segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Soltem-me, soltem-me, soltem-me

 

Educação, consciência, liberdade. Esses assuntos têm presença cativa em meus rabiscos ficcionais. Mas este rabisco não é ficcional, ainda que presente o filosófico trio ECL. Sobretudo a liberdade. A fim de esmiuçá-la, contudo, preciso que conheçam o novo costume deste aluado: ler comentários de redes sociais. Ler esses abençoados, nobríssimas, é decifrar o intelecto do brasileiro médio. Faça de conta que está assistindo a este vídeo do Instagram.

O pai pergunta como o filho se saiu no vestibular e quantas vagas tem o curso dele. “60 vagas. Mas 10% são para as cotas”, responde o filho. Qual foi a sua colocação, filho? “2148, pai”. Aqui o vídeo dá um close na irônica reação do pai:

“Cotas filhas da puta”.

Contei os comentários, nobríssimos: 51 esculachando o pai por ser contra cotas, 22 apoiando a política de cotas, 8 com KKKK. E apenas 4 exaltando a ironia do pai, posto os 10% das cotas não terem culpa alguma da colocação 2148 do filho.

Esmiucemos a liberdade? Então. Liberdade não é uma palavra. É o preceito transcendental da criação do mundo (sugiro a leitura abaixo, o Bião e o JC). Tudo de bem no universo é saboroso fruto da liberdade. E tudo de mal é podre fruto da transgressão da liberdade.

Tampem as ventas para esta frutinha podre no caçuá do Instagram.  Tem a ver com

a Mega-Sena e a Lotofácil, jogos administrados pela CEF.

A Mega-Sena sorteia 6 números entre 1 e 60. O acerto dos 6 rende uma grana que gente besta não conta. Já o acerto de 5 números faz muita gente rir à toa. A Lotofácil sorteia 15 números entre 1 e 25. Embora pague prêmios mais modestos, o acerto de 15 ou 14 números acarreta sérios desconfortos na contagem da grana. O sorteio desses jogos é feito digitalmente. Bolinhas numeradas ficam numa dança frenética dentro de um globo até que vão se escapulindo por um buraquinho e formando a sequência sortuda.

A lógica e o bom senso dizem que é o acaso que comanda os milionários sorteios, a estatística afirma que sortear números é um evento cem por cento aleatório e a matemática garante a impossibilidade de lei formadora dos números sorteados. Apesar desses axiomas, o Instagram vive cheio de vídeos mostrando ostentação advinda de pessoas que dizem usar estratégias e padrões para o prévio conhecimento dos números da sorte. Os cretinos mostram o embuste a fim de vender por tanto e em tantas parcelas o caminho da opulência. Assisto a esses vídeos e começo a soltar pqp a torto e a direito. Esse embuste não é simples propaganda enganosa ou mídias de arroubo. É roubo mesmo. É um dissílabo da picaretagem assediando curiosos monossílabos dos incautos.

Veja, minha nobre. O coach oferecer prosperidade e o pseudorreligioso vender salvação constituem ações impuníveis, visto você não dispor da irrefutável prova do possível embuste. Nesses jogos lotéricos, entretanto, A mais B prova ser impossível você receber o prometido pelo patife vendedor. O nome disso é roubo. O vendedor é ladrão. E você, nobríssima, é trouxa.

Você pode alegar, nobríssima, que não comprou o embusteiro pacote, daí não ser trouxa nem o vendedor ser ladrão. Você não foi trouxa, é certo, mas o vendedor é ladrão, sim. Planejar e executar algo sabidamente delituoso é delito continuado, é crime de nascença. Comprar é tão só o flagrante deles.

Você, nobríssima, mantém a tubulação cognitiva bem lubrificada pela educação. Viu evidências a quilômetros de distância e não comprou a enrolação. Mas muitos indivíduos vivem desprezando a lubrificadora educação e informando aos sacripantas a bandeira do cartão da compra. Tais indivíduos, minha nobre, vivem no insensato condicionamento do passado, não enxergam a sensata consciência do agora e acham que evidência é tão só uma rima de consciência.  

