SENHORAS E SENHORES, ACACINHO!
Ih, esquecemos de pegar a alimentação
das ofídias, amada Socorro.
Mesmo, Acacinho. Vou pegar ovo. É
só o que teve ter aqui pra cobra. Se você não tivesse se esquecido dos ratos...
Nós, querida consorte. Eu e você
esquecemos de acomodar os roedores na mudança. Pegue os ovais. Amanhã elaboraremos
o cronograma alimentício delas.
Conversavam alto, já que Socorro encontrava-se
na área externa dos caixas e Acacinho falava da fila. Da maior, pois gostava de
conversar: não lhe convinha filas menores de caixas preferenciais. Na fila há
cinco minutos, Acacinho já panfletava impaciência. Não pela fila não andar, mas
sim por andar depressa. E ser muda. O panfleteiro caçava empatia, mas pegava
apenas dedos bulindo em celular. Certo que o diálogo com a esposa fizera dedos
repousarem e lábios soltarem sorrisinhos, mas logo os dedos voltaram aos
celulares. Exceto os de um jovem casal. Para a alegria de Acacinho, o casal
segurou a atenção. Como um alpinista desesperado, Acacinho apoiou-se na altura
da voz:
O ser humano é assaz convencido de
superioridade, meu jovem casal. Vive prenhe de jactância, julga-se infalível.
Se fosse eu teria feito assim, no lugar dele eu faria isso. Apesar de jovens,
já devem ter ouvido essas sentenças soberbosas, não? Viram a minha senhora?
Deslembramos os roedores, eu e ela, a incumbência era compartilhada, mas toda a
paternidade nociva ela impingiu a esta indefesa criatura. Ora, num evento a
dois, de responsabilidade comum, louros e desditas devem ser repartidos
igualitariamente e não se achar alguém no direito de aquinhoar-se do doce e
empurrar o amargo para o sócio.
Desculpem não ter me apresentado,
meus jovens. Meu nome é Acácio de Queiroz e
sou perito criminal aposentado. Minha
senhora atende por Socorro, é bióloga e aposentou-se labutando no Ibama. Somamos
150 verões, eu 10 a mais que ela. Vocês devem ter... Deixem-me me ver...
Acumulam 52 janeiros. Vejo de forma clara e respeitosa tal empilhamento. Diagramados
os janeiros, a coluna masculina confundir-se-á com a feminina, de sorte que viverão
neste plano cósmico guardando a infrangível paridade. Também de forma comprazedora,
vislumbro celestial e incipiente gestação em seu ventre, minha jovem. Espero que
as singelas observações encontrem suporte na realidade.
Rindo de chorar, a jovem amparou-se
no marido, e a fila, a rascunhar sorrisos desde as primeiras palavras de
Acácio, caiu na risada. Não apenas a fila deles, mas também a dos caixas vizinhos.
Vestido de preto, o varapau falador coçava o bigode irregularmente pintado e
envergava-se, num submisso agradecimento, pois sentia na risadeira a aprovação
do discurso. Mal sabia que uma moça já bolara satírica montagem da figura dele com
uma cobra e postado nas redes sociais. Abaixo da foto a legenda. “Ouvindo na
fila dum supermercado esse simpático criador de cobras. Alguém aí tem ratos pra
cobras dele”? A fila parou de gargalhar a fim de ouvir a hipotética gestante:
Acertou e errou, Sr. Acácio.
Um minutinho, minha jovem.
O minutinho era porque a mulher, Socorro,
chegava empurrando um carro cheio de caixinhas de ovos. Por baixo, 24 dúzias. É
cobra em rojão, especulou alguém em voz baixa. Acácio era o próximo cliente a
passar as compras, daí ter pedido o minutinho a fim de sugerir ao casal que
retornassem com ele para o rabo da fila.
Sorrindo, o marido da suposta
grávida rejeitou a ideia.
Ela tem médico daqui a pouco, Sr.
Acácio.
Acácio assentiu, deu-lhes a vez e levou
seu carrinho para o início da fila, embora os clientes tenham lhe sugerido
passar logo todas as compras. Deixou o carrinho com a mulher, voltou e retomou
a conversa. O sorridente marido botava as compras na esteira e acompanhava o
diálogo.
A jovem asseverou que acertei e
errei. Em que consiste a ambivalência contraditória, adorável senhora?
