A leitora Silvana enviou-me um
imeio dizendo que havia adorado o post Pedaços de Mim (o terceiro aqui embaixo) e perguntou
se eu seria capaz de mostrar outros pedacinhos. Taí, Silvana, especialmente pra
você.
PEDAÇOS DE MIM – PARTE DOIS
(Três inocentes
textinhos curtos)
A
AGONIADA
Cada dia com a sua
agonia, assim fala a voz das ruas. Mas é raro a moça ter agonia nova. Tem, sim,
uma permanente.
Agonia no coração,
mas agonia, embora seja agonia boa.
Ora acha que sim, ora
acha que não. Quanta indecisão.
E decidir é uma droga. Porque nada é
inconsequente e tudo terá o seu peso. Seja o que Deus quiser ou a prudência é o
que Deus quer? Razão ou emoção? Que pedaço dela vencerá? Dela, mas pode ser
dele, assim como pode ser seu. Calar ou falar? Talvez o último verbo, porquanto
a decisão corajosa está em ela pronunciar entre sete e oito palavras. Será que cinco
ou seis não resolveriam? E aquelas três famosas?
As palavras têm mais força que rachaduras
em usinas nucleares. Até porque rachaduras e imperfeições outras nascem de
palavras. Mal ditas, mal escritas, mal lidas, mas de palavras.
Palavras e tom de voz são os pais
da antipatia. Poucas pessoas sabem disso. Poucas sabem a hora de falar, raríssimas
gostam de escutar. Muitas não percebem o risco de pisar a mina atômica. Pisam e
saem espalhando animosidades, distribuindo desavenças.
Hoje a agonia da
moça está numa agonia só. Receio e confiança trocam bofetadas. Coração nervoso,
mãos trêmulas, falta de ar nos pulmões. Eis as testemunhas do combate.
Onde vai parar
isso? Protocolo podia muito bem só ser útil para eventos externos, nunca
para as coisas do coração. Não precisa banda de música para a amizade se
transformar em atração e o companheirismo em paixão. O protagonista poderia ser
o amor, nunca o temor.
Será que ele -
também pode ser ela – sabe que imaginação é diferente de visualização? Sabe ele
que imaginar é visualizar o ainda não visto e que visualizar é imaginar o já
visto? A moça sabia que ele sabia que ela vivia o imaginando. Mas ela não
queria apenas imaginá-lo. Queria visualizá-lo.
Será que ele não
vive me imaginando também?
Sem respostas, a jovem
rabiscou de lágrimas os olhos e ficou olhando pra cima. Confusão mental,
silêncio. Estarei fantasiando?
A moça sente frio,
uma dor espantosa, vê-se sorrindo sem causa. A esperança morreu?
Tomara que não,
pensou. Pedaços de soluços tilintando na cama, ela abraçou-se com o travesseiro
e dormiu.
Queria sonhar com pedaços
dele.
O
COZINHEIRO
Naquela noite, de ressaca, toscanejando na
encardida rede, sonhei que assava a minha namorada numa fornalha a lenha.
Ela adora a minha comida. Diz que o
tempero é inigualável e excitante. Espera horas a fio por uma picanha ao ponto,
uma quiche de linguiça, um espetinho de camarão ensopado no leitoso azeite de
dendê. Nem pensar em desapontá-la. Pavio curto, é capaz das piores loucuras
quando contrariada. A atenuante é que rapidamente se recompõe. Mas fica incomum
sequela carnal, cujo sintoma é a rouquidão ocasionada pelo alvoroço da libido.
Eu visto o avental, e ela fica acompanhado
meus tantos de quanto e quantos de tanto jogados nas panelas e afins. Entre uma
dedada no celular e um risinho sobre algum vídeo, ela libera perguntas e
afirmações acriançadas, tipo donde você veio, seu moço, e pode ficar certo de
que ainda o dilacero com a minha plaina afiada. Não dou bola para os devaneios,
pois, naquele momento, sou seu escravo. Mas quando cumpro a tarefa
culinária, ela passa a ser escrava de mim.
Amamos a rotina das sextas-feiras à
noite: ela lambe os beiços, solta o risinho gaguejado e ajoelha-se aos meus
pés. Vai além do agradecimento. É submissão pura.
