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Oi, pessoal,
Leiam mais um
texto de meu livro ainda sem nome. Cumpri uma das exigências das malucas
Silvana e Silvinha. Lembram-se delas? Espero que com um minuto de leitura
tenham percebido as atipicidades das piradonas.
Os Gatos I
Faz um mês que os vi.
Ele, na rua,
vê o gato branco que, do meio fio, o vê como pai. Ou será uma gata? Ah, são
dois. Um gato e uma gata. Ele faz festa para os belos. Beijou-os. Nossa, que
lindo. O trio está rindo! Senão, por que
a chama nas ventas, o fulgor nos olhos, o hirto nos pelos?
Eu, do outro meio
fio, faço dele uma cama, sento e me ponho a chorar, tal qual mãe de crias um.
Ele, pah! Bate
foto dos gatos.
Eu, também
pah! Bato foto dos três gatos. Três, pois o moço também é um lindo gatão.
O gatão não me
olha. Ou fez que não olhou. Sai rindo, andar lesto, senhor de si. Olhar de quem
viu e gostou. Até olhou pra trás!
Um dos gatos
fica calmo, dá dois cheiros nas patas e pisca pra mim. O outro, a gata, olha-me
e mia.
Fico triste,
se bem que a sorrir, pés presos, a mercê de sonhos.
Tola, tonta,
não corro atrás do gatão. A mente tira a ação que o corpo requer e me manda pra
casa. Não à casa do botão da blusa do gato senhor de si, mas sim o teto de meu
lar. Vou pra casa, mesmo sem o roçar da linha dele, mas com o coçar da barbela de
meu anzol. Vou pescar na cama, cama onde vivem meus planos, planos que me fazem
gemer, gemer de... Pois é. Gemer de.
Qual será seu
nome? Quantos anos terá? Vive de quê? Quando o verei? E assim, fé nos passos,
temor na sola dos pés, os passos iam. E vinha a fome. Fome de calor nas pernas,
de brasa nas coxas, de chamas nos pelos. E de suor, sim.
Não quero
saber disso. Quero mesmo
é vê-lo de novo, pegar na mão dele, olhar em seus
olhos. Falar e ficar muda. Ficar muda e falar. Gritar e calar. Calar e gritar.
Rir e chorar. Chorar e rir. São tais verbos – e os sem papa na língua - que há
tempo batem, às vezes de forma sutil, a porta de meu jovem prazer. Às vezes de
forma sutil, é certo, porque, na cena dos gatos, os verbos quase jogam a porta
no chão.
Nunca vi homem
mais homem. Homem mais lindo. Nunca me senti com mais fervor de ser mulher.
Mulher mais bife.
O que estou a
pensar, meu Deus? As normas lá de casa põem esse tema longe de mim. A crença de
meus pais veda visão tão viva: é feio. Coisa das não puras, dizem. Veda essa
vida, mas nunca levei isso a sério, já que o medo mental é meu mano. Mama em
minhas mamas. Mamas de onde levou um pé na bunda a falsa moral, tão logo me fiz
de gente.
Tenho 16 anos,
sei da força do sexo, mas não tinha noção de sua birra. Até brinco quando vejo alguém dizer que a
paixão não tem hora para surgir. Voto de gente besta, penso. Mas sinto no
vibrar do corpo e no clamor da alma a morte desse pensar.
Ah se o mundo
fosse só meu e de meu mito mortal, de coxas grossas, de bunda balão, de andar
viril, de braços fortes, de riso carnal.
Ah se o mundo
fosse só de nós dois. Nós dois? Ui! Farei do “dois” o norte das letras de minha
paixão febril.
Meu pai abre o
portão. Olho ao redor.
Meus Deus! Que
susto! Não fosse o braço de meu pai... Sabe quem tinha vindo no meu cheiro?
O gatão. O de
quatro patas. E a gata também.
Os Gatos II
Venho aqui
todos os dias. Aqui, ao lado desta casa de frutas, foi onde, um mês atrás, vi o
Fico. Dei-lhe o nome de Fico porque ficar com ele é o que mais quero na vida.
Ficar em termos de suar, visto que no sentir não saio dos braços dele. Nunca tinha
visto o Fico, mas foi só meu olhar bater em seu corpo para a paixão me picar.
O homem,
porém, não anda mais por estes lados. Será que não viu meu olhar pidão? Mas se
até pra trás olhou! Olhou por olhar ou por que teve de olhar? Mas se homem
algum me olha por olhar? Será do bairro? Se não olhou por olhar, por que não dá
uma de vivo e mostra as caras por aqui? Por que sumir assim?
Quem sumiu,
minha filha?
