SENHORAS E SENHORES, SILVANA!
Estás a me decepcionar, nobre TC. Escreves
agora somente textos esquisitos, homem de Deus! A quantas andam os escritos brincalhões,
cujas entrelinhas, devassamente eróticas, provocam-me resistentes orgasmos
literários?
Beijos de tua leitora,
Silvana
Foi esse o imeio da leitora
Silvana. E foi esta a resposta, também na chatíssima segunda pessoa:
“Obrigado por me ler, Silvana. Acho
que minha veia erótica brochou, querida. Bem que podias me dar um ponto G
inspirador. G de gerador, estás a entender? Mas, antes, vou me servir de um excitatório
a fim de em ti injetar o colossal prazer.
A réplica beijou a tela do notebook
antecedida rs, rs rs:
Sou demasiadamente comum para em ti
injetar a salvadora e libertina imaginação. Se bem que... Desculpa, TC, a recepcionista
está me chamando. Estou no médico. Tchau!
Fiquei pensando na galhofeira
leitora. Certo é que de Natal não era. Não costumamos usar o ti e o tu. O “a
quantas andam” também não era corriqueiro. Abandonei a Silvana e fiquei a
imaginar um texto de “entrelinhas devassamente eróticas”. Adormeci sem estimulante
algum me acarinhar. Nem em sonho as entrelinhas carnais me abraçaram.
Acordei e digitei cavalheirismo:
Médico de quê? Fique sabendo que
minha torcida é sua. E o que significa aquele “se bem que”? Ainda não captei
nada que lhe provoque os resistentes. Beijos!
Passados alguns minutos, os rs, rs
deram lagar aos ra, ra:
Que história é essa de minha
torcida é sua? Médico de cabeça e de mente, seu depravadinho. E você tem culpa
no cartório?
Eu? Como assim, Silvana?
Você, boy.... Aposto como passei-lhe
a perna com o ti e o tu. Pensasse que sou do sul, não foi? Sou daqui mesmo de
Natal, boy. Posso chama-lo de boy, TC? A segunda pessoa gramatical é tão
somente a segunda pessoa em que me transformei depois de me tornar sua tiete,
há coisa de um ano. Você, boy, postou um texto irado sobre comportamento. Você não
é você. É o seu comportamento. E, se não estiver gostando dele, tem a opção de substituir
o estado mental causador do comportamento. Afinal, você é o comandante de tudo.
Li a sua instrução e comecei a agir. Ah, que lesa sou eu. Deixe-me apresentar,
boy.
Tenho vinte e dois anos, baixinha,
morena, cabelo castanho curto, bunda, senão chupada, mas certamente não empinada,
pernas longe de serem pernaças, peitos distantes de peitões, mais para gordinha
do que para magrinha. Uma toupeira sexual, concorda?
Estudo sociologia e trabalho numa
loja de eletrodoméstico. Era inibida, tirava zero em discordância e andava com
os ombros caídos. Era assim até ler aquela postagem e acatar o seu conselho,
boy. Em suma, era uma besta quadrada.
Substituí o estado mental de mosca bêbada
pelo o de gazela ativa e as coisas começaram a mudar. Notadamente na
sexualidade. Surgem atritos, mas os vejo como naturais. Vou exemplificar, boy.
Duas colegas de curso defendiam a
presidente Dilma acerca do tão falado impeachment: é golpe desses babacas. A
Dilma foi eleita, gente. Teve uma montanha de votos. O que acha você, Silvana,
indagou a Suzete, rindo, esperando a aprovação da costumeira mosca bêbada. Também
rindo, respondi assim, apesar de petista: aí é que tá, meninas. A Dilma só está correndo esse risco
porque foi eleita. Agora, se se enquadra nos dispositivos legais são outros
quinhentos. Simples, não? E fechei o caixão: ora bolas! As babacas passaram uma
semana sem falar comigo, boy.
Com relação à sexualidade, ocorreu
o seguinte. Ando muito na casa da tia Aurora. Então, à medida que eu mudava as
atitudes, o marido dela mudava em relação a mim. O coroa, boy, pouco falava
comigo, mas agora começava a me encarar. Às escondidas, é claro. Passava uns
dias na dele, mas de repente lá vinha olhar lascivo. Que chato, pensava eu
quando ele ficava dias sem me mastigar com os olhos. É muito bom ser desejada,
boy. A depender de quem está nos desejando, chega em cascatas o formigamento da
luz. Sabe o que é isso não, não é, boy?
