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SENSAÇÕES E CONEXÕES
Começou pela curiosidade. Em segundos, chegou
a imaginação.
São esses comandos que concebem tudo na
vida. Somos paus-mandados dessa dupla. O momento em que uma ou outra nos visita
é que oscila, embora a curiosidade costume se adiantar. É bom ficar ligado
nessa duplinha, já que é ela quem transporta a matéria prima do futuro.
Assim como não devemos confundir mapa
com território, aparência com realidade, sensação prazerosa com prazer, convém distinguir
matéria prima do futuro com o futuro em si. Percorrido, o mapa será território;
comprovada, a aparência transforma-se em realidade; manipulada, a matéria prima
vira produto, que vive matéria prima, que vira produto, que...
Mas a confusão maior do ser humano consiste
em confundir sensação prazerosa com prazer. Existe apenas um prazer na vida.
Único, divino, multiplicador, extremado. Assim é ele. Genericamente, chama-se
fluxo imaginativo de vivências o processo pelo qual um estímulo externo ou
interno desencadeia percepções de raro bem-estar. E o resultado desse processo chama-se
sensação prazerosa. Sensação prazerosa e não prazer, repita-se, já que este é
único, repita-se por oportuno. Contraditório, só o prazer
é capaz de gaguejar, simultaneamente, sons de sofrimento e de júbilo.
Prazer tem sinônimo único: sexo. Sensação
prazerosa tem teatro, esporte, música, alimentação, bebida...
Cada pessoa é única. O que as diferencia
é o tanto do quanto e o quanto do tanto de certas coisinhas. Coisinhas como egoísmo,
especulação, crença, instrução, aspiração, conveniência. Conduzidas nos caçuás
da curiosidade/imaginação, essas coisinhas chegam à feira, também conhecida por
sociedade, e materializam-se num produto chamado interesse. Aqui a dupla propulsora
se afasta e passa o bastão para os humanos. Afinal, somos os caras.
Agora se acaba a representação mental e
se dá importância às coisas ou não. Ter consciência desse caminho não altera os
índices da Bolsa de Valores, mas pode balançar os dos nossos valores.
É na feira livre que a vida começa. É nela
que se oferecem as conveniências, que se compram e se vendem as vicissitudes e que
se rearrumam as sacolas mentais. É nela que o prazer – sexo - e a vontade
explícita – interesse - empurram a roda do mundo. Ventura ou desventura vai
depender do tanto do quanto e do quanto do tanto daquelas coisinhas que cada um
tiver agasalhado na sacola, cujo fundo é extremamente frágil. De mais a mais, todo
cuidado é pouco a fim de que tal agasalhamento não seja acompanhado por obsessões.
Há que se respeitar os limites. Sejam morais, sejam legais. Precisa se ter em
conta que sexo é obcecado pela luxúria e que interesse é obcecado pelo poder.
Está na hora, gente, de justificar esse
besteirol filosófico.
Quem o teceu foi o velho Mião. Mião olhava
a rua por meio do sistema de câmaras da casa. Passavam minutinhos das seis
horas da manhã. Mião estava intrigado com a enorme caixa no calçadão da casa. Quem
pusera aquilo lá?
Nisso, um casal vai passando, olha pra
caixa, diminui os passos e volta em segundos. O velho, então, começa a cozinhar
o xarope acima. Felizmente durou pouco tempo. Mião brecou as ideias quando
lindíssima morena se juntou ao grupo que estava se formando no entorno da
caixa.
Linda toda. Parece artista de televisão,
resmungou. O velho Mião costuma brincar quando os amigos o chamam de velho
tarado. Sou como trocador de cavalos das antigas feiras do interior, meus
amigos. Não compro, mas boto preço, diz ele.
Mião observava. Pelo visto, liam algo na
caixa. Todos ficavam distante dela e mostravam cara de pavor. Algumas pessoas,
porém, passavam ao largo, com gestos de indiferença, como a provar que nada tem
importância, exceto aquilo a que importância se atribui. Certo é que a calçada
estava apinhada de gente.
Mião saiu pra rua. Foi abrindo o portão,
lendo NÃO ME TOQUE. CHOQUE FATAL e ouvindo o atropelo de vozes:
-
Misericórdia. Quer matar o povo, é?
