Natal, Brasil,
quinta-feira, doze de agosto.
Quase meia-noite, Josélia assiste a um
documentário pela TV. Jorgel, o marido, lê Machado de Assis. Joana e Jonas, gêmeos
de treze anos, lancham na cozinha. O casal dá aquela cochilada. Josélia acorda.
E acorda o marido, pois não consegue ler a legenda do documentário. Jorgel
também não:
Não tenho a mínima ideia dessa língua. Escutei
barulhos na cozinha, Jó, diz Jorgel, levantando-se da cama e indo chamar um dos
filhos. Vem os dois:
“A liberdade não é...”, lê a Joaninha.
“Nada de garrancho na tela, mãe. Puro português.
Foi tão forte a coisa que mexeu com o juízo de vocês? Misericórdia”, brinca a filha
sapeca.
Leia aqui, pai, pede a sapeca, pegando o
Alienista na cama. Jorgel não lê. Josélia também não.
O que fazer? Lavar o rosto, respirar
fundo, tomar um café forte, essas coisas? Essas coisas - e outras - são feitas,
mas: mas o casal só enxerga garranchos ao sair olhando os escritos da casa.
A ficha da família jota começa a cair pingando
lágrimas.
Jonas pede que Josélia ligue pra mãe. “A
vó pode conhecer algum chá, mãe”. Josélia não tem o número da mãe memorizado. Precisa
da agenda do celular. Jonas faz a ligação. Dona Judite está dormindo. Acorda. Acorda e acorda o “quem era” do marido.
Dona Judite e Seu João acabam de se tornar analfabetos acidentais. Vão se
juntar aos analfabetos originais.
Ressalvados os contextos culturais e geográficos,
Dona Judite e Seu João ilustram bem como grande parte da população mundial fica
analfabeta durante a passagem daquela quinta-feira para a sexta-feira. A pequena
parte da população - a dos ainda alfabetizados - é composta pela molecada de
até quinze anos e pelos indivíduos que por circunstâncias diversas ficam
acordados da quinta pra sexta-feira. Esses, porém, haverão de dormir em algum
momento. Mas acordarão na grande parte. A molecada, contudo, acorda “de boa”. Zero
de analfabetismo, dez de surpresa.
É óbvio que a população não perde a prática do fazer. Mas é igualmente óbvio
que é o escrever e o ler que faz o fazer. Não dá para sair abastecendo o mercadinho só pela cor de embalagens, assim como não dá para sair comprando só pela cor delas. Não dá para validar embarques no avião só pelo número da passagem, assim como não dá para pilotar avião só pelos números no painel. Um orientador para cada executor? Inviável. São pouquíssimos moleques alfabetizados para muitíssimos executores iletrados.Daí que aeroportos param, supermercados fecham,
hospitais não atendem, metrôs ficam nas estações, bancos cerram as portas.
Pesadelo, algo exclusivo do dormir, agora
é privativo do acordar. Orientar a meninada, função do adulto, agora é cumprir
ordens dessa meninada. O adulto permanece juiz do jogo, mas quem está no VAR é
o adolescente.
É a roda grande passando numa boa por
dentro da pequena. E a pequena travando ao passar por dentro da grande.
O mundo trava na sexta-feira treze de
agosto.
Ninguém sai de casa. Fazer o que na rua?
Melhor ficar em casa compartilhando lamúrias com parentes e vizinhos. E escutando
áudios de gente mais distante. Áudios só possíveis pela intervenção da galera
jovem, é claro. Não faltam leituras da situação:
“O mundo não aprendeu nada com a
pandemia. Pelo contrário. Ficou mais estúpido e egoísta. As pessoas ficam trocando
a essência do amor pela excrecência do rancor. Então Deus mandou o analfabetismo
para dar um puxão de orelha no povo”, essa é uma das leituras recorrentes. Em contraponto
à leitura divina, é frequente o ponto de vista de que a tragédia decorreu de
uma poeira cósmica que contaminou neurônios cognitivos no despertar dos
humanos. Mas tal leitura não explica o livramento da molecada. Praticamente unânime,
porém, é a crença de que mais dias, menos dias, o mundo acordará alfabetizado,
já que o analfabetismo acordou no dormir. Será?