Não diz nada. Nem precisa. É assim que ela antevê o sabor da minha arte e dá vida à imaginação gulosa.
Não diz nada. Nem precisa. É assim que ela antevê o sabor da minha arte e dá vida à imaginação gulosa.
O ápice do ritual acontece quando coloco
um pedaço de torta de limão em sua boca.
Só que (tenho um pé atrás com esse soque), naquela noite, vejo-a esperneando na fornalha. Quanto mais esperneava, mais lenha eu botava no forno. Queria que ela ficasse bem tostadinha. Pensava em comê-la à milanesa e chupar as cartilagens em que se transformariam os ossos. E assim fiz. Só achei um pouco enjoativos. Por isso acordei. Ela dormia profundamente.
Só que (tenho um pé atrás com esse soque), naquela noite, vejo-a esperneando na fornalha. Quanto mais esperneava, mais lenha eu botava no forno. Queria que ela ficasse bem tostadinha. Pensava em comê-la à milanesa e chupar as cartilagens em que se transformariam os ossos. E assim fiz. Só achei um pouco enjoativos. Por isso acordei. Ela dormia profundamente.
Encharcado de suor, fui chorando
pro banheiro. O coração estava todo despedaçado.
Soluçava quando escutei os gritos:
- Amor! Cadê você, amor? Você me
cobre de beijos e corre, é?
Não disse nada. Corri, caí na cama e
comecei a beijá-la.
Pedaços de mim e dela começaram a se
lambuzar.
A CHURRASQUEIRA
Homem é muito sem noção mesmo.
Sonhei assando você num forno a lenha. Tostadinha, comia você e depois chupava
os ossos. Assim falou o meu namorado, num restaurante, jantar à luz de velas. Fechei
a cara, porém não resisti à curiosidade e perguntei. E aí? Gostou? Adorei,
respondeu, despedaçando o romantismo. Mas logo o emburramento passou. Fomos
para o chalé eu mordiscando a sua orelha.
Estávamos em uma praia paraíso, num
chalé celestial. Na noite seguinte, optamos
por jantar no chalé. Até porque ele
estava a fim de assistir a um jogo do Fluminense. Ele ligava a tevê, eu ligava
para a recepção e pedia umas coisinhas:
- Pode deixar que preparo os comes.
Vou fazer uns assadinhos, tá?
- Hum! Assadinhos, é?
Dessa vez abri um sorrisão safado. Não
sou lá essas coisas em fogão, mas como ele não é lá essas coisas em exigência,
encarei a tarefa. Algo singelo, asinhas de frango, linguiça e queijo. Ficamos em
meio a almofadas, beliscando as aguarias e nos beliscando. Ele tomava uísque,
eu bebia vinho.
O jogo foi pra prorrogação, ele foi
pros braços do Morfeu. Roncava feito um porco. Eu o chamava, ele balbuciava
algo. Merda e droga, assim eu decifrava os ruídos.
Injuriada, fui à cozinha. A
primeira facada dei no coração e a espetada no meio dos colhões. Fiquei o esfaqueando,
espetando e repetindo: quer dizer que meus espetinhos são umas merdas, umas
drogas, é? Não sei de onde tirei tanta força para colocá-lo em cima da mesa,
pois nela era mais fácil desconjuntá-lo. Comecei cortando o pescoço. Pensava em
comer acebolados os miolos da cabeça, tal qual via meu tio preparar as cabeças
de bode lá no interior. E assim fiz. Só achei um pouco enjoativos. Por isso
acordei. Ele dormia profundamente.
Encharcada de suor, fui chorando
pro banheiro. O coração estava todo despedaçado.
Soluçava quando escutei o grito de
campeão. O Fluminense acabava de ganhar nos pênaltis e o homem da tevê acabava
de acordar o meu homem.
- O Fluminense foi campeão, amor.
Cadê você, amor? Venha aqui. Tem algum assadinho pra gente comemorar?
Não disse nada. Corri e me pendurei
em seu pescoço.
Pedaços de mim e dele começaram a se
lambuzar.
Julho/16
TC
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