Meus cumprimentos,
nobres amigos.
Escutem só. Há poucos
dias, no texto do “ELA”, disse-lhes que meu primo Bião havia me visitado e que
o peste costumava me presentear com as prosinhas dele. O feioso Bião se
autodenomina de Intuitor porque, segundo ele, é capaz de saber de tudo, em
todas as dimensões, em todos os tempos. Onividente é a palavra de que mais
gosta. “O escritor comum é onisciente, onissapiente e outros ‘entes’, mas
carente, Tião, da amizade com a intuição. Amizade de conversar, não de apenas
ouvi-la. Porque bato papo com ela, tenho acesso a tudo e a todos, Tião.”
Confesso, meus nobres, que não entendo bulufas do que o Bião fala, mas balanço
a cabeça a concordar com ele.
Bião já pegou no pé de
políticos, da galera do futebol, da turma de jornalistas. Agora o bexiguento
deu pra encarnar nos escritores. A moçada das letras que se cuide. Há muitos
textos inacabados, segundo ele. “Incompletos, vistos não terem sido publicados,
mas disponíveis para gente de minha estirpe”, diz ele. Sabem com quem o cara
acabou de mexer? Ninguém menos do que o Machado de Assis. Já imaginou o Bião
completando um texto do Bruxo do Cosme Velho?
Bom, vou postar uma
lorota do Bião. A lorota é sobre a “A Carteira”, maravilhoso conto do Machado,
que, segundo o maluco do Bião, o Mestre publicou-o mutilado. “A Carteira” fala
do Honório, advogado que encontra uma carteira de cédula cheia de dinheiro.
Honório descobre que a carteira é de um amigo, o Gustavo. Gustavo vem a ser...
Farei o seguinte.
Postarei a “A Carteira” na íntegra. Abaixo dela eu posto o arremate do Bião,
combinado? Ler o Machado é um deleite. Quem já conhece a Carteira terá o prazer
duplo. Quem não a conhece verá o que é uma prosa de verdade.
Valeu!
Machado de
Assis
A CARTEIRA
...De repente, Honório olhou
para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de
alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja,
e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
- Olhe, se não dá por ela; perdia-a
de uma vez.
- É verdade, concordou
Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade
desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida,
quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida
não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as
quantias
são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma voragem.
- Tu agora vais bem, não?
dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.
- Agora vou, mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal.
Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraça perdera
ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanças. Não só recebeu
pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em
todo caso, andavam mofinas nos jornais.
D. Amélia não sabia nada; ele
não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém.
Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o
Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele
respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que
D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível
prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo
dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos
molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
- Nada, nada.
Compreende-se que era o medo
do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A
idéia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta.
Estava com trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os
princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou:
emprestado, para pagar mal, e a más horas.
A dívida urgente de hoje são
uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a
conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a
faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e
Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado
de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da
Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi
andando.
Durante os primeiros minutos,
Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca.
No Largo parou alguns instantes, - enfiou depois pela Rua da Carioca, mas
voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco
no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café.
Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de
abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao
mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência
perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava
com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura.
Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A
consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à
polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os
apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira.
Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém
iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a
carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas;
abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu
duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinqüenta e vinte; calculou uns
setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram
menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos,
correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia
consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de
contar o dinheiro. Contar para quê? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram
setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio. Ninguém viu, ninguém
soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo... Honório teve
pena de não crer nos anjos... Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao
dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar
do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira
algum sinal.
“Se houver um nome, uma
indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro,” pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da
carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por
fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?...
Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior;
achou mais dois cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o.
Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso,
doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo
levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem
reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou
para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele
resistiu.
“Paciência, disse ele
consigo; verei amanhã o que posso fazer.”
Chegando a casa, já ali achou
o Gustavo, um pouco preocupado, e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou
rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
- Nada.
- Nada?
- Por quê?
- Mete a mão no bolso; não te
falta nada?
- Falta-me a carteira, disse
o Gustavo sem meter a mão no bolso. Sabes se alguém a achou?
- Achei-a eu, disse Honório
entregando-lha.
Gustavo pegou dela
precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório
como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um
triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a
achara, deu-lhe as explicações precisas.
- Mas conheceste-a?
- Não; achei os teus bilhetes
de visita.
Honório deu duas voltas, e
foi mudar de toilette para o jantar. Então Gustavo sacou novamente a carteira,
abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis
abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em
trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.
&&&&&&&&&
“Meu caro Bião, o Mestre Machado não contou a história
completa”, assim me falou a intuição. Sucedeu o seguinte, Tião. Com essas
palavras, o Bião revelou o fim da história inicialmente relatada pelo Bruxo de
Cosme Velho. Com a palavra, o Intuitor Bião.
Honório tinha agudeza de espírito. Agudeza que foi
despertada pelo olhar julgador do Gustavo. Então o Gustavo estar a refletir que
tirei algumas notas da carteira? Que olhar mais desconfiado? Honório pisou nos
calcanhares, deu duas voltas e voltou a tempo de ver a senhora dele rasgando o
bilhetinho. O rasgado do papel, acompanhado do risinho de satisfação dos dois, aplicaram-lhe
mais um golpe de estilete.
- Rasgas, por acaso, um dos escritos da carteira do Gustavo?
- Sim, amado Honório. Um dos cartões de visita estava
imundo.
