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O BOBO DA CORTE
É claro que me chateei com os risinhos,
autênticos cantos de carroceria na autoestima. Emburrei, servi-me duma largona
de cachaça e fiz o tira-gosto com as trombetas dos bem-te-vis. Passavam minutos
das quatro horas da manhã. Abelhudos brilhos rompiam as nuvens e flagravam os sobejos
noturnos, como se a vida íntima da noite fosse da conta deles.
Estávamos na garagem de minha casa,
despedíamos de 2016. Jogávamos conversa fora e bebida dentro. Em dado momento,
a Neneta nos diz que tinha visitado o apartamento de meu cunhado. “Beleza de
vista o apartamento de Dedé. Dá pra ver até o Forte dos Reis Magos”.
“Oh, Neneta, não fale nisso não,
menina. Derramei muito suor na construção daquele Forte”.
O Forte, gente boa, é uma edificação militar. Foi
construído pela Coroa portuguesa a fim de proteger parte do litoral brasileiro.
Fica aqui em Natal, no lado direito da barra do Rio Potengi. É que os piratas
franceses, pessoal, queriam levar todo o nosso pau-brasil.
“Eu era alveneiro, Neneta”.
Foi essa sentença que me condenou: desenharam o
risinho, olharam um pro outro, trocaram caneladas. Só família e amigos, gente. Dói,
viu?
Foi Jean, um coroa careca metido a moço cabeludo,
quem me tirou a carranca:
Até onde sei, o Forte tem uns quatrocentos
anos. Mas isso não importa. Você tem cara de veinho mesmo, Bastião. Mas diga aí.
Que diabo é alveneiro no jogo do bicho?
Interrompi a risadeira com história:
Tem 418 anos. Começamos a construção em janeiro
de 1598, Jean. Vim de Portugal com Seu Jerônimo. Chamava-me Afonso. E
alveneiro, Jean, é o que hoje denominamos de pedreiro.
Ah, bom! 418 anos. E de lá pra cá, nesse
tempinho, Bastião, fosse mais o quê?
Fui muita coisa, muita coisa, Jean.
Por exemplo?
Cientista, monge, filósofo... Falei e tangi os
olhos pra eles. Impelidos pela perplexidade, o queixo dos descrentes só não se
esparramou no chão em virtude da agilidade do ridículo. Saiu de Jean a
exclamativa interrogação:
Nossa! E fosse o que mais, Bastião?
A história é longa, Jean.
Mas conte, meu amigo. A gente acredita. Não
acredita, pessoal?
É lógico que eles estavam levando a coisa na
brincadeira. São analfabetos cósmicos, pensei. Pensei e decidi contar-lhes a
verdade. Vou fazer um resumo de minhas vidas, anunciei. Anunciei e tomei uma
dose de cachaça. Eles também. Quer dizer, incitados pelo suspense e com o olhar
fixo em mim, beberam o que estavam bebendo. Servi-lhes raridades:
Bom, meu primeiro nascimento se deu em 1275,
num lugar conhecido hoje como Terra Nova e Labrador, Canadá. Era loura, bonitinha.
Meu nome era Gisele. Viajei em 1290, com 15 anos, num estupro. De 1290 até 1570
a memória vive me pregando peça, de forma que não tenho certeza do que fui. Reapareci
na Terra em estremoz (assim mesmo, com s), cidade portuguesa, distrito de
Évora. Trabalhava com mármore. Como já falei, meu nome era Afonso. E como também
informei, vim para o que hoje é Natal com Seu Jerônimo, em 1597. Viajei em
1603, com 33 anos, numa pedrada no quengo, descuido do amigo Anchieta Cabeção.
Reapareci de novo em...
Sabe, pessoal, vou omitir alguns detalhes que é
pra conversa não ficar enfadonha. Fui bobo da corte de Seu Luís XIV, fui...
Bobo da corte? Palhaço, não é?
