Apresentam a Dra. Angelicitina
como a revolucionária pensadora do século 21. “Festejada no mundo inteiro”, acrescenta
o panfleto. Vale a pena conhecer certas informações sobre a conferência.
Título: “TORNE-SE PLENO EM
20 MINUTOS”. Local: Centro de Convenções de Natal-RN, em 10/11/2025, às
dez horas. Inscrição: 20 mil reais. Vagas: 71. Público: apenas políticos e
empresários masculinos. O inscrito precisa aguardar 72 horas para saber se a
inscrição foi aceita. A conferência será mostrada ao vivo por todas as plataformas
digitais.
E eis que às 10 horas em ponto a
Dra. Angelicitina chega ao auditório. Relevem os clichês a seguir, pessoal. É
que preciso ser fiel à beleza estonteante e às curvas sinuosas da conferencista.
A conferencista é loura, tem cerca de 30 anos, transporta excesso de beleza e é
expositora de luxúria: está usando apenas calcinha e sutiã. Ajustadinhos ao
corpo, os vermelhinhos obstáculos parecem artes de um Picasso libidinoso. Dá
pra ouvir o sacolejar de água na boca da velharia e de se enojar com babas
manchando paletós.. Dra. Angelicitina é tremenda provocadora:
“Bom dia, vermes criaturas e criaturas vermes. Vermes distintos, mas com algo em comum: a idiotice. Devo uma informação, aliás, aos 227 idiotas que não foram selecionados. O nível de torpeza dos senhores é ótimo, mas preferi selecionar aqueles com grau de repugnância maior. Então. Como autênticos idiotas, estão pagando mil reais por minuto para assistir a uma conferência que promete tornar os senhores plenos. Mas plenos de quê? Conferência, lembrem-se, que está sendo transmitida por todas as plataformas digitais. Desperdício de dinheiro e esbanjamento de vaidade, não? De mais a mais, simples clique no Google teria lhes informado
que não existe a pensadora Dra. Angelicitina. Isso não quer dizer que eu não seja aclamada no mundo inteiro. Quer dizer, apenas, que me utilizei desse nome horroroso para confirmar a idiotice dos vermes brasileiros. Neste momento, senhores, a minha equipe está transferindo para as suas contas os 20 mil reais da inscrição. Agora aplicarei um teste. Dado o dia a dia dos senhores, imagino que terão as respostas na ponta da língua”.A conferencista caminha para um
cavalete de cartolina. É lógico que a sensual caminhada causa agitação no
auditório. Visível e invisível, também lógico. Não tão lógico, na verdade. Nunca
se sabe em quem está agasalhada aquela rejeição, não é certo? Certo é que foge da
lógica como 71 poderosos acostumados a injetar sangue nos olhos, alterar a voz
e a botar dedo em riste escutam com tamanha passividade a acusação da
conferencista. Explicação plausível é a perspicácia dela: entonação vocal afável,
sorrisinho de inocência, postura corporal de apego. Completo contexto de
candura, enfim. Dra. Angelicitina chega ao cavalete e escreve na cartolina:
1) Importância atribuída a algo;
2) Vantagem que se obtém de qualquer coisa;
3) Utilização de recursos visando ao bem-estar
coletivo;
4) Independência legítima para fazer algo
“Existe uma palavra, senhores,
que define com precisão cada enunciado desses. Pode falar pra turma, senador de
bigodinho? Pode socorrer o senador, ministro barbudinho? Qual verme levanta a
mão primeiro? Ninguém? Pelo visto, a imaginação dos senhores capotou nas minhas
curvas. Especulemos as obviedades, então.
1 é interesse. Nada acontece na
ausência do interesse. 2 é lucro. O interesse só se manifesta ante a
expectativa do lucro. 3 é economia. É na economia que acontece o encontro do interesse
com o lucro empresarial – o mais famoso dos lucros - a fim de proporcionar o
bem-estar coletivo. 4 é liberdade. É a liberdade quem regula as ações do
interesse, lucro e economia. E é aqui, na liberdade, que entram os senhores
vermes.
