Acontece na tarde de sábado, 11
do 10 deste 25.
Miraia e o Carlão bebem vinho assistindo
a um filme na TV. Miraia e Carlão são casados. Ele com ela e ela com ele, que
fique claro. São professores de português em colégios distintos. O WhatsApp do
Carlão bate palmas, Miraia lê a mensagem:
“Uma tal de Fifi”.
Carlão lê:
“Boa tarde, professor. Vc tá no
ap? Gostaria de tirar umas dúvidas sobre aquela redação. Posso ir aí”?
Carlão comenta com a Miraia:
Pedi que a turma treinasse para
o Enem com o tema “O desafio de valorizar o professor”. Aí essa sem noção quer
discutir a redação logo agora. Vou dizer que estou no shopping.
Que que tem, amoreco? Mostra que
é uma aluna interessada. É bonita?
É linda. Não posso negar.
Então ela tem curvas sinuosas, rosto
diagramado e atitudes fidalgas. Bonita de tudo e charmosa. Não é esse o seu conceito de mulher linda?
Sim. Mas isso não quer dizer
que...
Sei bem o que isso quer dizer,
amoreco. Me poupe. Ela mora aqui por perto?
De carro, uns cinco minutos.
Como você sabe? E como a Fifi
sabe que moramos aqui?
Já dei carona a ela, Miraia.
Mostrei-lhe o condomínio naquela noite.
Entendi. Deu carona a ela
naquela noite. E ela? Já lhe deu à noite também?
Ah, Miraia, você está de
brincadeira. Dê-me o celular. Vou dizer...
Agora é tarde. Acabo de dar o
número do apartamento. Precisamos valorizar o bom aluno, amoreco. Mas troque esse
calção cabeçudo e a regata vazando cheiro de macho. A Fifi é muito da
espertinha, viu?
Como assim, Miraia?
Oh, amoreco. O Enem
é no mês que vem. Essas dúvidas podiam ficar para segunda-feira. Mas a espertinha não percebe a inconveniência de procurar o professor gatão num sábado à tardinha. Ela está tão doida para se exibir que não aguentou esperar. A Fifi não é sem noção coisíssima alguma, amoreco.Está certíssima a Miraia. A moreninha
aluna, 19 anos, referência em sensualidade, no parecer da turma, vive dando em
cima do professor. O assédio fica tão pesado que o Carlão precisa falar sério:
ela é aluna dele, ele é religioso, casado e coisas tais.
Nada a ver essa xaropada
conservadora, Carlão. Quero você e pronto. Pensa que é santo só por que é
professor? As escolas estão cheias de professores e professoras gays,
corruptos, pedófilos. Está com medo da mulher, não é? Deixe de babaquice, meu
gostoso.
Você é louca, menina.
Mas o Carlão tem certeza de que
mais dias, menos dias, a Fifi o levará pra cama, já que impossível suportar
tamanha pressão de tão sensual mulher.
Carlão está trocando de roupa e escutando
o blábláblá feminino. Uma voz desconhecida chama-lhe a atenção. Miraia apresenta
a desconhecida ao Carlão:
Que mundo pequeno, amoreco. A
Gabi foi minha aluna, dois anos atrás.
“Pois é, professor. Fiquei com vergonha
de vir sozinha, então chamei a Gabi”, diz a espertinha Fifi.
A fim de ser fidedigno aos fatos, transfiro agora
a narração para o protagonista Carlão.
Bem. Desperta-me a curiosidade o jeito
como a Fifi e a Gabi estão vestidas: sainhas curtas, blusas decotadíssimas, sandálias
de dedo. A ruiva Gabi é tão bonita quanto a Fifi e parece ter a mesma faixa de idade
dela. A diferença é que a meiguice da Fifi aparenta ser mais atuante.
Eu e a Miraia, lado a lado,
ficamos frente a frente com as visitantes. Brindamos com vinho e começamos a
jogar conversa fora. As duas cruzam as pernas praticamente no mesmo segundo. Impossível
não notar a ausência das protetoras. Cruzam as pernas e começam a dedar o
celular. O que essas meninas querem aprontar, meu Deus do céu, perguntei-me. A Miraia
vai já rodar a baiana. Mas a Miraia mostra-se indiferente, ainda que o olhar
não se afaste das coxas das visitantes. Uso o celular para me dirigir à Miraia:
Tá vendo o que tô vendo? Tá tão calma?
