dileta. Fiquei pensando quão chave de
fenda é o álcool. Afrouxa mente, língua e assemelhados. Santinha jamais me chamara
de seu menino, tampouco a tinha visto encarar alguém daquela forma.
Caramba! Pensei. Pensei, contudo a
mente mandou-me ficar na minha. Fiquei na minha, a amiga dileta abriu a boca, por
certo para discordar da teoria do engasgamento e se gabar de roncadora, mas
ficou na dela. A Santinha pegou mais uma latinha e ficou na falação:
- Tenho muitos pecados. O primeiro,
normal, de novinha, mas me lembro. Depois, já meio madura, o mais feio. Eu não
queria, juro. Resisti, resisti, mas terminou chegando o momento em que não tinha
mais jeito. Pior, seu menino, é que eu era apaixonada por um rapaz, embora ele
não soubesse que eu me considerava a sua noiva. Meu sonho era casar vestida de noiva. O vestido estava encaixotadinho no meu quarto. Esperávamos, eu e o vestido, que o meu amor tirasse os nossos selos, entende? Pecava diariamente por causa dele.
- Entendo. Entendo, mas agora me
diga. O diariamente é força de expressão, não é?
- Força de expressão uma ova, seu menino.
Era toda a noite, toda a noite. Quer chovesse, quer fizesse sol. Não conseguia
dormir sem ela.
- Nossa! Seja sincera, Santinha. Você
acha isso pecado mesmo?
- É claro que é. Pecado da gula,
seu menino. A ansiedade entupia-me de pizzas. Pagava uma fortuna por mês à
pizzaria. Só não engordei em razão do calibre de magra.
Acho que foi meu jeito de
apalermado que fez a amiga dileta pedir licença e sair. Nem olhei pra ela. A voz
fraquinha falava tudo: eu tinha certeza de que ela ia pro jardim despejar risadas.
Santinha voltou ao pecado mais
feio:
- O certo é que a coisa foi
chegando de mansinho, fui saindo da lucidez e passando a aceitar presentes de
brincos, pulseirinhas, sapatos. Quando dei por mim, já era tarde. O pecado feio
já me dominara. Se o homem vivia me dando aquilo, e de bom grado eu recebia,
era porque, também de bom grado, aquilo ele queria. Mas eu protelava o retorno.
Aquilo encheu-me de remorso. Sou uma
vigarista de mão cheia, pensava. Entendam,
eu sentia alguma atração pelo doador,
mas gostava mesmo era do sujeito que nem atenção me dava.
Nisso, a Santinha deu uma fungada,
avermelhou os olhos, emborcou a latinha, soltou sonoro palavrão e pediu o
julgamento de minha amiga dileta:
- Não é verdade? Sou ou não sou?
A amiga esboçou apenas um risinho
de compreensão. Sentindo-se à vontade, a Santinha desfilou uma penca de novos pecados
e dessa vez a opinião pedida foi a minha.
- E você, o que me diz? Você é
escritor, um homem rodado, conhece o caminho das pedras.
- Sou zero em aconselhamento, Santinha.
Mas escuta só. Você não é católica, não vive na igreja? Pode muito bem pegar
umas dicas com um padre.
- Ah, conheço os padres, seu menino.
Sei o que vão falar. E quer saber? Faz tempo que não gosto de padre. Padres são
bons em imaginação, mas péssimos em visualização.
Fiquei voando. Qual seria a
diferença entre imaginar e visualizar? Desconversei:
- E então, Santinha? Desculpe a
intromissão, mas como acabou o remorso do pecado feio? Se é que acabou. Tenho
um palpite. Deu dupla doação ao doador: recompensa carnal pelos mimos e um pé
na bunda pelo remorso.
“Era o que eu pensava. Mas
aconteceu diferente”, disse ela, mirando o além, enchendo os olhos de lágrimas,
amassando a latinha de cerveja. É lógico que cuidei logo de apanhar outra.
- Aconteceu... Bem, primeiro o
noivo inocente. O carinha morava na minha rua, mas eu não sabia que ele era
assaltante da pesada. Resultado. Está preso. Chorei pra caramba, mas a prisão dele
me libertou.
Muito bem. Desiludida, pensei: Quer saber, tudo tem limite. Vou saber se aquilo é isso tudo mesmo. Vou recompensar o
presenteador. Conclusão. Marcamos um encontro na sacristia e...
“Como assim, sacristia? Não estou
entendendo”, surpreendeu-se a amiga dileta:
- Sacristia, mulher. Ele é padre.
Padre Cecílio. Você conhece, não?
- Hã!
- Então. Veja, o homem, ou melhor,
o padre, vivia estraçalhando as minhas partes, até a virginal batina o denunciava, mas... Bom, fiquei na sacristia, esperando ele. Para não perder tempo, esperei
peladona.
- Nossa,
amiga. Você estava...
- Naquelas
alturas, estava ficando mesmo.
“E
aí, e aí, ele chegou e foi”, falei, esfregando as mãos.
- E
aí que me escondi quando escutei os passos dele. Ele entrou, foi logo jogando a
batina num canto, arriando a vestimenta, vestindo-se de Adão. Nisso eu apareço. Porém,
do nada, ele pôs as mãos na frente, deu-me as costas e voltou pra porta. Aí,
mesmo percebendo que ele não estava a fim, e que o negócio dele era imaginar e
não visualizar, falei amorosamente:
- Pra
onde vai, amor?
-Vou ao
jardim pegar um tesourão e um ciscador.
A
reação da amiga dileta foi escancarar a boca e tapar os olhos com as mãos. A
minha foi verbal:
-
Mentira! Não brinca! Que padre mais sem noção.
- Não
tô dizendo?
-
Quer dizer que não rolou nada? Deixasse barato, foi?
- Não
rolou, mas não deixei barato não, seu menino. Falei na bucha:
-
Aproveita, traz uma alavanca e uma escora para plantinha pensa.
“Mas...
E depois? Isso faz muito tempo?”, quis saber a amiga dileta, a gargalhada
fazendo o distante bêbado roncador aboticar os olhos pra mesa da gente.
“Nem
queiram saber. Daqui a pouco eu conto o resto”, respondeu ela, deixando-nos
curiosos, porquanto a organização do arraiá nos chamava dum improvisado palco.
Explico: estava na hora do casamento matuto.
Eu ia fazer o delegado e a amiga
dileta ia fazer a juíza. Foi preciso dar um banho no bêbado roncador, pois ele
ia fazer o padre. O bêbado corrupto ia fazer o noivo.
A Santinha
ia fazer a noiva.
Revelador
e chuvoso junho de 16,
TC
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