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LOGO NO DIA DO PROFESSOR?
Pois é. Fazer o quê? Aconteceu na tarde do último
sábado, 15 do outubro rosa de 16, o Dia do Professor.
Lurdinha e Carlão assistiam a um filme na TV da sala.
Lurdinha e Carlão são casados. Ele com ela e ela com ele, que fique claro. São
professores. Ela, de biologia. Ele, de Português. Mas lecionam em colégios
distintos. O WhatsApp de Carlão bateu palmas, Lurdinha levantou a cabeça das pernas
do marido, apanhou o aparelho, leu a mensagem e informou: Uma tal de Fifi. Sua
aluna. Carlão leu:
Bt, prof. Vc tá no ap? Gostaria de tirar umas dvds
sobre aqle trab de portuga. Pode dar o end completo? Desculpa incomodar, tá?
Pedi que a turma treinasse para o Enem, Lurdinha, com
o tema “O histórico desafio de se valorizar o professor”. Aí essa sem noção
quer discutir o tema logo agora. Vou dizer que estamos chegando ao shopping.
Que que tem, amor? Mostra que é uma aluna interessada.
Mande ela vir. É bonita?
Mesmo que fosse a Marina Ruy Barbosa, Lurdinha.
A Ruy Barbosa é bonita? Ela mora aqui por perto? A
Fifi, amor, não a Barbosa.
Mora perto. Uns dez minutos daqui.
Como você sabe? E como a Fifi sabe que moramos neste
condomínio?
Já dei uma carona a ela. Mostrei-lhe o condomínio naquela
noite.
Entendi. Deu uma carona a ela naquela noite. E ela? Já
lhe deu quantas vezes?
Ah, Lurdinha, você está de brincadeira. Dê-me o
celular. Vou dizer...
Agora é tarde, Carlão. Acabei de dar o número do
apartamento e disse que ela podia vir. Seja bem-vinda, Fifi. Encerrei assim.
Veja.
Lurdinha!
Precisamos valorizar o bom aluno, amor. Agora vá tirar
esse calção cabeçudo. E vista
uma camisa decente, pois essa regata vazando cheiro
de macho pode mexer com o juízo da moça e fazê-la querer misturar saliva com
você. A Fifi é muito da espertinha, viu?
Espertinha? Como assim, querida?
Oh, Carlão! Como sei que é meio desligado com essas
coisas, não duvido nada que não venha notando o interesse dela por você. Escute
só. O Enem será em novembro. Essas dúvidas podiam ficar para segunda-feira,
correto? Aí a pré-universitária, estudiosa, treinada em redes sociais, não
percebe a inconveniência de procurar o professor gatão num sábado à tardinha? Qual
é, meu? Ela está tão doida para se exibir pra você que não aguentou esperar.
Daí o pretexto das dúvidas. A Fifi não é sem noção coisíssima nenhuma. Tem
noção de sobra, isso sim. Vou deixá-la bem à vontade. Quero ver até aonde ela
vai. Vá trocar de roupa, homem de Deus. A sonsinha deve estar chegando.
Estava certíssima a Lurdinha. A aluna vivia dando em
cima do professor. O assédio ficou tão pesado que o Carlão precisou falar sério:
ela era aluna dele, ele era religioso, bem casado e coisas tais.
Nada a ver essa xaropada conservadora, Carlão. Quero
você e pronto. Fiz até um juramento. Mesmo que fique arranhando as paredes de
meu quarto, não vou sair com ninguém antes de desconjuntá-lo. Moverei mundos e
fundos pra isso. E você também me quer, moço. Homem algum ignora uma mulher linda
e gostosa igual a mim. Pensa que é santo só por que é professor? As escolas
estão cheias de professores e professoras gueis, corruptos, pedófilos. E eles,
assim como alunos e diretores, não são santos. Está com medo da mulher, não é
verdade? Você é analfabeto filosófico, cara, pois acha que ficar com alguém o
torna infiel à esposa. Não torna, rapaz. O que torna alguém infiel é a mentira,
a negação do ato praticado, a enganação, não o ato em si. Não sabe, Carlão, mas
está sendo infiel ao me querer e rejeitar ao mesmo tempo. Infiel, porque está
enganando os instintos, entendeu? Infidelidade é isso, é algo mais profundo. Ao
ficar comigo, está deixando de ser exclusivo da esposa, é certo, mas
exclusividade tira fino na escravidão, comportamento de quem o livre-arbítrio vive
cortando caminho. Deixe de babaquice. Desça da lua, Carlão.