Acertou na diagramação, Sr. Acácio.
Tenho 26 anos e meu marido também. Errou na gestação. Não estou grávida. Quer
dizer, não garanto. Quem sabe não vêm quadrigêmeos por aí?
Ótimo. Mas use com parcimônia certas
brincadeiras verbais, haja vista a iminência de elas se tornarem reais. O que
quero dizer é que ondas cósmicas podem fazê-la mãe quádrupla. Cosmo e caos vivem
atentos às manifestações terrenas, minha jovem. Gostam de aprontar, na
linguagem infame das gírias. Fala e pensamento são os pais da concepção. Sempre
concebem algo, seja visível, seja místico. Podemos brincar com o visível, mas
nunca com místico. Misticismo e natureza não toleram jocosidades, minha jovem. O
misticismo ainda releva, mas a natureza logo destila vingança. Principalmente
se a jocosidade advier de injustiça.
Considere estes casos. Alcoólatra e
fumante, um amigo sorvia aguardente no meu terraço e jactava-se com tiradas
filosóficas. Falava da perfeição do corpo humano. Se sadios estiverem, nem
sabemos se portamos órgão tal e tal. Só lhes damos importância ao sentirmos
dor. Terei dedos, pés, braços, discursava e perguntava-se o ébrio e risonho amigo
galhofeiro. Nisso o misticismo trajou-se de distração e fez o amigo encostar o dedão
na brasa do cigarro. Tem dedo, sim, ironizei ao vê-lo assoprando a bolha
formada. Brincadeira tem hora, meus jovens.
De outra feita, eu trabalhava o cenário
mortífero de abastado fazendeiro que se suicidara numa casa de campo. Batia
fotos e chamou-me a atenção o estrilado de um grilo sobre um porta-retratos,
cuja moldura agasalhava um jovem casal tal qual vocês dois. Terminada a
inspeção, o grilo permaneceu sobre o retrato. Dado o intrínseco barulho do
ambiente, fiquei me perguntando por que o ortóptero não fugira. Tempos idos, o
inquérito policial apontou realmente autocídio. O caso seria arquivado. Mas a
cena do grilo me incomodava, entendeu, meu jovem? Pesquisei e descobri que o
casal emoldurado era a filha e o genro do de cujus. Não foi suicídio, falei
para o delegado, mostrando-lhe a foto. Algo que nos escapa deixou pista e alguém
dessa foto - ou os alguéns - ficou preocupado e mantém um grilo na cabeça. Esse
é o significado místico dessa foto, delegado. Há torcida para que não descubramos
que o decesso do fazendeiro não foi espontâneo. O delegado riu, mas, em razão
de minha insistência, foi a fundo no caso. Conclusão. Descobriu-se que o genro havia
envenenado o sogro. A natureza valeu-se
do misticismo para fazer justiça, minha jovem.
Que rápido! Já passaram tudo? Bom,
fiquem com o meu cartão. Precisando de mim é só ligarem. Terão a mercê um
criado.
Dados os apertos de mãos, Acácio
vira-se a fim de juntar-se à esposa, mas uma senhora interrompe a caminhada:
O senhor é filho de São Mateus e
vivia fora?
Ah, não! Chegamos hoje ao meio dia.
Somos da capital. Alugamos uma mansão na vertente sul da cidade e viemos
terminar de escrever um livro. Queríamos ficar isolados. A culpa de termos
escolhido são Mateus é do maravilhoso clima serrano de sua cidade, minha
senhora. Nossos filhos foram contra a ideia, alegaram a violência, mas comportamentos
ensandecidos passeiam em todos os lugares, não é certo?
É verdade. Mas tomado certos
cuidados...
Perfeitamente, senhora. Alugamos
uma casa muito boa. Rodeada de jardim, muro alto, cerca elétrica, sistema de
câmaras. Ideal para nos divertirmos com nossos animais e bastante segura. Destarte,
esperamos que os assaltantes locais nos deixem em paz à medida que nos tornemos
conhecidos. Afinal, somos tão somente um par de excêntricos e velhos
escrevinhadores.
Escrevinhadores de quê? Poesia, por
acaso?