Será que o pesadelo não vai tomar a direção
do “mais dias”? Será que os sobreviventes dos distúrbios mentais adquiridos no
pesadelo não vão tomar a direção das florestas e disputar a sobrevivência com os
habitantes dela? Será?
E assim, forçando o dormir na expectativa
do acordar no “menos dias”, a população vê passar a sexta-feira.
Ah, e os governantes? Os governantes trocam
telefonemas sobre geopolítica e economia. Imaginam que o “menos dias” será
realmente menos dias. Adiam a verdade, na verdade. São omissos, outra verdade.
Mas não é omissa a garotada que viabiliza
a comunicação dos governantes. Encerrada a conversa deles, essa turma continua
dialogando e se incorporando a outros grupos.
No sábado, centenas de grupos já estão
formados no mundo inteiro. Ocorre que os diálogos são dispersos, na base de
conjecturas e tais. A objetividade só vai aparecer em um grupo administrado por
um moleque israelense. Esse moleque junta uma americana, um iraniano, um russo,
uma canadense, uma brasileira, um alemão, uma colombiana, um australiano e convoca
uma teleconferência para as cinco horas da manhã do domingo. Hora de Jerusalém,
entendam. Permitam-me uma tradução livre do inglês para o português:
“Fala, irmãos. Escolhi vocês porque noto
que são cabeças. Vou propor... Propor é a maneira de falar, irmãos. É urgente fazermos
o seguinte. Ah, antes, não quero que nos tratemos pelo nome. Vamos nos chamar
de irmãos. Irmão russo, irmã canadense, irmão iraniano. De boa?
Olha só, irmã brasileira. Teve um
educador de seu país que criou um método de alfabetizar adultos em 40 horas. Sintetize
essa metodologia e me envie. Daqui eu dissemino pro mundo, tá legal? Agora,
irmãos, quero que convoquem voluntários para ficar revezando plantão em dois setores
específicos. Precisamos de irmãos para assessorar o corpo técnico das hidrelétricas.
Não pode faltar energia. O segundo setor é o das plataformas da internet. A internet
não pode cair, irmãos. Outra coisa. É preciso limitar o tempo de áudios. Do contrário,
essa comunicação vai colapsar. 2 minutos de áudios por dia para cada pessoa, tá
legal? Mas psicanalistas, psicólogos e psiquiatras podem fazer áudios à vontade.
Não vamos deixar ninguém na mão. A gente
se vê mais tarde. É isso”.
E assim foi feito.
Show de competência e de empatia da
molecada.
O domingo corre dentro do novo normal. Mas
na segunda-feira... Ninguém suporta passar privações alimentícias vendo um
prédio cheio de comidas a poucos metros de casa, né, gente?
Então. Sexta-feira, 20 de agosto. O
pesadelo já dura uma semana. E eis que...
E eis que o pesadelo pega o beco.
Não. Não. O pesadelo não vai embora no
acordar de ninguém. No acordar, não. Mas
vai. Ou começa a ir.
Incrível essa transição, gente.
Só que o texto está ficando longo. “Bem
isso”, parece que tô escutando alguém falar.
Então tá. Vou contar o resto da história
no próximo texto, tá legal?
Na sexta-feira, terceira semana de
agosto,
TC
2 comentários:
Oi, amei o texto, foi um texto profundo e reflexivo no entanto, a minha avó dizia que um dia a roda grande iria caber na pequena, e é isso que vejo hoje, cada vez vez interagimos mais e lemos menos. A tecnologia chegou metendo o pé na porta e chegando pra ficar. Me sinto uma analfabeta funcional as vezes, mas estou digitando este comentário com aquela porcaria tecnológica nas mãos, aquela que sua mãe está na sala e você no quarto manda um áudio dizendo, mãe estou com fome. Anônima k
E eu me considero um pouco atrasado na evolução da tecnologia. Uso muito a digitação para me comunicar. Mas gosto de escrever com lápis e papel para não perder de vês a minha caligrafia. Para se ter uma idéia, a minha agenda é de papel.
E atualizo-a diariamente.
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