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A VERDADE, O POÇO E OS DEUSES
Olá, pessoal,
Quem é vivo aparece, né
não?
Li o texto abaixo no
facebook da amiga Pollyanna, com comentário da Ednalva, e me deu vontade de aumentá-lo.
Coisa de gente besta. Leiam o texto dela e passem os olhos no meu. Ou leiam
apenas o dela, é claro.
Segundo uma lenda do
século XIX, a Verdade e a Mentira se encontram um dia. A Mentira diz à Verdade:
"Hoje é um dia maravilhoso!" A Verdade olha para os céus e suspira,
pois o dia era realmente lindo. Elas passaram muito tempo juntas, chegando
finalmente ao lado de um poço. A mentira diz à verdade: “A água esta muito boa,
vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e descobre que é realmente está muito gostosa. Elas
se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água, veste
as roupas da Verdade e foge.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.
A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta.
O mundo, vendo a verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva.
A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo nele sua vergonha. Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua.
Acontece que a história
não acaba assim, nobríssimas Pollyanna e Ednalva. Sucede que uma galera grega,
liderada pelo Sócrates, fez mil e um encontros a fim de resgatar a Verdade. Esse
povo era obcecado pela verdade, sabem vocês, não? Resgatar não é bem o termo,
já que, na verdade, eles não sabiam que a nossa amiga se encontrava num poço. Portanto,
queriam encontrá-la, não a resgatar. Pois bem, num desses panegíricos, chega a
Aleteia, a filha mais nova do Zeus. Aleteia, sabe, né, Pollyanna, sabia de
tudo. O problema dela era o irmão, o tal de Pseudólogo, vulgo Dolo. O bicho era
nó cego. Aqui, acolá, queria passar a perna na irmã. No sentido figurado,
entenda, Polly. Bom, aplausos, beijinhos
e a pergunta do Aristóteles:
E aí, Aleteia, dás
notícias da Verdade?
É claro, Ari. A Verdade
está no Brasil. Numa cidade por nome Natal, num poço chamado Dentão. Local praieiro,
perto do Forte dos Reis Magos.
Aleteia deu a informação
e detalhou a história que a Pollyanna postou, entendeu, Ednalva?
Logo no Brasil? Misericórdia!
Não acredito. Puta que pariu, porra, cacete. Esses foram os palavrões mais
palavrinhas, garotas. Eles supunham a Verdade ali pela Grécia, Roma. Naquele entorno,
afinal. Sim, a Aleteia narrou o episódio do entrevero da Verdade com a Mentira,
mas incorreu em brutal equívoco. Influenciada pelo irmão, o Dolo, é verdade. Aleteia
disse que a Mentira tinha sete pernas. Mentira. Na verdade, a Mentira não tem
pernas. Tem asas. Mentira voa, gente. Certo é que começa ali o dito de que sete
é conta de mentiroso.
Pois muito bem. Os caras,
os gregos, gostariam
muito de resgatar a Verdade, mas, numa pindaíba desgraçada,
não podiam vir ao Brasil. Filósofos, Pollyanna, vivem sempre lisos. A não ser
que sejam também outras coisas, tipo escritor, astrólogo etc. Daí que, por
sugestão do Sócrates, passaram a bola para os brasileiros. Bola não, mandaram
um zap descrevendo tudo e pediram que os colegas daqui fizessem vir à tona a infeliz
Verdade. Nasce desse zap, Ednalva, a expressão “A verdade vem à tona”.
Então o que acontece. O
pessoal a quem Sócrates e galera pedem o favor não são filósofos. São deuses da
mitologia brasileira: deus Irjá, deus Ogirdor, deus Ovalu, deus Alul, deus Airod
e a deusa Amlid. E deuses são diferentes de filósofos, Pollyanna. Filósofo pensa,
deus é penso; filósofo é cético, deus e séptico; filósofo é assim, deus é
assado. Mesmo assim, os deuses acolheram a missão.
Missão pra lá de nobre,
televisão do mundo inteiro noticiando o inusitado, quem não aceitaria? Começam as
reuniões, discussões, estratégias. Na quinto encontro, apenas uma definição: a
deusa Amlid entregaria as vestes à Verdade. Não cairia bem, afinal, um marmanjo
entregar calcinha e apetrechos diversos a uma dama. De mais a mais, a Verdade costuma
ser escandalosa. Você tem mais jeito pra isso, Amlid, foi a sentença unânime.
Na sétima reunião,
restava definir somente um ponto, Pollyanna: quem entraria no poço para subir
com a Verdade. Povinho medroso, viu? A foto seria histórica, mas o medo os
imobilizava. Aí o Alul apresentou a salomônica saída:
Vamo (ele tem uma rixa
com o s, Ednalva) decidir na porrinha. A gente joga na beira do poço. Quem ficar
por último pula nele e sobe com a Verdade.
E assim se deu. Melhor, dar-se-ia.
Cinco horas da manhã do dia seguinte estavam na beira do poço. Imprensa
isolada, palitos nas mãos, mãos pra trás, queixos batendo, suor frio, e eis que
o mundo assiste a um helicóptero pousando. Desce um moço barbudo e se põe a balançar
um papel e a gritar: parem, parem, parem. Vinha com a ordem judicial para
suspender a operação, Pollyanna. O juiz plantonista do Supremo Tribunal de Factoides
(STF) aceitara a tese da Empresa Brasileira de Unificação de Entulhos (Embrulho),
segundo a qual os entulhos marinhos só podem ser retirados com dados de
localização autorizados pela Justiça. Como a localização da Verdade fora feita
com dados compartilhados, a operação estava suspensa, entendeu, Pollyanna? Cancelada
definitivamente, aliás, pois havia o agravante de que as informações haviam
sido compartilhadas por suspeita associação filosófica do exterior, a Verdades Advindas
do Silogismo (Veras).
Vão recorrer, quiseram
saber os jornalistas.
Estou me convencendo de
que dessa vez a Justiça está certa, respondeu o deus Alul. Respondeu e recebeu vertical
e eloquente balançado de cabeça dos deuses colegas.
Terminou assim o imbróglio
daquelas duas, Pollyanna. Pelo menos foi o que o Esopo me segredou.
Julho/19
TC
2 comentários:
Grande Tião!
Poderíamos incluir, por ocasião da formação do Tribunal de Recursos da Veras (TRV) a plateia composta de assistentes, entre tantos Esielg, Iraccav, Uesrid gritando "SOLTEM O BARRABÁS"
Um abraço deste seu admirador
Flavio
Grande, TC! Pois é, quanto menos se pensa e se sente, mais difícil se torna para a verdade vir à tona, favorecendo ainda mais à (des)humana e danosa mentira.
Braços!
Zé Alves
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