É a consciência, minha nobre, que atesta não existir o direito de mentir, explorar, perverter, roubar. Tais verbos são podres frutos da liberdade. Não podemos ficar passando pano na normalização de atitudes transgressoras da liberdade. Especialmente nas redes sociais. Mas o pano da indecência não falta no assoalho brasileiro, minha nobre. Grande parte da sociedade brasileira (não só da brasileira, sejamos justos) mete pauladas nos negacionistas da ciência, mas fica pelada para negacionistas da decência.

Sabe, meu nobre, escrevi essas coisas só para construir o contexto de comentário sobre sacana vídeo a que assisti no Instagram na tarde de hoje. Deu-se assim: entrei na internet para curtir a virada do líder Palmeiras em cima do São Paulo. Falar nisso, os flamenguistas que se cuidem. O Alecrim paulista não é flor que se cheire, viu, Anchieta?

Pois bem. Entro na internet, curto o futebol, passo a vista no telefonema entre o Lula e o Trump, acho de clicar no Instagram e dou de cara com lindíssima jovem mostrando como ficar milionário com apostas na Lotofácil. Diz ela que estagiou no departamento lotérico da CEF e viu que acertar os números sorteados não é uma questão de sorte. O caminho é estratégia, metodologia, disciplina, essas coisas. A bela ainda diz que a CEF a dispensou pelo fato de ela ter espalhado essas coisas. A linda fala, fala, fala e manda o sujeito pro golpe do botão “Saiba Mais”.

Aí, nobres, libero sequenciais PQP, comento o escárnio na linha contestatória das linhas deste arrazoado, digo que o Instagram devia bloquear tal publicação e vou tomar banho. Volto e vejo que a galera tem soltado cachorros pra cima de mim em forma de comentários.  

“O golpe tá aí, cai quem quer”. Havia 8 comentários assim, gente. Pensei: a Anvisa bem que podia proibir a venda de certas substâncias. Porque, gente, isso é discurso de pirado. O infeliz está numa esquina assaltando todo mundo que passa lá. Todo mundo sabe disso. Algumas pessoas cortam caminho, mas outras pagam pra sentir a pistola na cabeça. Pergunto-lhe, minha nobre: não seria mais prático suspender a liberdade do infeliz?

Agora, nobríssimas, 11 comentários me levaram a nova série de PQP. A essência dos 11 é esta:

“Mais um a favor da censura. Quer regulamentar as redes sociais. Mais um que passa o tempo fazendo o L”.

Matutei, gente: será que esse L é o L de louco? Então comecei a questionar a própria sanidade. Será que estou louco? Perguntei-me esmiuçando a liberdade na variante filosófica. Será que o indivíduo tem a liberdade de reagir com atitudes de gratidão a atitudes supressoras da própria liberdade? Será?

Matutei e decidi. Amanhã vou alugar um patinete e sair rua afora, peladão, com um cartaz nas costas escrito assim:

Leiam, libertem-se. Soletrem ao menos um PQP de desabafo.

 

No libertador outubro de 25,

TC

2 comentários:

Anchieta Cabral disse...

É isso, Tião, a tal "liberdade de expressão" tornou-se, com a ajuda das redes sociais, a expressão dos inexpressivos. Daí, por trás dos bits e bytes, aflora o lado animal, que outrora era contido pela convivência social "de carne e osso".

Damião dfs disse...

As redes sociais são ferramentas importantíssimas atualmente. Onde se postam todo tipo de assunto. E consequentimente os comentários vem sempre em seguida. A liberdade de expressão ou liberdade de opinião, nunca deve ser regulada ou censurada. Esxeto, as postagens consideradas como crimes: golpes de estelionatos, pedofilia etc.