Não foi o que pareceu ao Honório. Os cartões estavam bem
arrumadinhos e asseados; por que o Honório se daria à labuta de mandar a Amélia
picotar um deles? De mais a mais, os cartões de visita são duros, diferentes
dessas aparas vindas do que a Amélia picotou. Eis o primeiro ponto. Depois,
quando cheguei, o Gustavo e a Amélia me pareciam torturados. Podia ser por
causa da perda da carteira, mas por que ao esgravatar se lhe faltava alguma
cousa o Gustavo não me respondeu logo o sim? “Nada”, disse ele. Nada? Depois do
meu nada e de dar-lhe a sugestão para meter a mão no bolso foi que ele me disse
que lhe faltava a carteira. Eis o segundo ponto. Pontos de discórdia, que levam
a pensamentos de suspeição, que transformam bem-aventurança em malquerer.
A satisfação dagora terá sido apenas pelo achado da
carteira? Ou terá sido pela virgindade de alguma cousa que não foi tocada?
Honório tinha medo de continuar pensando. O homem é bom ou mau, as
circunstâncias é que o farão. E as circunstâncias de hoje estavam a empurrar o
Honório para as labaredas do ódio.
Primeiro, o avarento do Brás bota a mão no queixo, olha-me
com se estivesse me cubando, faz um riso sem graça e me diz que a cousa tá
ficando madura. Como se os quatrocentos e quarenta mil-réis que lhe devo fossem
uma fortuna pra ele. Agora vem o Gustavo e mira-me com gestos de reprimenda ao
lhe entregar a carteira. Em seguida a Amélia mente e diz que está rasgando o
cartão de visita, quando o papel do cartão é muito diferente dos rasgadinhos
dela.
Honório olha pro Gustavo e o vê com a cabeça, fazendo as
vezes de rabo, socada entre as pernas. Muda a vista pra Amélia e a vê
amarelada, porém tranqüila. Que desavergonhada! Tudo ficava evidente ao juízo
do Honório. O que a Amélia rasgara fora um bilhetinho de amor. A Amélia era uma
tremenda banda-de-esteira, era nada mais nada menos do que espingarda do
Gustavo.
Tinha o dedo do Gustavo as dificuldades porque estava
passando. Perdera aquela questão que parecia ganha devido às informações dadas
pelo Gustavo ao causídico da parte opositora. Sua glória jurídica estava
morrendo por causa do amigo. Tomara-lhe a fama e tramava subtrair-lhe a mulher.
Por isso o Gustavo fica se derretendo com as músicas alemãs pianadas pela
Amélia. “Bravo”, repetem ele e meu cunhado, o Cosme, quando a Amélia termina
uma melodia. Hoje porei um fim nisso tudo.
Honório pensou em ir à cozinha pegar o facão que lhe
auxiliava na função de jardineiro. Deu um passo pra frente, mas retrocedeu.
Sabia ele que pensar com a mente diluviada de ira distorcia a conclusão, pois o
veredicto sempre terminava no que se queria. Retrocedeu, mas o discurso da Amélia
fê-lo decidir pelo facão:
- Devemos-te uma explicação, meu amado Honório.
Desculpe-nos. Teu olhar para esses pedacinhos de papéis diz tudo, meu amado.
Espero que sejas menos machista e entenda a situação. Enquanto ordeno esses
papeizinhos, por que não vais à despensa e traz um vidrinho de resina e um
pedaço de papelão?
Honório balançou a cabeça. Trouxe os objetos e o facão
escondido no espinhaço.
Amélia começou a esfregar a resina no papelão e a colar os
pedacinhos de papel. Honório contemplava o Gustavo, que de rabo entre as pernas
mais covardia exalava. Voltou a vista para o ajuntamento de palavras que a
mulher estava montando. Que grande vadia! Agora tenho certeza de que palavras
matam. Amélia está fabricando o caixão dela e o do amante. Arriscou uma olhadela na montagem. “Do seu
Gustavo”, conseguiu decifrar. Honório pôs a mão nas costas, alisou o facão.
“Não posso fazer isso. Lava a tua honra.” Essas eram as conflitantes vozes que
lhe azucrinavam os ouvidos.
- Pronto, amado. Leia. Tenha calma, Honório.
Honório, trêmulo, arrebatou o papelão das mãos trêmulas da
Amélia:
Querido Cosme,
Não podemos nos encontrar conforme o
combinado. Somente agora, perto das cinco, a megera de minha mulher me disse
que havia se comprometido com um jantar na casa de amigos. Tenho um presente
pra ti, afora o de praxe. Imploro-te compreensão.
Te amo! Do seu,
Gustavo.
- Mas... Mas... Mas...
- Gustavo, amado Honório, traz esse bilhetinho a fim de que
eu o entregue a meu irmão, ao Cosme. Quando ele chega aqui se dá conta de que tem
perdido a carteira. Entregas a carteira a ele. Ficamos apreensivos porque
desconhecemos se tens batido com os olhos nestas palavras. Vejo-te nervoso, a
pensar besteiras, então começo a rasgar o bilhetinho com o intuito de eliminar
pistas eróticas. Tu voltas e flagra-me na mentira. Por isso, amado Honório,
precisei refazer a cartinha. Assim eu te provo...
- Mas... Mas... Mas... Isso quer dizer, então, querida
Amélia, que o Gustavo e o menino Cosme...
- Isso mesmo, amado Honório. O Gustavo é um tremendo pederasta.
- Nossa!!!
Até mais ver,
Tião Carneiro
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