-
É sua?
-
Tem uma criança chorando e rindo.
-
E uma mulher que fica rindo e chorando.
-
Pelas chicotadas, parece que tem um bocado de cobras.
-
Tem hora que brigam. É uma gritaria só.
-
Calma, gente. A caixa não é minha. Estou tão surpreso quanto vocês. Deve
ter uns dois metros de comprimente por um de altura. Parece de aço, não?
Ouviram vozes mesmo?
“Ouvimos, sim. E é de aço puro, Seu Mião”,
disseram os vizinhos.
-
Caramba! Vou ligar pros bombeiros.
Não precisou. Alguém se antecipara. Já
se ouvia a sirene dos bombeiros. E grupos do WhatsApp informavam que semelhante
caixa aparecera no centro da cidade.
“Os senhores garantem que as vozes vinham
da caixa? Estamos aqui há cinco minutos e nenhum som saiu dela”, disse um
cético bombeiro, ao mesmo tempo em que recebia de um colega a informação de que
a caixa estava realmente dando choque.
“Então! É impossível ter alguém aqui,
pessoal. Ouviram a vizinhança, gente. O vento trouxe os sons. A pergunta é:
quem botou essa maldita caixa energizada aqui. Uma operação dessas leva, no
mínimo, meia hora. O senhor é o dono da casa, não é? Estou vendo que têm câmaras.
Podemos dar uma olhada?
Iam se afastando quando ouviram
inconfundíveis e monossilábicas palavrinhas de sexo. Voltaram ao meio de risadas
e jocosas expressões concernentes ao primitivo ato. Dois minutos de espera e
som algum se escutou.
“Não estou dizendo? O som saiu dali”,
falou o bombeiro, apontando para um primeiro andar vizinho.
Foram pesquisar as câmaras. Mas o cético
bombeiro teve de engolir:
“Então por que voltou nas pontas dos
cascos”?
Ajustaram as câmeras para as duas horas
da manhã. Nada de caixa. Das duas às quatro também nada. Das quatro às cinco nada
também. A caixa apareceu entre as cinco e seis horas. Espremendo, espremendo
chegaram ao inacreditável. Às cinco e trinta e dois as câmaras funcionavam. Às
cinco e trinta e três eram só chuviscos. Às cinco e trinta e quatro estavam
funcionando. E a caixa apareceu.
“Pelo
amor de Deus, Sr. Mião. Gastaram apenas um minuto para pôr a caixa”,
espantou-se o boquiaberto bombeiro, ligando para os superiores.
Voltaram para a calçada. Não ouviram as
perguntas dos circunstantes porque um carro de som acabava de ali estacionar.
Anunciava a estreia de um espetáculo circense. Dele desceram dois palhaços e
começaram a distribuir ingressos. Uma moça da plateia (a linda do Mião) começou
a manusear um controle. A caixa foi se abrindo, expondo vários alto-falantes, e
se transformou numa TV.
Enorme telão, com trilha sonora de
música clássica, mostrava deslumbrante espetáculo. Bailarinas, bailarinos,
trapezistas, palhaços. Os olhares não paravam numa sequência. Babas escorriam, e
a calçada ia se enchendo de queixos. Os bombeiros puseram nas mãos o capacete.
Mião matutava: é verdade. Há de tudo
nesta feirinha. Faltou apenas a conveniência. Pensou e pensou em oferecer um
cafezinho à linda jovem do controle. Ah quem lhe dera o prazer... Mas
experimentou frustrante sensação ao olhar para as pernas dela. Então pensou
melhor e achou conveniente desistir da oferta.
Dez minutos durou a apresentação.
Terminou com as garrafais na tela:
MÁXIMO DE ENTRETENIMENTO E TECNOLOGIA, O
SENSAÇÃO CIRCO ESTREIA SEXTA-FEIRA NESTA CIDADE. UM BEIJO E ATÉ LÁ.
A jovem mexeu nos controles, o telão se
encolheu e virou uma maletinha. Ela a acomodou nos seios, juntou-se aos dois palhaços,
encurvaram-se em mesuras e subiram no carro de som.
Subiram sob aplausos.
Bom espetáculo e faiscantes sensações
prazerosas.
Março/18,
TC
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