Senhoras
e senhores, eu sou o lixo
Que
vem da cabeça, que vem dos olhos
Que
vem do visto e dos entrefolhos
Que
vem da hortaliça e dos sabões
Que
vem da piça e dos pilões
Que
vem das damas e do que está vago
Pois
vem da região das mamas e por onde cago.
Senhoras
e senhores, aqui está o lixo
Que
veio do fingir e do prometer
Que
veio do encobrir e do esconder
Que
veio do dissimulado e do esperto
Que
veio do guardado e do secreto
Que
veio do eleito e do que está fixo
Pois
veio da região dos peitos e por onde mijo.
Senhoras
e senhores, aqui estará o lixo
Que
virá do fodido e do fodão
Que virá
da favela e da mansãoQue
virá do canhoto e do destro
Que
virá do regido e do maestro
Que
virá da prática do combinado
Pois
não dependerá do sucesso esperado.
Senhoras
e senhores, aqui está o lixo
Que
vê a vida como sina
Que
sente falta do adeus
Que
condena o desatino
Que espera ao menos um nas mãos de Deus
Que
custa um tchauzinho
Que
custa um até mais
Que
custa um carinho
Que
custa um vá em paz
Quanto custa um amém
Quanto ganham com o desdém
Quanto
custa um apreço
Quanto
ganham com o desapreço
Quanto
ganham com o haver de ser vil
Quer
saber? Vão pra puta que pariu.
Viu?
Escrevi
esse poema no ano passado e publiquei no Público, um jornal de
Lisboa. Pra minha surpresa, um tal de Bocage parafraseou o poema e lhe deu o
título de “A Água”. Vejam uma estrofe:
“Meus
senhores, aqui está a água
Que
lava os olhos e os grelinhos
Que
lava a cona e os paninhos
Que
lava o sangue das grandes lutas
Que
lava sérias e lava putas
Que
apaga o lume e o borralho
Que
lava as gueiras ao caralho”.
Safadinho
o tal do Bocage, não?
No
5 do 25,
TC
3 comentários:
TC, por onde você enveredar acerta, Bocage que o diga. Valeu!
Verdade. "A água que lava os olhos e os grelinhos" kkkkkkk
Gostei também deste trecho: " Senhoras e senhores, aqui estará o lixo. Que virá do fodido e do fodao. Que virá da favela e da mansão ".
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