O DIA DELA
E aí, mãe?
Mostrei-lhe a mão espalmada e fiquei
a matutar.
Dizem que mato e curo. Também alardeiam
que eu não soube criar minhas duas filhas. São julgamentos de velocistas, juízos
de analfabetos. Risível é que não dizem o que realmente sou.
Não sei por que velocistas e analfabetos
não veem as rugas de meu comportamento, já que os franzidos vivem
escancaradamente expostos. Se usassem os passos da marcha atlética, os analfabetos
não, mas os maratonistas certamente enxergariam minhas carquilhas. Pusesse os
pés no chão, esse pessoal viria as nefastas pregas da manipulação. Confesso: sou
manipulada.
Manejada, sim, segundo a segundo por quem
me apresenta. Por vezes homicida, por vezes amorosa, vê-me assim o apresentado ao
pôr os olhos em mim.
Preparam-me, temperam-me e me servem,
ora numa bacia real, ora numa bandeja fictícia. Por que não me rebelo? Impossível,
porquanto ser pau-mandado é de minha natureza. Criaram até um pau especialíssimo
para me açoitar. Deram-lhe o nome de metáfora. Acho mesmo que a meta é fora me
deixar do eixo natural do senso comum.
E aí,
mãe? A que se deve esta reunião? Tenho o que fazer, mãe. Preciso fechar um
relatório e terminar um romance ainda hoje. A senhora está pensando na morte da
bezerra, é?
Minhas
filhas são gêmeas. Univitelinas, por sinal. Mas apresentam sinais internos de
diferenciação. A mais brincalhona, prosista, digamos assim, foi quem me interrogou.
A irmã é bastante fechada.
É impressão ou vocês permanecem de
tromba grande uma pra outra?
Impressão,
mãe. Não tá rolando tromba alguma entre a gente. A senhora não sabe que essa aí
é assim mesmo? Essa aí nunca vai deixar de ser hermética e imprevisível, mãe.
Então
por que você continua chamando sua irmã de essa aí?
Ah,
mãe. Costume. Começou por causa daquela Pessoa, o Fernando. E a senhora sabe
muito bem disso. Essa aí fingia muito naquele tempo. Não tolerava aquele
fingimento, mãe. Mas ela mudou depois que a menina caetana beijou o Fernando. Daí
eu ter estendido a Bandeira branca no Castro do navio da amizade. Hoje somos
escravas da compreensão, mãe.
Gostei
de ouvir isso, minha filha. Como prova de tudo, queria que você desse um abraço
bem forte em sua irmã, já que sábado, dia 14, é o aniversário dela.
Dela
e meu, não é, mãe? Até a senhora, mãe? Misericórdia! Sabe, mãe, essa
discriminação representa uma punhalada no meu sorriso e uma gargalhada da
frustração. Faça-me um favor. Use seu prestígio e peça aos ingratos que deixem
de me discriminar. Por que só essa aí ganha parabéns? Se somos suas filhas e nascemos
no mesmo dia, nada justifica o desprezo por mim. Afinal, a dor de nos parir foi
e é única. Certo, mãe?
Promete
isso, mãe?
Tem a
minha palavra, filha.
Março/15
TC
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