A
LINDA MÉDICA DO CHELSEA NO FEIOSO JOGO DE PALAVRAS
Via de regra, a leitura da primeira
frase oferece ao leitor estas opções: ou se sente enfastiado e larga as
palavrinhas ou se mostra encantado e abraça as letrinhas. Tenho escutado bastante
esse exagerado contraponto. De especialistas, diga-se. Como ilustrativa de
tédio, os doutos apresentam a frase iniciada por chavão, tipo o via de regra.
Aí os literatos dão uma penca de dicas de como escapar da oração fastienta e cativar
o leitor na primeira silabada. Não dou bolas para tais conselhos. Mas já dei -
por pouquinho tempo -, mas dei, confesso. Desisti quando notei que quanto mais lia
sobre o tema escrever, mais rebelde e burro me tornava.
Escreva textos curtos, notadamente
as crônicas. Se contos, não fuja do assunto. Em ambos, saia cortando adjetivos
e advérbios. Não escreva a mesma coisa,
mais de uma vez, usando palavras
diferentes. Leia em voz alta a fim de captar os defeitos sonoros. Tentava
seguir esses ensinamentos, mas, como disse, caí fora ao perceber a ajumentada
burrice.
Entenda, leitor. Guardo na mente
a distinção entre crônica e conto, por exemplo. Mas, ao ler as traquinices que
certa criatura me obrigou a escrever, noto que o resultado é um simplório texto,
carente das propriedades de crônicas e contos. Resta-lhe, então, adaptar o escrito
para o que você quiser, dirá alguém. Até concordo, mas você nem imagina a pena
que me dá cortar palavras. Basta ver umazinha agonizando para que fiquemos jururus.
Fiquemos, no caso, eu e as coleguinhas que se tornaram viúvas. De mais a mais,
esse trabalho, especialmente se pender para o conto, termina em algo dramático,
sentimento de que me esquivo, insensível que sou.
Vi logo que nunca seria escritor.
Agora, o tabefe da frustração deixou-me nocauteado quando ouvi um crítico literário
dizer que para virar literatura não basta um texto bem escrito, cativante e
coisa e tal. Para ser literatura a prosa precisa conter as trilhas da arte. E
reprisou, soletrando, ar-te. E voltou a repetir: sem ar-te na escrita não há
escritor. Há, isto sim, digitador de besteirol.
Então, dado meu zero de aptidão
artística, concluí: serei tão somente redigidor e ponto final. Na digitação até
que me safro. Embora tecle com apenas dois dedos, dispenso a tal de inspiração
e mando brasa. Uma notícia de jornal é suficiente. Leio determinados
apontamentos e a coceira dedal já me empurra para o computador.
Hoje, duas chamadas da UOL
deram-me baita comichão. Uma falava de selfie. Um autorretrato, pelo que
entendi. A moda, escandalizava a matéria, é transar, pôr um mostrengo no
espelho da cama e mandar o bicho eternizar a cara de satisfação dos amantes. Fiquei
corado com a informação, juro. Já imaginou Adão e Eva...
Pensei em dedografar o assunto, levando
a coisa para Adão e Eva, mas inventei de mudar o olhar. Nisso leio a segunda
chamada. Falava de quem, de quem, de quem? De Eva, gente.
Falava de Eva Carneiro, minha
prima, a médica do Chelsea. A reportagem punha Eva nas alturas. Vou dar uma
pincelada na notícia. Terça-feira, vinte e dois do quatro, jogaram Chelsea e
Atlético de Madri, pela semifinal da Liga dos Campeões. Eva Carneiro, já falei, é a
médica do time inglês. Joguinho morno, o goleiro Petr Cech se machucou. Eva correu
a fim socorrê-lo. Frisson, pessoal. Depois se machucaram David Luiz, o cabeludo
zagueiro de Felipão, e outros. Outras corridas, outros frissons. A bela Eva corria,
a fera masculina levantava. No estádio e na televisão. Esse vai e vem salvou a
pelada. Pense num jogo ruim! Sem dúvida, com Eva em campo, o Chelsea ganhou uma
porrada de torcedores brasileiros. O que tem de neguinho esperando o Chelsea
jogar a final da Liga não é brincadeira. Mas só jogar. O que eles querem mesmo é
que haja muita contusão no time azul.
Pois muito bem, o jornalístico
exaltava a competência e o profissionalismo de Eva. Nada mais justo. Justíssimo.
Só que os repórteres engoliram mosca. Uns disseram que Eva era espanhola,
outros, portuguesa, outros mais, inglesa. Nada disso. Evinha é brasileira, papa-jerimum,
dos carneiros daqui. De Extremoz, que fique claro. É filha de meu tio Kião com
D. Avião. É irmã do Bião, do Mião, do Adão, da Elma, da Elza, da Ema.
Evinha sempre gostou de esporte. Atraente
e competente, perdoem-me a rima, também sempre foi. A lindíssima era massagista
de nosso time, lá no Araçá. Alguém caía, ela já corria de Gelol, água benta e
emplastro de sabiá na maletinha. Eva dava aquela massagem básica, o caboclo
levantava na hora, ela sorria e a pelada seguia seu destino. Tudo era feito no maior respeito. Afinal, o time era formado
apenas por parentes dela. Evinha gostava de caldo de cana com pão doce. Queria vê-la
babando, mostrasse um pirão de mão de vaca, uma cabeça de bode ou uma porção de
ginga com tapioca. Quanta saudade!
Liguei pra ela logo depois do
jogo. Encerramos a ligação com a alegre notícia:
“Estarei aí na Copa, primo. Prepare
a cabeça de bode, tá?”
Abril/14
Tião Carneiro
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