O Poder de uma pulseirinha
Vicente beijou a mulher e saiu para o segundo
trabalho. Passavam poucos minutos das dez horas quando chegou à Lotérica Sorte
Boa. Ficou um tempinho, deu uma geral no ambiente, pegou a moto e foi para
outro bairro. Parou no Banco de Andiroba, sondou o movimento e decidiu ir ao
centro da cidade. Passava defronte da Caixa Econômica de Andiroba, então
resolveu ficar uns minutinhos por lá. Deixou a moto um pouco distante da
Caixa, pegou uma pasta dessas de transportar documentos, deu breve ajeitada no
visual e entrou no estabelecimento.
Vicente, leitor, não é
detetive, tampouco segurança de nenhuma empresa. Vicente é garçom de carteira
assinada e tudo. O segundo trabalho do Vicente é assaltar. Leva carteira e tudo
que o assaltado tiver no momento. Vicente é ladrão de primeira. Quer dizer, de
segunda. Segunda ocupação, é claro.
Vaidoso, gosta
de andar bem vestido,
frequenta academia, visita salões de beleza (para cuidar das unhas, evidentemente), cuida da pele, toma complexos vitamínicos. Vicente é metrossexual. A vaidade, a propósito, deu um empurrãozinho na inclinação delituosa do Vicente. Na verdade, as duas, a vaidade e a inclinação. Ajudadas, naturalmente, pela insegurança pública que desprotege o cidadão. Com o aval, diga-se, da complacência das leis penais andirobenses.
frequenta academia, visita salões de beleza (para cuidar das unhas, evidentemente), cuida da pele, toma complexos vitamínicos. Vicente é metrossexual. A vaidade, a propósito, deu um empurrãozinho na inclinação delituosa do Vicente. Na verdade, as duas, a vaidade e a inclinação. Ajudadas, naturalmente, pela insegurança pública que desprotege o cidadão. Com o aval, diga-se, da complacência das leis penais andirobenses.
Vicente tem 25
anos. Curte um baseadinho. De leve, mas curte. Também de leve, mas cheira. De
leve, porque os proibitivos jamais foram empecilhos para o Vicente arrumar
emprego.
“Tu só arruma
emprego bosta, Vicente. Tu precisa estudar, cumpade. Tás dando uma de mané,
meu! Tu gosta de andar maneiro, tem uma mulher bonita pra caramba. Então! A
Lucinha tem de viver legal, senão ela pode desbandeirar pra coisa ruim,
entendeu, cumpade? Além disso, os bagulhos tão ficando caro, bicho. Daqui a
pouco, o teu salário não vai dar nem pra sustentar vocês. Aí, se tu entrar no
pendura, a tendência é formiga, cumpade. Daí, meu camarada, tu tem de escolher.
Suspender tudo e começar a estudar pra ver se consegue uma coisa melhor, que é
o meu conselho, ou fazer umas paradas por aí. Digo isso, cumpade, porque tu é
meu amigo de fé, amigo de infância e...”
Essa ladainha
se repetia frequentemente. Burrego, o cheiroso fornecedor do Vicente, era cobra
criada. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, o Vicente estaria no time do fedor.
Aquela conversa do conselho de estudar era só conversa mesmo. Aliás, Burrego
até sabia como pôr o Vicente no time. Estava esperando apenas ele pedir alguma
coisa e dizer que pagava depois.
Até que num
sábado ocorreu o pedido do Vicente. Burrego repetiu o discurso do emprego bosta
e deu-lhe o xeque-mate:
“Tu tem medo,
Vicente, mas, com um pouquinho de cuidado, o risco é zero, meu camarada. Tu não
sabe, mas sabe quantos camaradinhas aqui do bairro entrou na parada de cinco
mês pra cá? 8, cumpade! E ninguém foi preso até aqui. Mas se alguém for, não passa
mais de cinco dias que a gente arruma um jeito de soltar.”
Aí o Burrego
começou a dar lição ao Vicente e a lhe explicar os procedimentos.
Certo é que o
Vicente estava no ramo havia quase dois anos. Nunca foi preso. Sempre pegava
umas aulas com o Burrego: “Esqueça a polícia, trabalhe só, vá decidido. O risco
é quase zero, pois ninguém é doido pra reagir quando sente um trabuco nas
costelas. O risco se torna zero se você não der bobeira, não for displicente. A
casa só cai se tu der muito azar, cumpade”.
E assim o
Vicente fazia. Continuou servindo os clientes do bar e começou a se servir
como cliente do alheio. Toda semana fazia uma parada. O dinheiro do fim de
semana era garantido, tão rendosa era a atividade. Para trabalhar, nem do
cheiro ou do fumo precisava mais. Fazia tudo no automático.
Pois então!
Vicente pôs-se de frente a um balcãozinho da Caixa, pegou um envelope de
depósito, abriu a pastinha de documentos e danou-se a mexer em contas de luz,
água e outros documentos. Mexia nos papéis e mexia os olhos na direção de quem
sacava dinheiro. Especialmente os idosos. Especialmente, não. Exclusivamente,
pra dizer a verdade. Exclusivamente, sim, mas não naquela manhã. Não havia
idosos sacando. Vicente olhou as horas: 11h18. Iria a outro local. Será que ia
passar batido logo numa sexta-feira? Tinha que estar no bar às duas horas da
tarde. Se até o meio dia não desse nada, iria pra casa, almoçaria e deixaria para
arrumar o dinheiro do fim de semana à noite, em algum posto de gasolina.