Bobo da corte era um artista, um sujeito que via
na frente, que antecipava as coisas. Fazia o papel de palhaço, é verdade. Mas,
sutilmente, aconselhava o rei, entendeu, Jean? Eu era um bobo bom, bicho. Era bobo,
mas não era bobo, entende? Tinha demência e sapiência. Como ia dizendo, fui
bobo de Luís XIV. Foi minha a ideia de chamá-lo de Rei Sol, Jean. Depois, Seu
Luís me emprestou para um rei espanhol chamado Felipe. Fui prostituta na
Argentina, fui cocheiro na Grécia, fui caixeiro-viajante em Roma. Fui filósofo
em Londres. Fui monja na Áustria. Fui escritor na França. Engraçado é que
apareci em Estremoz em 1570 e em outro Extremoz em 1950. Mais. O Estremoz
português já foi escrito com x na segunda letra, enquanto o Extremoz brasileiro
era grafado com s. Não é interessante?
Duas informações adicionais, Jean. Passei pouco
tempo com Seu Felipe, o rei espanhol. Viajei numa guilhotina porque me
apaixonei por uma princesa chamada Tânia. Outra. Fui escritor de um livro só,
na França, um pouco antes da Revolução. Teresa Filósofa é o nome do livro. Best-seller erótico, uma luxúria
só, mas até hoje ninguém sabe que fui eu que escrevi. Estou lá como autor
anônimo. Recomendo, viu, Jean?
Tá bom, né, gente?
Tá não, meu sogro. Você disse que viajou não
sei quantas vezes. Quer dizer, morria e nascia. Como explica essas idas e
vindas?
“Boa, Jack. É isso mesmo. E agora, Bastião?
Ajoelhou tem que rezar”, reforçou Jean:
Jumento nu...
Porraé, Bastião? O que diabo tem a ver jumento
nu com a história, cara?
Nada, Jean. Pensei alto. Simples associação de
ideias. Esquece. Vocês são céticos. Vão continuar rindo de mim. Mas como contra
o ceticismo há o dogmatismo, vamos às idas e vindas.
Vejam. Quando a pessoa morre, vai direto para
um enorme salão. Chega lá em dois segundos, nu, com todos os sentidos apagados,
exceto a sensação libidinosa. A libido, por sinal, quem não a tem mais, recebe
uma dose extra. Explico já a razão disso. Porque nus, e a fim de evitar vexames
sexuais, todos recebem um pano sedoso para cobrir o PT. PT, Jean, significa
Patrocinador de Traquinagem, conhecido na Terra como sexo.
Muito bem, o sujeito chega ao salão e entra
numa fila que vai topar numa borboleta manejada pelo soldado São Sebastião. O xará
usa uma maquininha chamada Gênese. A Gênese já está com toda a vida do sujeito,
posto seus dados terem sido colhidos nos dois segundinhos gastos na viagem
interestelar, entenderam? Pois! O soldado, então, pede que o organismo ponha o
polegar na Gênese e, em razão da leitura dos registros, manda o organismo pegar
a fila do céu, purgatório ou inferno. Beleza até aqui? Sim, lá, somos
identificados por organismo e um número. É assim que a Gênese nos localiza.
Agora prestem muita atenção. No momento em que
a criatura (o organismo) bota o polegar na maquininha, na Gênese, uma criaturinha
é gerada na Terra. Automaticamente, os genes da criatura são enviados para a
Terra a fim de se misturar com os genes dos pais da criaturinha e formar a
genética do novo ser. Se ele ou ela, vai depender dos X e Y dos pais, estão a
entender? É por isso, gente, que o “morto” precisa estar na fila com a libido
ativada. Em resumo. O dedo na Gênese é o instante crucial: libido funcionando
lá, libido nos trinques aqui. Um humano desaparece lá, outro humano aparece
aqui. Vida que segue. É isso.
Isso nada, meu sogro. E por que alguém se
lembra do que foi, o seu caso, e outras, o meu caso, não? E o nascimento é
aleatório, é? Não dá nem para escolher o país?
