AS ENTRELINHAS DE CERTO ESTUPRO NO SHOPPING
-
É norma da empresa, moço. Só recebemos dois exemplares. Sabe como é, autor
local...
E
emendou:
-
Ainda mais com esse título. Toinho, Seu Danado, você
há convir, não é um... Quer um conselho?
Saia de porta em porta com o seu Toinho...
A
chacota batia palmas para a dicção irônica da atendente. Não aguentei a
pressão. Peguei ar e soltei o jato de desaforo:
-
E porque a senhora não vai tomar...
Não
cheguei ao monossilabinho, porquanto o olhar da moça (e o meu) era de extremo fascínio
por uma jovem que acabava de se juntar a nós. E não apenas pela perfeição
corporal. Mas, sobretudo, pelo magnetismo pessoal, que, em minutos, fez grudar
em si a reverenciosa atenção de toda a livraria. Só o silêncio fazia algazarra.
Linda demais. Parecia de outro mundo. A jovem olhou pra mim, riu e fez meu ego dar
cambalhotas. Mas a atendente ficou paradona, olhar de terror, quando a Linda de
Mais, enciumada, imaginei, mirou nela.
Conheço
essa jovem, pensava, mas não me lembrava de onde. Quando abri a boca para o
“Oi”, ela tirou um papel da bolsa e me deu. Li: “Estarei na praça de
alimentação daqui a meia hora. Beijos”. Saiu sem falar. Mas o falatório ficou.
É lógico que fiquei ancho, apesar da humilhante recepção. Botei o livro debaixo
do sovaco e fui logo para a praça de alimentação. Pedi um chope e mandei os
olhos passearem.
Perceberam,
não? O inusitado aconteceu numa livraria de um shopping aqui em Natal. Apresentava
à moça um exemplar de meu livro, o Toinho, Seu Danado, e
pedia informações acerca de vendas em
consignação. Mas aí...
Ia
no quarto chope quando a bonitona chegou. Formal, pediu licença, sentou-se. Fiquei
cismado com a frieza. Daí a pouquinho ela esquentou-se, deu uma risada e falou:
-
Também quero chope, Tião.
-
Minha Nossa Senhora! Não acredito. É você mesmo, Cristina? Se não fala, eu não
a reconhecia.
-
Sou eu mesma. Em carne e osso, meu querido Tião. Estou decepcionada. Não me
reconheceu, homem? Como é que pode! Estava doida pra bater um papo com você,
Tião.
-
Nossa! Você está linda. Está bem mais linda do que quando a fiz. Está mais
franzina, cabelo curtinho, pele bem assentada. Só o olhar continua sapeca. Se
queria tanto falar comigo, devia ter ido lá em casa.
-
Você sabe que não posso, pois só me é permitido frequentar livrarias e
bibliotecas. Como nesta cidade não há bibliotecas, ficava perambulando pelas
livrarias, na esperança de encontrá-lo. Escuta só. Li nossa história no site Clube
de Autores. Tenho duas reclamações a fazer.
A
primeira é quando você me faz transar com o Toinho, na mesa da cozinha, e diz
que o papagaio, o Chicó, está embaixo da mesa. O pestinha brechava a gente,
Tião. Pior, o Chicó sai nos chamando de povinho seboso. Morri de vergonha ao
ler a verdade, Tião.
A segunda é mais uma sugestão. Devia
ter falado algo educativo a respeito de estupro. Literatura também serve pra reflexão.
Estupro de mulher e de homem, entende? Alguma coisa surreal, Tião. Aqui, por
exemplo, a gente tomando chope. Pode começar assim, ó! Você se levanta, dá um
murro na mesa, me chama de gostosa, dilata os olhos e grita: “Quero você agora, gostosa”.
&&&
- Só me lembro até essa parte, Dr.
Silvestre. Apaguei. Dei por mim aqui no hospital dos doidos.
- Pois é, Sr. Tião. O senhor estava
bebendo sozinho. De repente, dá um murro na mesa, levanta-se e grita. A senhora
da mesa de frente se assombra, dá um grito de “tarado, quer me estuprar” e coisas
tais. Resultado 1: meteram porradas no senhor. O senhor passou quinze dias no
hospital, variando, querendo que Cristina desse notícias de Kélvia. Resultado
2: os médicos disseram que o senhor é pirado e o mandaram pra cá. Faz três dias
que está sob os meus cuidados. Resultado 3: vou dar a sua alta. O senhor não é
doido não.
-
É claro que não, Dr. Silvestre. Sou fiscal da Receita e ficcionista nas horas
vagas.
-
Aí é que tá. O senhor, assim como todo ficcionista, tem parafusos a menos. E certos
personagens adoram pegar no pé desse povo, Sr. Tião. Falo por experiência
própria.
- Experiência própria... Entendi. Também
faltam parafusos no doutor, não é? A propósito, eu estava com um livro. O
senhor dá notícia dele?
- Dou. Mas deixe-me lhe dizer uma
coisinha. Escrever ficção não é pra todo mundo não, meu caro. A prosa ruim
deixa sequelas. Como os personagens não veem ninguém, revoltam-se e começam a
azucrinar o criador. Eles querem respirar. Ah, tenho parafusos a mais, e não a
menos. Por isso não tenho alucinações, entendeu?
- Entendi de novo, Dr. Silvestre. Bom,
mas meu livro. O doutor disse que dava notícias dele. Suponho que tenha dado
uma olhadela. O que achou?
-
Uma bosta.
Pode ir. Tá de alta.
Té mais
Como não há o “leia mais”, e para
fins estatísticos do blogue, sugiro que marque uma ou mais reações (LEGAL,
INTERESSANTE, ENGRAÇADO) aqui embaixo. Vou pedir que o Blogger adicione o “BOSTA”.
Leia, em cima, e ao lado, na
postagem em destaque, a sinopse de Toinho, seu Danado.
Junho/16
TC
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