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Olá,
gente,
Leiam
o quarto texto para o meu próximo livro. Sugestão das parteirinhas sacanas. Lembram-se
delas? O primeiro texto foi escrito sem o “a”, o segundo sem o “e”, o terceiro
só com monossílabos e dissílabos, o quarto... Bom, espero que descubram a
atipicidade logo no primeiro parágrafo.
Um
abraço,
TC
A CONSULTA DO SOBIÃO
Chega, faz que não me vê, entra de
casa a dentro, não fala com ninguém, pega um litro de uísque, gelo, caju, vem
pra área, fica de cócoras, toma um gole do uísque, dá uma dentada no caju e
cospe o azedume:
Tá bom de lavar essa rede, TC. Tá
fedendo pra burro.
Faz isso uma vez por semana. Dizem
que é pinel. Não é verdade. Apenas dá uma de. Meu primo Bião – Bião S, como
gosta de se apresentar - é muito é do sabido. Ontem, Bião não feriu a insanidade.
Pelo contrário: acarinhou-a com tremenda gargalhada, seguida da ordem:
Tá vendo este celular, TC? Tem um troço
inusitado aqui, mas você só vai ver se tomar uma comigo.
Coisa de mulher, pensei, indo pegar
um copo. Emborquei uma dose sem gelo.
Ficasse todo assanhadinho, né, TC?
Não é coisa de mulher, não, seu depravado. Escute, disse, ligando o áudio do
celular:
Consultório do Dr. Pegado, bom dia.
Bom dia. Gostaria de marcar uma
consulta.
Qual é seu plano, senhor?
Tenho vários, moça. Ganhar na Mega-Sena
e pegar umas belas que não me saem da cabeça, por exemplo. Mas, no momento, meu
plano é tirar um grilo da cabeça superior.
Nossa! Mas qual é seu plano de
saúde, senhor? Informo que Dr. Pegado está com a agenda cheia até três meses na
frente.
Nossa! Três meses na frente? Não
podia ser... É muito, moça. Como lhe disse, meu plano de saúde é tirar o grilo
da cabeça. Queria uma consulta particular pra hoje. Mas...
Deixe-me ver aqui. Ah, tem uma
desistência. Duas horas e seis minutos da tarde. Como é seu nome?
Bião S.
O nome completo, senhor. S de quê?
De Silva.
Só Bião Silva, moça.
Entendi. A consulta está marcada.
Duas e seis da tarde. Trezentos reais, viu?
Vi. Obrigado, atendente.
Aqui Bião deu uma parada no áudio,
deu uma golada no uísque (eu também) e deu uma risada:
Duas em ponto eu estava lá. Paguei no
dinheiro. Peguei o recibo e sorri. Entrei rindo no consultório, TC, com o
anúncio. Ouça, pediu, religando o áudio:
O Sr. Sobião Silva vai estar
entrando, Dr. Pegado.
Quando vão deixar de perseguir o
Lula, meu Deus. Ô povinho! Mas vão explodir com este comentário. Ah, como vai,
Sr. Sobião?
Nessas alturas, TC, eu já estava
aguando meu pezinho de raiva. Veja. A atendente preenchia o recibo com um olho
no celular e outro no computador. Aí entro no consultório e me deparo com o psicólogo
gastando a vista no celular, nele alisando os dedos e passando um tempão para mexer
a língua no “Como vai, Sr. Sobião”. E ainda comentou o comentário jogado na
rede. Ressabiado, falei assim:
Mais ou menos, doutor. Mas meu nome
é Bião Silva. A atendente equivocou-se ao digitar o nome e botou esse “Só”
antes do Bião.
Equivocou-se não. Ocorre que, na
primeira consulta, alguns pacientes costumam vir acompanhados. Gosto disso, já
que os íntimos me dão informações involuntárias. Naturalmente que se retiram na
hora da consulta em si. A atendente, portanto, não se equivocou. Apenas
informou que o paciente estava vindo só. Se viesse acompanhado, seria anunciado
como Acobião Silva. Entendeu, Sr. Sobião?
Acredito não, Bião. O psicólogo
estava brincando, não?
Pior que não, TC. Se não bastasse a
imbecilidade da justificação do “só”, o cara permanecia com a atenção grudada
no celular. O psicólogo tem um xodó com a idiotice, TC. É um mal-educado
perfeito. Mas a prova das provas do xodó com a idiotice veio logo em seguida.
Falar em xodó, sabe o que penso, TC?