É claro que sim. Nada em cima, nada em
baixo. Nadam em promiscuidade com as rosadas castanhas. Calma por fora. Tô
fervendo, amoreco. Tô bolando um plano.
Diga.
Mato a Gabi, você mata a Fifi,
amoreco.
Bom, o ambiente fica engraçado, já que em
longos minutos apenas os dedos do celular conversam. Só escutamos o zunidinho
de mensagens chegando. Eu com a Miraia, é certo, e a Fifi com a Gabi, suponho. Até
que a Miraia me orienta:
Puxe o Enem e deixe o resto comigo.
Não perco tempo:
E aí, Fifi, preparada para a redação?
Nisso, a Miraia informa
que vai fazer um suco pra gente. A Gabi prontifica-se a ajudá-la. A Fifi
levanta-se, amassa os peitos em mim e mostra o celular.
Comecei assim, meu professor. Leia:
Li. A redação não dizia nada com
nada.
Não gostei, Fifi, desculpe. Meloso ao
extremo. Deve se prender ao tema proposto: o desafio de valorizar o professor. Precisa
contextualizar o professor com as redes sociais, IA, essas coisas. Enfim, como deve ser o professor do futuro,
Fifi?
“Sei
lá! Nem quero saber. Meu desafio é valorizar o professor do presente. O de
carne e osso”, brinca a sapeca, acocorando-se, beijando-me na coxa.
Fifi, menina danada, você quer por que quer acabar meu casamento, não é?
Escute...
Não termino a frase, pois da cozinha chegam barulhos de louça se quebrando,
seguidos de sons semelhantes à gemidos. Quando me levanto pra correr, a Fifi me
segura pelo braço:
Meu Deus! Vá lá não, amor. Espere um pouquinho.
Estou com medo, Carlão.
Fico inculcado, já que a Fifi
fala sorrindo. É claro que vou. Fomos, aliás.
Não acredito no que vejo. Não eram
sons semelhantes à gemidos. Eram gemidos oficiais. De êxtase, de entrega, de
recebimento. Cacos de copos no chão, vestes se ensopando no piso, a Miraia deitada
na mesa, a Gabi derreando-se na Miraia, as duas ignorando a nossa presença.
Fico sem chão. Quando dou por
mim, estou fechando a torneira da pia com a Fifi nos braços. Nem ligo para o “cuidado
pra não escorregar, amor” da Fifi. Mas me ligo com o “onde fica seu quarto?”. O
menos dias acaba de chegar. A espirituosa Fifi ainda acha tempo para rascunhar
um aviso com batom e fixá-lo na porta do quarto:
NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR.
Quem
é a Gabi, Fifi?
É claro que faço a pergunta
decorridos incontáveis minutos da fixação do aviso.
Reconciliação, amor. A Gabi é
minha prima. Foi aluna e namorado da Miraia no colégio Khalil Gibran. Acontece que
a Gabi não aguentou o ciúme da Miraia e brigaram feio. Falei pra Gabi da minha
paixão por você e acabamos bolando os detalhes para o encontro de hoje. Deu certo,
não deu? Eu queria provar que quando se diz que não quer não implica dizer que
não vai querer.
Você é uma belíssima feiticeira
da sedução, Fifi.
E professora de sexo, não? Vamos sair, amor? Quero só ver a cara de sua
mulher.
Saímos. Abaixo do aviso “NÃO PERTURBEM.
VALORIZANDO O PROFESSOR”, alguém acrescentara: PROFESSORES VALORIZADOS, ALUNAS
SATISFEITAS.
A
valorização do professor só virá quando a sociedade imprimir na testa da classe
política o ferro IDIOTA. E acrescentar: não veem, idiotas, que a EDUCAÇÃO
é o primeiríssimo bem dos humanos? Não veem que é a EDUCAÇÃO quem liberta? Até quando
vão deixar escravizada parcela de seus governados?
Agora
lhes pergunto, nobres e nobríssimas. O que fazer se expressiva parte da
sociedade não tem a mínima percepção de que vive escravizada? Como forjar aquele
ferro? Será que a solução é o “Não perturbem?”
Valorizadíssimo 15 de outubro de 25
TC
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