Carlão apenas comentou: custa-me acreditar que uma
garota da sua idade tenha cuspido tais excrementos. Você é louca. Deixe-me em
paz, criatura.
Agora, de certa coisinha Carlão tinha certeza: mais
dias, menos dias, a Fifi o levaria pra cama, porquanto impossível suportar
tamanha pressão de tão linda mulher. Pressão que atingira o ápice com o
atrevimento daquela visita.
Carlão saía do quarto, escutava o
converseiro feminino. Uma voz desconhecida chamava-lhe a atenção. Lurdinha conversava
com a dona da voz. Um pouquinho distante, Fifi falava ao celular.
Devidamente apresentados, Lurdinha recordou:
Que mundo pequeno, Carlão. A Gabi foi minha aluna, dois anos atrás. Quase não a
reconhecia. E, veja só, é amiga da Fifi. A Fifi...
Boa tarde, professor. Pois é. Fiquei
com vergonha de vir sozinha, então a Gabi me fez companhia.
Não pense, leitor, que a conduta da Fifi
foi compatível com a frieza daquelas palavras. O boa-tarde saiu com chicotado
beijo, cujos lábios ficaram desenhados na bochecha do encabulado Carlão. Também
inexistia vergonha no desafiador olhar dela na direção da Lurdinha. Mas havia
resignação no desbotado sorriso desta. Impassível ficou apenas a Gabi. Carlão
deu-lhes as boas-vindas e trataram de se acomodar.
A fim de ser mais fidedigno aos fatos, transfiro agora
a narração para o protagonista Carlão.
Bem, desperta-me logo a curiosidade o
jeito como a Fifi e a Gabi estão vestidas. Trajam sainhas curtas, blusas
decotadíssimas, de alcinhas, sandálias de dedo. Estranho aquilo, pois as
mulheres detestam vestirem-se iguais.
Eu e a Lurdinha, lado a lado, ficamos frente a frente
com as visitantes. Conversávamos coisas de colégios, ríamos. Praticamente em
sintonia, as duas cruzam as pernas. Depiladíssimas, começam a dedar o celular.
O que essas meninas querem aprontar, meu Deus do céu? A Lurdinha vai já rodar a
baiana. Mas ela mostra-se insensível, embora o olhar faiscante não se afaste
das coxas das visitantes. Valho-me do WhatsApp:
- Estão sem s e sem c, Lu. Tá vendo
o q tô vendo? Tá tão calma?
- Como ñ v? E tu de olho, né? Putinhas!
Calma por fora. Tô fervendo. Tô bolando um plano.
- Me diga.
- Mato a Gabi, vc mata a Fifi.
- Q? V lá o q vai fazer, Lu.
Bom, o ambiente fica engraçado, já
que continuamos jogando conversa fora, rindo e trocando mensagens. Eu com a
Lurdinha e a Fifi com a Gabi, suponho. Dez minutos nesse clima, o zap da Lurdinha
orienta:
- Puxe o enem e deixe o resto
comigo.
Não perco tempo.
- E aí, Fifi, preparada para a
redação?
Uns minutinhos no assunto, e a
Lurdinha informa que vai fazer um suco pra gente. A Gabi prontifica-se a
ajudá-la, posto a chatice da conversa. Sopa no mel para a Fifi. Sorridente,
levanta-se, enrosca os seios em mim e mostra o tablet.
- Comecei assim, Carlão:
Atrevo-me
a afirmar que de todas as profissões, a de professor é a mais nobre. Ou não
seria elevado o ofício de quem ensina a desenhar o edifício, mostra como
calcular a edificação e, depois dela habitável, fruto do trabalho de muitos
anônimos profitentes, explica aos seus ocupantes, os médicos, como devem agir a
fim de recuperarmos a saúde? Além do mais...
- Não gostei, Fifi, desculpe. Meloso
ao extremo. Deve se prender ao tema proposto, Fifi, O histórico desafio de se
valorizar o professor.
Pode começar com um pouco da
história docente, o que era ser professor das antigas.
Em seguida discorra sobre as causas do desprestígio da profissão. Depois
faça uma ponderação de como podemos valorizar o professor. Termine
contextualizando a possível valorização com as redes sociais, a televisão etc. Enfim,
como deve ser o professor do futuro, Fifi?
“Sei lá! E nem quero saber, se quer
saber. Meu desafio é valorizar o professor do presente. O de carne e osso. Dou
maior valor a você, Carlão”, brinca a sapeca, acocorando-se, beijando-me na
coxa.