Prosa. Versa sobre linguagem. É que
muita gente fala, fala, escreve, escreve e nada diz, minha senhora. Veja comentários
de matérias on-line e postagens em redes sociais. Linguagens empoladas, algumas
odiosas, muitas vazias, por vezes desaforadas e no mais das vezes
descontextualizadas acasalam-se numa promiscuidade sem limites. Quilométricos
períodos, incontáveis intercalações, catastrófica adjetivação, prolixas orações
e carradas de advérbios empurram-nos, lógica e evidentemente, para o poço sem
previsibilidade de fundo. Estamos apreendendo enxertos dessas disfunções e deles
escrevendo um romance. Tencionamos concluir em mais ou menos um ano.
Interessante. Sucesso para o
senhor. Agora me dê licença que vou passar a minha feira.
Acácio foi para o rabo da fila -
para o meio, na verdade, já que o rabo agora era novo - e voltou a papear. E
papeando chegou ao caixa. Passava um volume de goiaba, então a caixa o advertiu:
Chegaram goiabas fresquinhas,
senhor. Essas estão estragadas. Já deviam ter ido pro lixo. Quer que eu mande trocar?
Não, minha jovem. Obrigado. Deu-nos
bastante trabalho escolher essas para os humanos desaproveitadas. São para os nossos
sapos. Bufonídeos adoram frutos assim.
Ah, bom. Desculpe. O senhor cria o
que mais, afora cobras e sapos?
Criar não é a semântica apropriada
para o nosso caso, minha jovem. Criar implica socorros veterinários, herméticas
gaiolas, terrários, serpentários e nomes afins. Não usamos tais apetrechos. Não
ganhamos dinheiro com os nossos animais, tampouco nos são úteis para pesquisas.
Apenas gostamos de no jardim brincar com lagartixas gigantes, jararacas, cascavéis
e cururus. Há tempos nos deleitamos com eles, mas o jardim de nossa casa é de
dimensões raquíticas. O daqui é diametralmente oposto, além de ostentar frondosas
touceiras gramíneas, entendeu, minha jovem?
A caixa balançou a cabeça. Os olhos
se apitombaram. As mãos tremiam. Digitava os preços olhando para os pés. Bom,
passadas as compras, Acácio deu sonoro boa-tarde à fila e foi embora com a
esposa. Foram, mas o burburinho ficou.
Meses depois, tranquilidade
absoluta, Acácio e Socorro jogavam xadrez na calçada da rua, uma das rotinas da
tarde, quando o celular tocou. Era o marido da suposta gestante da fila.
Avisava que a mulher, Luísa, dera à luz quadrigêmeos. Acácio ia dar a nova à
Socorro, mas ficou estático com a ordem de dois assaltantes. Um de peixeira,
outro de pistola.
É um assalto. Entrem, coroas. Ligeiro,
ligeiro.
Calma, meus jovens. Fiquem
tranquilos. Podem levar tudo. Vou tirar do bolso o controle do portão, está
bem?
Acácio abriu o portão e acionou
vários controles remotos. O assaltante da pistola quis puxar o gatilho para
dois sapos-cururus que vinham pra cima dele, mas não deu tempo: desmaiou. Só
não se esborrachou na grama graças à agilidade de D. Socorro. O da faca soltou
estridente “ui” e caiu ciscando.
Nisso chega a polícia:
Sr. Acácio, Sr. Acácio. É a
polícia. Vínhamos seguindo esses meliantes. O senhor está bem?
Estamos bem, autoridade. Os
meliantes desmaiaram. Vou abrir o portão. O senhor vai dar de cara com cobras e sapos, mas
não atire neles. São brinquedos. São simulacros dirigidos por controle remoto.
Compramos no Paraguai. Vou abrir, autoridade.
A polícia entrou, a risadeira
também. Foi um soldado quem alertou:
Esse fedorendo aqui está desmaiado,
mas o da faca está tremendo e se acabando de febre. Olha aqui, sargento. Tem
sangue no rejeito. Picadura de cobra, sargento. Olha ali, olha ali.
Então todos viram uma cobra-coral
se enroscando numa touceira do jardim.
O sargento soprava o cano da arma e
comentava:
Nessa eu podia atirar, não podia,
Sr. Acácio?
Acácio ficou de boca aberta. A voz
o abandonava. Simplesmente pensava. Pensava em brincadeira, misticismo,
natureza...
Fevereiro/17,
TC
Nenhum comentário:
Postar um comentário