Escutem só. Encontrei um pen-drive antigo e
me deparei com a prosa pioneira de minhas besteiradas. Faz uns dez anos que a
escrevi. Escrevi, a colega Janice me deu corda e comecei a redigir as babujadas
atuais. Dei uma ajeitada na danadinha e vou postar pra vocês.
Em tempo. Não gosto de doce de leite. Mas
espero que goste. Do doce e do texto, tá?
DOCE-DE-LEITE, SEU DANADO!
Vocês já devem ter percebido o nível de
desorganização pelo qual está passando o nosso país. Acordamos na decadência e
vamos dormir no descalabro. Desorganização, decadência e descalabro, sim! Esses
três dezinhos, senhores, não convivem conosco por acaso. São descendentes de
outro demoníaco “d”. O “d” de doce-de-leite. O doce-de-leite – grafado assim
mesmo, com iniciais minúsculas, todo ligadinho, pra ficar mais feio e, a partir
deste ponto, chamado de o Tal – mexeu com tudo e com todos da cena brasileira.
Sabem como teve início a nossa ruína?
Foi assim, ó!
Em janeiro de 2003, numa tarde de domingo, lá pra
bandas de São Rafael, aqui no Rio Pequeno do Norte, uma jovem muito bonita
botou uma panela de leite no fogo e foi paquerar. Paquerou tanto que acabou
esquecendo a bichinha. Na volta, só pensando naquilo, tacou açúcar no pastoso
em que o leite havia se transformado. Tacho devidamente frio, os admiradores da
namoradeira provaram a guloseima.
Provaram e aprovaram: “Que coisa boa!
Excelente! Sensacional! Belíssima idéia, Cacilda.” Conclusão: gostosa que só
ela, Cacilda, não a pasta de leite, todos procuravam agradá-la. Vocês já
ouviram esta exclamação, não? “Cacilda!”. Pois essa exaltação de júbilo surgiu
naquela tarde, dos puxa-sacos de Cacilda.
Pois bem. Dias depois, meu primo Bião,
sentado num banquinho, debaixo duma barraquinha, tira leite de Helena, a mais
charmosa e valente das vacas de tio Mião. No meio da ordenha, todo enfatiotado
para mais uma viagem de exibição num rodeio internacional, chega o touro
Luluca. Acaciano, deslumbrado, fofoqueiro e desafeto de Helena, foi logo
mugindo:
- E aí, camarada Helena! Tudo bem? Sabes da
maior?
- Tudo mais ou menos. Não sei da menor, muito
menos da maior. Vieste fofocar? Desembucha logo, Luluca.
- Então! Adivinhas o que estão a fazer com
teu delicioso leite?
- Manteiga ou queijo, naturalmente. Que
pergunta mais idiota, Luluca.
- Nada disso, companheira, digo, camarada
Helena. Estão a fazer doce!
- O quê? Doce! Não é possível! Doce de...
do... meu...
Helena, amigos, ficou tão irada que tossiu,
chorou, chutou o pau da barraquinha do Mião e deu uma patada na balde de leite.
Nasciam naquele momento as popularíssimas expressões: “Nem que a vaca tussa”,
“Chorar o leite derramado”, “Chutou o balde” e “Chutou o pau da barraca”.
Gozador, Luluca ainda alfinetou: “É, camarada
Helena, estou convencido de que a senhora está sendo avacalhada.”
Helena abalou-se tanto com aquela notícia que ainda
hoje vive deprimida. Aliás, a depressão, antes uma perturbação da alma,
transformou-se, em face de tão nefasto evento, num mal da carne. Ou melhor, do
Tal. O maior índice de indivíduos desesperançados encontra-se nos apreciadores
do Tal. Eu, por vias das dúvidas...
Verdade, colegas, é que a partir daquele dia,
a desordem tomava conta desta nação. Estava aberto o precedente advindo de
outro diabólico “d”. Instalava-se assim a desobediência - Distinguiram
direitinho o divertimento do danado do doce desmoralizando o “d”? - Hoje
ninguém respeita nada, meus camaradas. A sociedade contaminou-se com o vírus do
Tal.
O Tal da Cacilda quebrou a ordem natural das
coisas. Jogou pro espaço o que consideramos essência, inerente, intrínseco.
Pensem bem. Doce é essência, é inerente, é intrínseco, é algo próprio de
frutas, não de leite ou outro produto qualquer. O Tal destravou as portas para
a visita da anarquia. As pessoas fazem o que bem entendem, falam o que lhes dão
na telha e as regras da decência quedam-se mortas. Enfim, os limites sumiram.
Na culinária, inventaram todo o tipo de
bijungaria. Doce disso, doce daquilo, bolo daquilo, bolo disso. Um dia desses,
as meninas de minha sala me perguntaram se eu não queria provar do bolo de banana
que uma delas havia comprado. Bolo de banana, bolo de maracujá, bolo de
laranja, pizza de carne-de-sol. E sorvete de tapioca? Quem já viu! É o fim do
mundo, pessoal. Mas não existe o Tal?
E no futebol? Viram o que ocorreu com a
respeitadíssima seleção brasileira? Virou motivo de galhofa, gente. Sabem, né?
Pode faltar tudo na concentração amarelinha, menos o Tal. O que tem de jogador
jururu, rebolando e caindo não tá no gibi.
A linguagem é outra vítima do Tal. Antes
dele, a semântica era imponente. Ficar era permanecer num lugar. Hoje é
namorar. Cacilda namorar Cacildo? Que nada! Eles estão ficando. Acontecer era
ocorrer de repente. Aconteceu um acidente. O que aconteceu? Hoje, até as
pessoas acontecem?
Estrago mesmo o Tal fez na vida pública.
Poderes submissos, briga de todo jeito, boataria a tordo e a direito.
Princípios partidários? Promessas? “Grande besteira”, dizem os políticos.
Depois do Tal, liberou geral, meus nobres.
E a Segurança? O que dizer da Saúde pública?
Eu estava no MPbar, domingo, pensando na
força descomunal do precedente, quando, vê se pode, a vizinha de mesa pediu uma
cerveja sem álcool. Pode um negócio desse? É claro que pode. Não existe o Tal?
Então...?
Estou vendo a hora algum demente meter os pés
pelas mãos e cismar de escrever sobre as deformações causadas pelo Tal. Depois
da criação do tal doce-de-leite, as pessoas se julgam inocentes de tudo que
causam de ruim, andam de nariz empinado e se acham no direito, imaginem, de
aborrecer os colegas com textos amargos, insípidos, sem sentido.
Afinal, a culpa é Dele. A responsabilidade é
do Tal.
Doce de Leite, seu danado!
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