- Fifi, menina danada, você quer por
que quer acabar meu casamento, não é? Escute...
Não termino a frase, pois a Fifi,
semblante de terror, põe o dedo nos lábios, no clássico pedido de silêncio. Da
cozinha, ecoava um barulho de louça se quebrando, seguido de breves gemidos.
Quis correr, mas a pestinha segurou-me pelo braço:
- Meu Deus! O que terá acontecido,
Carlão? Vá lá não, amor. Espere um pouquinho. Estou com medo, Carlão.
Ficamos de cabeça levantada,
assuntando, a pescar barulhos. E pescamos. Não barulhos, e sim gemidinhos,
uivinhos, gritinhos, ruidinhos. Sons monossilábicos nas ouças, e pé ante pé,
caminhamos na direção de bocas sedentas. Sedentas, pois já não tínhamos dúvidas
de que a sede amorosa imperava ali. Não caminhava, deixava-me levar. Flutuava,
tropeçava, tremia. Fifi me beijava, consolava-me: “A vida é assim, Carlão. Tenha
paciência, amor”. Por fim, a cena: pratos no chão, a Gabi derreada na mesa, a
Lurdinha derreando-se na Gabi, as duas ignorando a nossa presença.
Não aguento dez segundos. Ponho a
Fifi nos braços e a levo para a minha cama. O menos dias acabava de chegar. A Lurdinha
não estava matando a Gabi, por que eu não mataria a Fifi? A espirituosa Fifi ainda
acha tempo para rascunhar um aviso e fixá-lo na porta:
NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O
PROFESSOR.
- Bom, tirei minhas dúvidas, Carlão.
Estou plenamente satisfeita. Ao menos por enquanto. Agora, amor, imagino que
tenha alguns grilos na cabeça. Pode falar.
Farei apenas três perguntas, Fifi.
1. Por que a armação?
Porque sempre fui taradona por você. Porque você me
rejeitava. Porque jurei desconjuntá-lo. Porque tinha que ser logo, pois o cursinho
estava acabando. Porque queria provar que quando se diz que não quer, não
implica dizer que não vai querer.
2. Por que a Gabi entrou na história?
Porque é minha amiga e lésbica garota de programa. Ciente
da situação, traçamos uma estratégia. Por meio das redes sociais, identificamos
e localizamos a Lurdinha. A estratégia consistia em a Gabi paquerar a sua
esposa. Deu certo trabalho, já que a Lu tinha aversão a mulheres. Mas a Gabi é
boa nisso. Aproximação, encontros casuais, sorrisos, shoppings, cafés, livros. Com
três meses, a Lu estava tomando chá no ap. da Gabi. Tomavam chá e se beijavam. A
professora Lu é apaixonada pela Gabi. E a Gabi sempre deu valor a professoras,
Carlão.
3. Por que paquerar a minha mulher? A Lurdinha nunca foi professora da Gabi?
É claro que não, amor. Ainda não entendeu, cabeça
dura? Quer o desenho, danado gostoso? Entenda. Sabíamos que a Lu não ficaria indiferente diante da Gabi. Mais do
jeito que a Gabi se vestiu, com tudo a mostra. Ela veio assim pra Lu. Eu, pra
você, Carlão. Então, em algum momento, as duas deveriam ficar a sós e se
agarrarem. Até porque a Gabi deveria forçar a barra, se preciso fosse. O trabalho seria apenas de eu e você darmos o flagrante. Impossível,
em contexto tão erótico, você ficar insensível a mim, concorda? Adorei quando
me pôs nos braços, Carlão. Bom, o resto foi mão na roda. Tudo planejado, valho-me
da redação do Enem, mando-lhe o zap e ficamos esfregando as mãos pela resposta.
4. Devo concluir que a Lurdinha não sabia que a Gabi, a
amante, viria com você?
Mais que diabo. Deve, homem. Quando a Lu viu a Gabi
fez a cara de quem comeu e não gostou, mas, em seguida, antevendo o prazer, eliminou
a conjunção e ficou uma manteiga só.
Você é uma belíssima feiticeira da sedução, Fifi. Bolar
um negócio desses! Feiticeira e professora de sexo. Quase seis horas. Vamos sair,
amor? Quero só ver a cara da Lurdinha.
Saímos.
Abaixo do aviso na porta “NÃO PERTURBEM. VALORIZANDO O PROFESSOR”, alguém
acrescentara: PROFESSORES VALORIZADOS, ALUNAS SATISFEITAS.
Professoral outubro/16
TC
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