Bom, essa lascividade passou para
outros homens. Sobretudo quando me ouvem. Tão embevecidos se tornam que procuram
logo se sentar. Se estiverem em pé, né, boy? E sempre estão, entendeu? No trabalho,
os indiferentes colegas de meses atrás me paparicam e me tratam por Silvaninha
ou Sil. Se antes eu ralava para me ralar num menino, hoje os homens ficam se
ralando para se ralar em mim. Vivo em contínuo êxtase, como se perambulando num
clima de calor molhado. Sabe o que é isso não, não é, boy? Se você quiser, eu
envio pelo WhatsApp algumas fotos daquele jeito e... Daquele jeito, entenda,
são as fotos antigas. Se quiser, mando umas antigas e outras atuais, boy.
Mas tem
um detalhe. Escute, só. Li num folheto de autoajuda uma passagem interessante. Sugeria
o autor que o cumprimento ao semelhante devia ser precedido de um mental “amo
você, ou vocês”. Acostumei-me com isso, boy. Repito continuamente essa saudação
interior. Com convicção naquele tempo, hoje no automático. Então. Embora não
acredite que “o amo você” tenha me transformado nesta garota fatal, fica sempre
a dúvida de que não tenha me tornado apetitosa, visto que as novas atitudes e a
fala interna se deram num mesmo tempo.
Mais um detalhe, boy. Há cerca de
um mês, venho pondo em xeque esse extremo poder de sedução. Será tudo verdade? Será
que tudo não passa de uma brincadeira da mente? Não estaria eu criando essa
mulher irresistível? A mente é foda, boy. Estarei pirando? Fui ao médico a
procura dessa resposta, boy.
Beijos de sua leitora,
Silvana
Ah, não. Peguei a mãozinha do
responder, cliquei e digitei:
Ah, não, Silvana. Entendi o “se bem
que”: você era demasiadamente comum, morta em sexualidade e, de uma hora pra
outra, ficou vivíssima na arte de seduzir varões. Mas precisa dizer qual foi o
diagnóstico médico, mulher de Nossa Senhora. Sim, mande as fotos. Mande logo a daquele
jeito, viu?
Ela respondeu com umas carinhas,
rs, rs e ra, ra:
OK, boy. Vou anexar as fotos no
e-mail mesmo. Duas. Uma daquele jeito e outra daquele jeito, tá? Pois é, boy. A
recepcionista mandou-me entrar. Dei o clássico toc-toc na porta e a médica deu-me
um pode entrar. Entrei. A médica estava lendo a minha ficha, suponho. Levantou a
vista com o boa-tarde. Levantou a vista e levantou-se. Tipão de mulher, boy. Aquela
sim era uma loura fatal. Levantou-se e veio me receber. Recebeu-me com sorrisos,
beijinhos - mas não tão beijinhos - acompanhados de Srta. Silvana, como vai, e
cortesias análogas. Estranhei tamanha cordialidade, posto não nos conhecermos. Sentamos
num sofá. Cruzei as pernas. Nisso, a médica segurou as minhas mãos e soltou um eloquente
nossa! Acho até que o “nossa!” saiu antes de ela segurar as mãos.
Comecei a chorar, boy. Estou me
lembrando das cenas e voltei a chorar. Desculpa, TC. Mais tarde lhe mando outro
e-mail. Não é nada do que está pensando, cara.
Beijos de sua leitora,
Silvana
Vou dar um leia mais a fim de
contar o resto da história. É bem curtinho. Só um parágrafo.
É o seguinte. Quando começo a
escrever espero que o contexto me dê um final. Hoje caí numa armadilha. O final
não veio. Pensei em “Comecei a chorar, boy” como final, mas achei frouxo e vim
pra cá. Pensei em descrever umas cenas lésbicas entre a Silvana e a médica,
porém julguei muito previsível. Pensei em pôr um médico homossexual, em vez da
médica, mas entendi desfocado. Pensei em ficcionar um médico machão estuprando
a Silvana, mas também avaliei previsível demais. Enfim...
É isso. Desculpem.
Beijos para as Silvanas.
Amo você e vocês.
Outubro/15 – e rosa,
TC
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