terça-feira, 14 de outubro de 2025

Ufa! A valorização do professor

 

Acontece na tarde de sábado, 11 do 10 deste 25.

Miraia e o Carlão bebem vinho assistindo a um filme na TV. Miraia e Carlão são casados. Ele com ela e ela com ele, que fique claro. São professores de português em colégios distintos. O WhatsApp do Carlão bate palmas, Miraia lê a mensagem:

“Uma tal de Fifi”.

Carlão lê:

“Boa tarde, professor. Vc tá no ap? Gostaria de tirar umas dúvidas sobre aquela redação. Posso ir aí”?

Carlão comenta com a Miraia:

Pedi que a turma treinasse para o Enem com o tema “O desafio de valorizar o professor”. Aí essa sem noção quer discutir a redação logo agora. Vou dizer que estou no shopping.

Que que tem, amoreco? Mostra que é uma aluna interessada. É bonita?

É linda. Não posso negar.

Então ela tem curvas sinuosas, rosto diagramado e atitudes fidalgas. Bonita de tudo e charmosa.  Não é esse o seu conceito de mulher linda?

Sim. Mas isso não quer dizer que...

Sei bem o que isso quer dizer, amoreco. Me poupe. Ela mora aqui por perto?

De carro, uns cinco minutos.

Como você sabe? E como a Fifi sabe que moramos aqui?

Já dei carona a ela, Miraia. Mostrei-lhe o condomínio naquela noite.

Entendi. Deu carona a ela naquela noite. E ela? Já lhe deu à noite também?

Ah, Miraia, você está de brincadeira. Dê-me o celular. Vou dizer...

Agora é tarde. Acabo de dar o número do apartamento. Precisamos valorizar o bom aluno, amoreco. Mas troque esse calção cabeçudo e a regata vazando cheiro de macho. A Fifi é muito da espertinha, viu?

Como assim, Miraia?

Oh, amoreco. O Enem

é no mês que vem. Essas dúvidas podiam ficar para segunda-feira. Mas a espertinha não percebe a inconveniência de procurar o professor gatão num sábado à tardinha. Ela está tão doida para se exibir que não aguentou esperar. A Fifi não é sem noção coisíssima alguma, amoreco.

Está certíssima a Miraia. A moreninha aluna, 19 anos, referência em sensualidade, no parecer da turma, vive dando em cima do professor. O assédio fica tão pesado que o Carlão precisa falar sério: ela é aluna dele, ele é religioso, casado e coisas tais.

Nada a ver essa xaropada conservadora, Carlão. Quero você e pronto. Pensa que é santo só por que é professor? As escolas estão cheias de professores e professoras gays, corruptos, pedófilos. Está com medo da mulher, não é? Deixe de babaquice, meu gostoso.

Você é louca, menina.

Mas o Carlão tem certeza de que mais dias, menos dias, a Fifi o levará pra cama, já que impossível suportar tamanha pressão de tão sensual mulher.

            Carlão está trocando de roupa e escutando o blábláblá feminino. Uma voz desconhecida chama-lhe a atenção. Miraia apresenta a desconhecida ao Carlão:

Que mundo pequeno, amoreco. A Gabi foi minha aluna, dois anos atrás.

            “Pois é, professor. Fiquei com vergonha de vir sozinha, então chamei a Gabi”, diz a espertinha Fifi.

            A fim de ser fidedigno aos fatos, transfiro agora a narração para o protagonista Carlão.

            Bem. Desperta-me a curiosidade o jeito como a Fifi e a Gabi estão vestidas: sainhas curtas, blusas decotadíssimas, sandálias de dedo. A ruiva Gabi é tão bonita quanto a Fifi e parece ter a mesma faixa de idade dela. A diferença é que a meiguice da Fifi aparenta ser mais atuante.

Eu e a Miraia, lado a lado, ficamos frente a frente com as visitantes. Brindamos com vinho e começamos a jogar conversa fora. As duas cruzam as pernas praticamente no mesmo segundo. Impossível não notar a ausência das protetoras. Cruzam as pernas e começam a dedar o celular. O que essas meninas querem aprontar, meu Deus do céu, perguntei-me. A Miraia vai já rodar a baiana. Mas a Miraia mostra-se indiferente, ainda que o olhar não se afaste das coxas das visitantes. Uso o celular para me dirigir à Miraia:

            Tá vendo o que tô vendo? Tá tão calma?