As redes sociais vivem de xodó com a Educação brasileira. Pegou a capenga
Educação e... Capenga, sim, TC. Certa turma – mas grande, por sinal – sai da
escola não sabendo distinguir causa de consequência, confundindo deve com pode,
embaraçando versão com fato. Analfabeto em leitura do mundo, esse pessoal cruza
os dedos para a semântica, faz figa para contextos e estira a língua para entrelinhas.
As redes sociais perceberam isso, foram se achegando, comendo pelas beiradas, e
pimba. Hoje, TC, redes sociais e Educação dormem juntas, trocam cafunés, dão
bananas à eficiente comunicação e distribuem maledicências.
Mas existe muita coisa boa nas
redes sociais, Bião.
Tá vendo você! E eu disse que não?
Disse apenas que a Educação é capenga, que aprova alunos bisonhos e que as
redes sociais deitam e rolam em cima da capengante. Entenda, TC. Não
generalizei. Falei de certa turma. Mas existe uma turma, principalmente das
antigas, que conhece o poder das palavras. É a palavra o afrodisíaco entre a
duplinha Educação e rede social. É por meio da palavra que se dá a troca de
cafunés. Estimulada, por vezes, pelo caráter sacana do suposto educado.
Palavras são como abelhas, TC. No devido lugar, bem aconchegadas, produzem o
mel da meiguice. Agredidas, saem mundo a fora distribuindo o fel da ferroada.
Entendeu ou quer que eu desenhe, TC?
Quero o desenho. Como gosto de
rede, desenhe uma florida, pinte de vermelho os punhos da intriga e de verde os
cordões da integridade. Mas antes de desenhar, TC, quero que deixe de arrotar
asneiras. Arrote e cuspa a tais provas das provas da idiotice do psicólogo.
Pois então. TC, cara, em cima da
mesa do idiota tinha uma revista. Eu lia que lia uma manchete e não entendia. A
manchete era Ensino público religioso poderá ser
confessional. O bicho percebeu a minha atenção na manchete e soltou
o pecado, ainda me chamando de Sobião, pode? Escuta só:
Boa notícia, não é, Sr. Sobião? Os
padres é que não vão gostar.
Padres? Não entendi essa chamada,
doutor.
Ué! Decisão do Supremo Tribunal
Federal, Sr. Sobião. Por seis votos a cinco, o STF permitiu que as escolas
coloquem confessionários em suas salas. Daí que o aluno religioso deve se
confessar com o professor da preferência dele.
Que é isso, Bião! Acredito porque
ouvi. Pegasse ar e fosse embora, não?
Não, TC. Nessas alturas, estava
adorando a conversa. Ele é que foi direto para a consulta. Veja:
Bom, o que o senhor está sentindo?
O senhor veio se consultar...
Não é bem uma consulta, Dr. Pegado.
Quero bater um papo com o doutor. Papo que podia muito bem ser com os colegas,
numa mesa de bar, mas aí o pessoal iria levar na brincadeira, pegar no meu pé e
coisa e tal. Então preferi bater esse papo com um especialista nas coisas da
mente e da alma.
Fez o certo, Sr. Sobião. Quer que
eu mande pegar uma cerveja?
Precisa não, doutor. Seguinte. De
uns tempos pra cá, comecei a simpatizar com homens. Assim com outros olhos,
achando-os interessantes, charmosos. Acho que estou me bandeando pra esse lado,
se é que está me entendendo, doutor. Mas, em certos momentos, a minha vontade é
de matá-los. Se tivesse uma arma nesses momentos... Assim, doutor, ora quero dar,
ora quero matar.
Nisso, TC, o infeliz fecha a cara e
começa a bater foto de mim. Escuta o final:
O que está fazendo? Pra que essa
danação de fotos, doutor?
Pronto. Já botei no grupo. Entendi tudo,
Sobião. É uma pegadinha. Você não vai pegar nenhum psicólogo com essa conversa
mole. Você é um espião do Conselho de Psicologia. Não tem nada de gay. O que
você está querendo é identificar os psicólogos dispostos a curar gay. Identificar
e pedir a expulsão deles.
Cura gay, entendeu, Sobião?
Não sou espião de ninguém, Dr.
Pegado. Agora, antes que me esqueça: vá tomar no fiofó, vá!
Nossa, que homem mais mal-educado. Vá
você, Sobião. Vá, porque, no fundo, e se eu estiver enganado, isso é que o
senhor quer.
Outubro/17
TC
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