Verme criatura é o empresário
que vive esfolando as normas tributárias, pisoteando as regras trabalhistas e
explorando a mão-de-obra. Tudo na busca pelo lucro máximo. Temos 53 desses
vermes aqui e 81% fora da sala. Os senhores não têm a liberdade de obter lucro dessa
forma. A liberdade dos senhores é ilegítima. Parte desse lucro é da sociedade e
dos empregados dos senhores. E antes que me vejam esquerdista ou comunista,
devo lhes informar que sou capitalista de nascença. É a busca pelo lucro que faz
a pesquisa, o arrojo e a determinação suprirem os humanos de racionalidade e comodidade.
Vejo a surpresa na face dos
senhores. Viam-me uma pensadora socialista, por certo. Entendam: o sistema
socialista raiz se pauta pela igualdade econômica e social. Isso é ótimo.
Agora, essa igualdade só vai existir se existir a coisa a ser repartida. E quem
cria tal coisa é o lucro do sistema capitalista. Mas esse lucro precisa se
originar da justeza e da liberdade legítima. Justamente o que os vermes criaturas
detestam.
Vejamos o criatura verme.
Criatura verme é o político com
poder de mando que faz de conta que não vê os desmandos do empresário verme
criatura. Muitos não só não veem: criam políticas alimentadoras de tais
desmandos. Temos 22 desses vermes aqui e 95 % fora da sala. O que me entristece,
senhores, é ouvir pessoas orgulhosas do intelecto ficarem dizendo que o sistema
capitalista é sanguinário, explorador da mão-de-obra, cruel, coisas assim. Não,
intelectuais. Quem explora, fazem coisas assim e dão o amém para as coisas assim
são pessoas de carne e osso. Pessoas, não custa lembrar, que usam a desonesta
liberdade de lucrar para tirar a liberdade alheia de desfrutar. E sem essa liberdade
alheia não haverá, por óbvio, a justiça social, meta primária da economia.
Falei pro senhores, ainda que
indiretamente, que 19% do empresariado brasileiro não são vermes criaturas. E
que 5% dos políticos não são criaturas vermes. Por que não, se sujeitos às
mesmas regras e contextos dos senhores?
Senhores, vim ao mundo com a
missão de indicar aos humanos o caminho que os tornará plenos de consciência.
Optei por começá-la no Brasil. Amo o Brasil, senhores. Sobretudo os brasileiros.
Agora lhes faço provocadora pergunta. Quem dos senhores teve uma ideia genuína nos
últimos 20 anos, digamos assim? Ninguém, não é? Por que não? Porque os senhores
vivem das mofadas ideias de defuntos. Ideias geradas a partir de contextos sem
correspondência com a realidade de hoje. Ideias que ficam se escapulindo do inconsciente
para produzir atitudes do dia a dia. Os senhores se alimentam do
condicionamento.
Permitam-se revisar esses
condicionamentos, senhores. Conservem os de bom-dia, fulano, e abandonem os de
interromper sicrano. Revisem-nos e logo descobrirão que conceito não é a coisa;
que nada tem importância, exceto aquilo a que importância você dá; que
pensamento é uma criatura viva; que passado é referência; que futuro é expectativa;
que a vida é agora. Daí que ninguém pode ser infeliz no passado ou feliz no
futuro. Por não entenderem essas coisas é que se tornaram egoístas, senhores. Julgam
que lhes passaram a perna no passado e esperam que lhes deem a mão no futuro.
Enganam-se. Nunca serão felizes. Egoístas que são, nada dão ao mundo em termos
de felicidade. Então felicidade não recebem. Exibir-se num iate e dirigir uma Ferrari
não é felicidade. É ostentação. Dar pra receber não é jogo de palavras. É lei cósmica.
É truísmo. Basta ver que se recebeu é porque alguém deu.
Permitam-se caminhar da
inconsciência do egoísmo para a plenitude da consciência. Permitam-se voltar
para essência da vida. Permitam-se voltar para a casa do Pai.