Dá não, minha nora. É aleatório. Quanto à
lembrança, ocorre o seguinte. A vida, Jack, é uma escola, onde as provas são
aplicadas de minuto a minuto. Só vai lembrar-se das coisas quem tira dez em
tudo. Nota raríssima, viu? A nota da gente fica no canto direito da Gênese do
soldado Sebastião, Jack. Bom, o nascimento é aleatório. Mas aleatoriedade com
critério. Olhe só. Quando um organismo põe o dedo na Gênese, o sistema já faz
uma varredura no mundo a fim de saber se existe OGM disponível para conceber o
organismito, a criaturinha. E sempre há, Jean. Depois...
Que danado é OGM, Bastião?
OGM é Organismo em Gozo Máximo, Jean. O popular
orgasmo, entendeu? Então, há OGM disponível? Existe. Aí vem a escala de
preferência: casal virgem, casal mais novo, casal menos briguento, casal, cujo
nome da mulher, em hebraico, corresponda a Maria. A lista é grande. Agora, se no fim dela ainda
houver empate, a criaturinha será gerada pela dama que se mostrar mais zanolha.
Ficaram uns dois minutos olhando pra mim na
maior sisudez. Depois foram enchendo a bochecha e pariram escandalosa
gargalhada. Ô povinho! Mas preciso ser justo com a minha nora: permaneceu
sisuda, pensativa.
Saí do sério com outra lição:
Entendo vocês. Zombam de mim, rotulam-me de
bobo, porque não estão acostumados a ouvir certas verdades. A cultura coletiva justifica
a descrença de vocês. A mesma cultura, Jean, que faz do jumento nu um fato
normal. O jumento sempre viveu nu. Daí que o dono de um jumento será
ridicularizado se de uma hora pra outra inventar de vesti-lo com um cuecão de
couro. Levarão anos para outros jumentos irem se vestindo e o povo se acostumando
com esse visual. Aí o inusitado será vê-los como vemos hoje, com os documentos
de fora.
Vejam o caso da corrupção brasileira. Foi se
instalando aos poucos, comendo pelas beiradas, a tal ponto de ter sido
institucionalizada. Há escaramuças, é certo, mas há quem diga que, no mais das
vezes, tais discórdias são tão somente conversas para boi dormir, insônia pela fata
das tetas. Chegamos ao ponto de uma única empresa querer se apoderar do país. Exagero?
Não! Raciocine, Jean. No sistema político brasileiro o dono da bola é o
legislativo. O executivo é refém dele, não é verdade? O que essa empresa estava
fazendo? Simplesmente pagando e ordenando: faça esta lei, mude essa, mexa
naquela.
A construtora tinha olheiros, Jean. Os clubes
não têm olheiros para descobrir um jogador promissor? Pois! A Odebrecht tinha
executivos com a missão de descobrir um parlamentar promissor, Jean. Fulano tem
futuro, vai ser influente no Congresso Nacional. Aí os olheiros iam se chegando
ao fulano e pimba!
A gente se acostumou com isso, assim como
achamos normal o jumento nu e mais do que normal o que nos dizem sobre vida e
morte.
Vivemos tempos fora dos tempos, meu caro Jean.
Leva tempo para mudar esse tempo. Mudar a
cultura coletiva não é tarefa fácil.
Leva tempo para vestir o jumento, vestir a
ética, vestir-se de sabedoria.
Levou-se tempo para provar que o bobo da corte era
bobo, mas também era bobo.
Acabei de falar, a galera, agora
concentradíssima, me aplaudiu de pé.
Mas a minha nora permaneceu sisuda, pensativa. Parecia
não ter escutado nada. Ficamos apreensivos. Ela, certamente, ainda estava na
conversa do organismito, da criaturinha. Mas de repente deu uma gargalhada e
exclamou:
Seja o que Deus quiser!
Foi Jean quem matou a charada e gritou:
Entendi. Tá grávida. A Jack tá grávida, gente. Vais
ser avô, Bastião.
Que em 2017 sejamos menos bobo, porém mais
bobo!
Dezembro/16
TC
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