            É claro que sim. Nada em cima, nada em baixo. Nadam em promiscuidade com as rosadas castanhas. Calma por fora. Tô fervendo, amoreco. Tô bolando um plano.

            Diga.

Mato a Gabi, você mata a Fifi, amoreco.

            Bom, o ambiente fica engraçado, já que em longos minutos apenas os dedos do celular conversam. Só escutamos o zunidinho de mensagens chegando. Eu com a Miraia, é certo, e a Fifi com a Gabi, suponho. Até que a Miraia me orienta:

            Puxe o Enem e deixe o resto comigo.

            Não perco tempo:

            E aí, Fifi, preparada para a redação?

            Nisso, a Miraia informa que vai fazer um suco pra gente. A Gabi prontifica-se a ajudá-la. A Fifi levanta-se, amassa os peitos em mim e mostra o celular.

Comecei assim, meu professor. Leia:

Li. A redação não dizia nada com nada.

            Não gostei, Fifi, desculpe. Meloso ao extremo. Deve se prender ao tema proposto: o desafio de valorizar o professor. Precisa contextualizar o professor com as redes sociais, IA, essas coisas.  Enfim, como deve ser o professor do futuro, Fifi?

            “Sei lá! Nem quero saber. Meu desafio é valorizar o professor do presente. O de carne e osso”, brinca a sapeca, acocorando-se, beijando-me na coxa.

            Fifi, menina danada, você quer por que quer acabar meu casamento, não é? Escute...

            Não termino a frase, pois da cozinha chegam barulhos de louça se quebrando, seguidos de sons semelhantes à gemidos. Quando me levanto pra correr, a Fifi me segura pelo braço:

            Meu Deus! Vá lá não, amor. Espere um pouquinho. Estou com medo, Carlão.

            Fico inculcado, já que a Fifi fala sorrindo. É claro que vou. Fomos, aliás.

Não acredito no que vejo. Não eram sons semelhantes à gemidos. Eram gemidos oficiais. De êxtase, de entrega, de recebimento. Cacos de copos no chão, vestes se ensopando no piso, a Miraia deitada na mesa, a Gabi derreando-se na Miraia, as duas ignorando a nossa presença.

Fico sem chão. Quando dou por mim, estou fechando a torneira da pia com a Fifi nos braços. Nem ligo para o “cuidado pra não escorregar, amor” da Fifi. Mas me ligo com o “onde fica seu quarto?”. O menos dias acaba de chegar. A espirituosa Fifi ainda acha tempo para rascunhar um aviso com batom e fixá-lo na porta do quarto:

            NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR.

            Quem é a Gabi, Fifi?

É claro que faço a pergunta decorridos incontáveis minutos da fixação do aviso.

Reconciliação, amor. A Gabi é minha prima. Foi aluna e namorado da Miraia no colégio Khalil Gibran. Acontece que a Gabi não aguentou o ciúme da Miraia e brigaram feio. Falei pra Gabi da minha paixão por você e acabamos bolando os detalhes para o encontro de hoje. Deu certo, não deu? Eu queria provar que quando se diz que não quer não implica dizer que não vai querer.

Você é uma belíssima feiticeira da sedução, Fifi.

E professora de sexo, não?  Vamos sair, amor? Quero só ver a cara de sua mulher.

            Saímos. Abaixo do aviso “NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR”, alguém acrescentara: PROFESSORES VALORIZADOS, ALUNAS SATISFEITAS.

           

            A valorização do professor só virá quando a sociedade imprimir na testa da classe política o ferro IDIOTA. E acrescentar: não veem, idiotas, que a EDUCAÇÃO é o primeiríssimo bem dos humanos? Não veem que é a EDUCAÇÃO quem liberta? Até quando vão deixar escravizada parcela de seus governados?

            Agora lhes pergunto, nobres e nobríssimas. O que fazer se expressiva parte da sociedade não tem a mínima percepção de que vive escravizada? Como forjar aquele ferro? Será que a solução é o “Não perturbem?”

 

            Valorizadíssimo 15 de outubro de 25

            TC

 

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