O pensador Yeshua – mais
conhecido por Jesus – falava do filho pródigo que volta para a casa do Pai. O
filho pródigo não foi um boêmio que saiu mundo a fora estourando a grana e
voltou com a mão na frente outra atrás pra casa do pai. Filho pródigo é o
humano que sai das limitadoras crenças dos condicionamentos para a infinita liberdade
da consciência. Consciência é a casa do Pai do filho pródigo. Nessa casa não
existe medo, angústia, ansiedade.
Consciência é o Deus de cada um
dos senhores.
Não tenham receio de ir pra casa
do Pai, senhores. Os senhores continuarão podres de rico lá. Apenas deixarão de
ser ricos podres. Mas, cuidado. Lembrem-se de que pensamentos são criaturas
vivas acomodadas na mente. Daí que muitas criaturas dirão que mudança é uma
coisa doída, que não devem largar o certo pelo duvidoso, que a viagem é uma
furada, que a consciência pode puni-los pelo passado. Mas a consciência ou Deus
ou o Pai não é julgador. Não é. Não é. Não é...
Aqui, pessoal, a conferencista
começa a se repetir, a gaguejar, como se entalada, sufocada. Parece distante.
Volta outra. Irritada, transtornada. Grita:
“Não encontro a palavra certa para
definir quatro dos senhores. O problema é que além de vermes são líderes
religiosos. Como encaixá-los na putrefação? O grande mérito dos senhores foi
terem feito os fanáticos seguidores ficarem com medo do Pai. Cobram dinheiro a
fim de que os seguidores se livrem do inferno. Como se o Pai fosse antagônico:
uma parte amor incondicional, outra parte opressor oficial. Como se um pai
terreno ficasse cobrando do filho o amor e a liberdade que fica lhe dando ao
longo da vida. Misericórdia. Não há que se falar em crença ou em fé aqui. Aqui
só há fedor. Os senhores fazem da religião uma loja de conveniência, da bíblia
o crachá de identificação e da palavra a pregação da pouca vergonha. São desprezíveis
mercadores da fé.
Ah, acabo de encontrar o termo
preciso. Vocês quatro são...
O auditório, leitor, não escuta
o esperado termo. O que escuta e vê são dois estampidos, a Dra. Angelicitima se
transformando numa névoa gasosa e disforme e um barbudo correndo com um
notebook na direção da saída.
No 11 do 25,
TC
Ps: Desculpe o atrevimento de me
meter na sua leitura contextual. Mas caso tenha ficado em dúvida acerca do nome
oficial da pensadora Angelicitina Duarte Alcifis, sugiro conhecê-la unindo as
sílabas do nome completo.
3 comentários:
Perdoe a minha burrice ou preguiça mental; que é mesma coisa. Mas me chamou muito a atenção, o seu "Ps". Não consegui descobrir o nome oficial da pensadora. Kkkkk
Olá, nobre comentarista. Não é burrice sua nem de quem não descobriu o nome oficial da pensadora Angelacitina. Olhe só. O autor perde o domínio do texto com a publicação, pois o leitor o interpreta de acordo com as vivências dele. Acontece que gosto de deixar algo exclusivo meu nos arremedos de prosa. Gosto de dar uma amolada na percepção do leitor, entende? Amolo largando pistas no texto. Veja o caso presente:
Logo no início, a conferencista é apresentada como a revolucionária pensadora do século 21. Depois ela diz que Angelacitina não é o nome dela. Depois diz que “veio ao mundo com a missão de indicar algo aos humanos”. Ela não é humana, por assim dizer, mas dá a entender que é mais inteligente que os humanos. Por fim, ela leva dois tiros que a transforma numa massa gasosa e disforme. Não sangra, pois. É um ser artificial, não? O contexto perceptivo diz que nossa personagem é a IA.
Prova disso, é que tão logo a conferencista “morre”, o barbudo que a dirigia sai correndo do auditório com o notebook da manipulação.
Perceba que a alteração das letras de Angelicitina formam Inteligência. Perceba que o “arte” do sobrenome Duarte junta-se ao “ficial” de alcifis para formar o “artificial” de Inteligência Artificial.
Um abraço e até o próximo texto, meu nobre.
Bravo meu caro Tião. Realmente esse nome estava me entregando. Kkkk.
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