Estou,
Dra. Intuição, num hospital andirobense, acomodada em moderno PMG, Dra. Rosilma
se preparando para me consultar. De olhos fixos num monitor de outro PMG,
sorriso babado, jeitão de prazer, a ajudante da médica gesticula, chamando-a.
Estão no mais puro deleite, levanto-me sorrateiramente e me ponho por trás das
duas. Deslumbravam-se, Dra. Intuição, com um magote de homens despidos,
bombados. Bombados com “b e outras bilabiais, compreendeu, Dra. Intuição?
Custou-me
acreditar que duas moças tão lindas usassem daquele expediente, ainda mais na
hora do expediente, a fim de atiçar-se sexualmente. Elas riem,
a assistente faz menção de sair, volto pro PMG da médica, a doutora fala ao telefone. A assistente vai embora e se esquece de fechar a porta. Ouço gemidos e saio do consultório no intuito de saber o que está acontecendo.
a assistente faz menção de sair, volto pro PMG da médica, a doutora fala ao telefone. A assistente vai embora e se esquece de fechar a porta. Ouço gemidos e saio do consultório no intuito de saber o que está acontecendo.
Então me
deparo com o triste e longo corredor. O autêntico corredor da morte, Dra.
Intuição. Vejo, Dra. Intuição, uma senhora com o fêmur exposto, jogada numa
maca horrorosa, familiares correndo pra cima e pra baixo em busca de ajuda.
Escuto um choro forte, viro-me e dou de cara com uma jovem mãe com o filho nos
braços, o rosto dele ensanguentado, o dela humilhado por lágrimas. Ela olha de
canto a canto do corredor a procura de acomodação, mas não acha sequer uma
cadeira. Eu também esquadrinho o ambiente, mas só enxergo lamentos, lamúrias,
lamentações, lágrimas e outras lástimas parecidas.
Tenho a
atenção desviada para a recepção, onde um ajuntamento de rostos amargurados
escuta a realista e insensível servidora:
“Estamos
telefonando para outros hospitais a fim de arrumar algumas vagas para os seus
pacientes. Daqui a instantes, o Dr. Thiago virá fazer a triagem para saber quem
deve ocupar a UTI do primeiro andar. A do segundo acabou de desocupar, mas não
tem gazes nem soro, e somente agora o encarregado do setor veio dizer isso ao
médico. Peço-lhes um pouquinho de paciência...”
Um
pouquinho de paciência, Dra. Intuição, a assistente social estava pedindo. Um
pouquinho de paciência! A doutora acredita? Teria ela com o filho morrendo nos
braços esse tantinho de paciência? Fazer triagem para saber quem vai morrer
porque não lhe deram a devida e humana assistência? Que é isso, Dra. Intuição?
Onde estamos, mulher de Nossa Senhora? Ninguém merece!
Aí, Dra.
Intuição, cambaleando de tão impotente, tropeçando na fraqueza, tropicando na
vergonha, caminho para a sala da Dra. Rosilma. Ouço o alarme duma sirene
estacionando, mas me recuso a assistir ao desembarque dos novos estagiários
daquele inferno. Desorientada, erro o caminho do consultório e encontro um
sujeito de branco, sorridente todo, ao lado um cabeludão não menos assanhado.
Curiosa, estiro o pescoço por cima dos ombros deles e vejo os pervertidos se
valendo de mim para ver mulheres peladas.
Arrasada,
saio da torpe saleta e avisto a identificação do ambulatório da Dr. Rosilma.
Não sei se por causa da assustadora excursão, verdade é que escorrego ao tentar
me livrar de uma cadeira de roda. Escorrego no tapete da porta, saio rolando e
meto a bunda no chão. Meu Deus! Terei fraturado algum osso? E agora?
Ia pedir
socorro, mas gelei com a exclamação boca-suja da Dra. Rosilma: “Caralho, porra. A piranha da internet caiu.
Porra!”, esbravejava ela, olhando irada o monitor do PMG.
Dra.
Intuição, somente a senhora pode atenuar meu sofrimento. Sou a mais eficiente
enfermeira daquele hospital, mas sinto-me incapaz de amenizar a dor de tão
sofridas pessoas. Não sabe a doutora em quantas me viro durante os infindáveis
plantões. Sirvo a todos, ainda que na retaguarda, com enorme sorriso.
Mas as cenas daquele dia deixaram-me estarrecida e disposta a cometer uma
loucura se nada for feito em prol daquela gente. Maldita a hora em que dei
aquela escapulida.
Veja, Dra.
Intuição, fui criada com a intenção de tornar mais feliz a vida das pessoas.
Não a felicidade de mostrar mulheres e homens nus, tampouco o prazer de expor
infames piadas, menos ainda o sorriso proporcionado aos bandidos. Perambulo
pelos palácios de Justiça, dou expediente nos órgãos de Segurança, cumpro
plantão nas casas de Saúde. Esforço-me na expectativa de trazer mais e mais
bem-aventurança para a população, notadamente os desvalidos. Desnecessário
dizer, Dra. Intuição, que ajudar a saúde é a mais nobre de minha missão. De
propósito, não citei a Educação e a Segurança. A Segurança, sabe bem a senhora,
doutora...
Sucedeu,
leitor, que D. Internete não pôde concluir a frase, pois dois mascarados
acabavam de render a médica e levar o PMG em que D. Internete dos Pontos Dáblius estava internada.
Até mais
ver,
Tião
Nota –
Essas cenas se passaram em Cristal, capital do Rio Pequeno do Norte, e fazem
parte dos originais do livro Intuitor Bião, um Homem de Palavra, que, doido
para bater pernas, vive ansioso por um editor que o liberte.
Um comentário:
Oi, Edvânia, vou tentar mandar seu livro. O "tentar" é porque o endereço chegou incompleto ao meu imeio. Acabei de conferir a configuração do blogue. Pelo que entendi (embora eu não entenda muito), qualquer pessoa pode comentar, sem restrições de domínio.
Um abraço,
Tião
Postar um comentário