O Fico.
Perdão, Dona. Pensei alto.
Por favor, meu
nome é Gema, moça. Gema da Silva. Não me chame de Dona. Não sou tão velha. Esse
tal de Fico é o grande amor de sua vida, não é? Sempre quis saber a causa de
tanto pesar nessa face tão jovem. Vejo você todos os dias a esmo por estas
bandas. Como é seu nome?
É, Gema, você
está certa. O Fico é meu grande amor. Pode me chamar de Dalva. Veja a foto do
Fico. Já viu ele por estas bandas?
Não. Ele é lindo, Dalva. Quer um milho? Quantos
anos você tem? Quer me falar desse mal-estar?
16 anos, Gema. Quero o milho, sim.
Dei milho ao papo com a Gema. Contei tudo, tintim por tintim. Falei até
de o casal de gatos ter ido atrás de mim.
Estão na sua casa?
Estão. Chamo a gata de Simone e o gato de Simão. Nada me custa dizer
que amo eles.
Graças a Deus. Não parei de pensar neles em todos esses dias. Estão em
boas mãos, pelo visto.
Como assim não parei, Gema?
Sabe,
minha filha. Bom, os gatos são meus. O gato chama-se Cocó e a gata, Fifi. O pai
deles, Dalva, é tão sagaz quanto o gato de sua vida. Brigou com a mãe dos
filhos antes de ela parir e saiu de casa. Não deu mais as barbas. Nem carta
manda. Ao menos um e-mail ele passa. Nem um miau ele mia.
Digo sagaz, Dalva, porque, pode ficar certa, o gato de
seus sonhos também viu você. Ele viu a paixão em seus olhos. Está dando uma de
sonso. Homem é bicho tolo, minha filha. Mas, fique certa, um dia ele virá até
você.
Certo que o rapaz não sabe onde você mora, Dalva. Mas
pode muito bem vir atrás de você onde a viu no dia dos gatos. Sabe de uma
coisa, Dalva? Talvez ele more em outro lugar, quiçá em outro país. Já pensou
nisso? Será que não mora no Brasil? Se assim for, está até bom, Dalva, pois de
Cusco ao Brasil é um pulo. De gato, é claro.
Ri da prosa de minha guia. Carta, e-mail? O gato da
Gema não era flor que se cheire.
Gema também
riu, mas logo ficou triste. Depois voltou a rir por causa de minha frase:
Quero que vá
pegar os gatos. Vou morrer de pena, mas não é justo...
Nada disso,
Dalva. Os gatos são seus, meu amor. Mas irei vê-los todos os dias. Nós duas
vamos cuidar deles, tá?
E assim ficou
sendo no dia a dia.
Dalva veio pra
casa com Gema, fez do caso um conto e postou no blogue dela, o P de Ouro.
É isso.
Viram,
não viram? O conto foi escrito só com monossílabos e dissílabos. Cada leitor,
dizem os literatos, vê um texto de certa forma. Aqui, alguém pode ter visto
lirismo, alguém pode ter visto a determinação amorosa da Dalva, alguém pode ter
visto alfinetada no falso moralismo, alguém pode ter visto apologia do sexo, alguém
pode ter visto apenas um amontoado de palavras e pronto.
Escrevi-o
como um texto de entrelinhas. Seguinte. Dalva (Lindalva) tem um grande amor no
Brasil (Francisco, o Fico). Amantes da literatura, Lindalva sempre dizia que quando
criasse um blogue daria a ele o nome de P de Ouro. Ocorre que Lindalva comete
um crime e foge, gestante, do Brasil. Crime de repercussão internacional, a
polícia fica doida para apanhá-la. Mas, esperta toda, Dalva consegue parir numa
boa. Daí...
Daí
que, na esperança de que o Fico se lembre daquelas conversas e procure o P de
Ouro no Google, Lindalva escreve um conto a fim de lhe dizer que está morando em
Cusco, no Peru, que há um mês teve gêmeos, Simone e Simão, que uma amiga, Gema,
a ajuda nas tarefas de casa, que o ama, que, que, que...
Bom
leitor – e bom amante –, Francisco deve ter notado o texto de duas sílabas, a
cara da Lindalva. Lindalva adora o número dois. Nas horas das brincadeiras, Francisco
costumava brincar com a parceira: chamava-a de Senhora Dois, tal o apego dela
por esse numeral.
Francisco,
o Fico, vai atrás da Lindalva, a Dalva, não acham?
Com
dissilábicos beijos nas gatas e monossilábicos abraços nos gatos (não sou
machista, gente. Isso é só para descontrair, tá?),
Setembro/17
TC
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