Vicente
arrumou a pasta, caminhou para uma máquina de depósito, retrocedeu, como se
tivesse esquecido algo, e viu uma moça botando umas notas de cem cruéis dentro
duma bolsa pequena e jogando a bolsa pequena numa bolsa a tira-colo. Parecia
nervosa. Passou um tempão olhando a tela do terminal.
Essa aí tá
amedrontada toda pra reagir. Já que só tem tu, vai tu mesmo, pensou o Vicente,
saindo, esperando a jovem na rua. Uma chuvinha fez a mulher abrir a sombrinha.
Longe de atrapalhar, a chuva só fez ajudar o Vicente.
“Chuva
fininha, mas molha pra burro”, disse o Vicente tentando se amparar na
sombrinha. A moça deu um risinho amarelo, Vicente encostou-se nela e anunciou o
assalto. Caminharam por uns dois minutos, a bolsa pequena e o celular da moça
já no bolso do Vicente, quando apareceu uma viatura quase na frente deles.
Vicente exigiu que a jovem o abraçasse pela cintura e repetiu o gesto com ela.
“Quero sentir a sua mão no meu cinto que é pra ter certeza que não tá fazendo
sinal pra polícia”, disse o peste. Passaram numa boa pelos policiais. Vicente
deu as devidas instruções à assaltada e reprisou a ameaça de praxe: “Se olhar
pra mim ou gritar eu atiro.”
Bom, o Vicente
apanha a moto e para num barzinho. Sempre toma duas doses de uísque depois de
fazer uma parada. Conta a mufufa, 500 cruéis, e dá uma olhadela na identidade
da moça. Lucila Maria Silva, filha de... Caralho, a bonitona é minha cunhada.
Que diabo ela está fazendo aqui em Cristal? Se a Lucinha diz que ela mora no
Brasil, no Rio de Janeiro? Ela saiu daqui eu nem namorava com a Lucinha, há
quatro anos atrás. Porra! Ainda bem que a gente não se conhece. Mas ela não se
parece nada com a Lucinha. Pode ser apenas coincidência do nome da mãe. Quer
saber? Vou fazer o migué.
Vicente ligou
para a mulher, a Lucinha:
“E aí, amor,
tudo bem? Ainda tem queijo?”
“Tem. De quem
é esse celular que você tá ligando?”
Lucinha fez a
pergunta, mas nem esperou a resposta, tão feliz estava:
“Escuta só, amor.
Sabe a minha irmã que mora no Rio, a Lucilinha, pois ela está aqui, amor.
Quando você saiu, ela chegou. Foi na Caixa pegar um dinheiro. Não faz uma hora
que ela ligou querendo saber o seu número de camisa. Ela é doida pra lhe
conhecer. Pediu até que não ligasse pra você, porque queria fazer uma
surpresa”.
Vicente deu
uma bela desconversada, mas destilou um puto do “puta que pariu”, tão logo encerrou a
ligação. No descontrole da descoberta, Vicente ligara do celular da moça. Por sorte, a
Lucinha não percebeu que a ligação da irmã e a minha são do mesmo número. Assim
que chegar em casa, tenho que dar um jeito de apagar a minha ligação do celular
dela, pensou o Vicente. Porra!
Vicente tomou
outra dose de uísque, repassou o assalto e ficou aliviado. Os conselhos do Burrego
nunca foram tão úteis, matutou. Não dei oportunidade dela olhar pra mim em hora
nenhuma. Minha voz também ela não vai conhecer, pois eu nunca uso a minha voz nesse trabalho. A
camisa que vestia por cima da outra também já tirei. É só eu apagar o número do celular e pronto.
Menos chateado com a
displicência, o Vicente foi pra casa.
Lucila, coitada, tristonha toda, estava contando a história do assalto pra Lucinha quando o Vicente chegou.
Mesmo assim, sorriu pro Vicente e o abraçou, contente por conhecer o cunhado.
Conversaram um pouquinho, o Vicente disse que ia tomar banho, pois ainda ia
trabalhar, mas o que ele queria mesmo era pegar o celular da mulher a fim de
apagar a ligação.
“Além de
queda, coice, Vicente. Além de assaltada, a Lucila ainda perdeu uma pulseirinha
que eu dei de presente a ela faz um tempão”, comentou a Lucinha.
“Isso foi o
que mais senti, Vicente”, disse a Lucila.
“O sentimental
não tem preço, Lucila”, concordou o Vicente, tirando a camisa pra ir tomar
banho. Tirou a camisa, mas certa pulseirinha ficou segura no cinto da calça.
Vicente notou, quis encobri-la, mas era tarde demais:
“Minha
pulseira! Minha pulseira! Ficou presa no seu cinto, Vicente, quando o abracei a
fim de que a polícia não desconfiasse de você. Sabia que meu marido é policial,
Vicente? Ele anda com cada pulseirinha!”
Até mais ver,
Tião Carneiro
2 comentários:
Bom saber que Vicente é garçom; pois se um dia eu for assaltada eu vou bater todos os restaurantes da cidade, para descobrir onde fica o local oficial de trabalho do meu assaltante. Se fosse assim seria ótimo. kkkkkkkkkk
Seria uma tarefa árdua, caríssima. Olha só, há anos, muitos anos, talvez uns 35,há épocas, como diz Jean, conheci uma comerciante(dono de uma cantina, meu cliente de jogo do bicho), que nas horas vagas fazia assaltos. Foi um escândalo, só, Suzana. Então duplas "profissões" sempre existiram. Mas o cara foi pego, pegou uma cadeia braba. Hoje, né...
Um abraço fraternal,
Tião
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