Os Gatos I
Faz só vinte e quatro horas que os vi.
Ele, na rua,
vê o gato branco que, do alvo meio fio, o vê como pai. Ou será uma gata? Meu
Deus! É um gato e uma gata. De tão juntos, pensei que fossem só um. Estão
rindo, olha lá! Senão, por que a chama nas ventas, o fulgor no olhar, o hirto
nos pelos?
Eu, do outro
lado da rua, faço do meio fio uma cama, sento e me ponho a chorar.
Ele, pah! Bate
duas fotos dos gatos.
Eu, também
pah! Bato seis fotos dos gatos. Duas de cada um, pois ele também é um lindo gato.
O gatão não me
olha. Sai rindo, andar lesto, senhor de si.
Um dos gatos
fica calmo, dá dois cheiros nas patas e pisca pra mim. O outro, a gata, acho,
me olha e mia.
Fico triste,
se bem que a sorrir, pés presos, a mercê de sonhos.
Tola, tonta,
não corro atrás dele. A mente
tira a ação que o corpo requer. A mente me manda pra casa. Não à casa do botão do gato, e sim o teto de meu lar. Sem o roçar de sua linha, mas com o coçar de meu anzol, fico na cama a curtir meus planos, e eles a me fazer gemer.
tira a ação que o corpo requer. A mente me manda pra casa. Não à casa do botão do gato, e sim o teto de meu lar. Sem o roçar de sua linha, mas com o coçar de meu anzol, fico na cama a curtir meus planos, e eles a me fazer gemer.
Qual será o
seu nome? Quantos anos terá? Vive de quê?
Não quero
saber disso, zombo da fala mental. Quero mesmo é vê-lo de novo, pegar em sua
mão, olhar em seus olhos. Falar e ficar muda. Ficar muda e falar. Gritar e
calar. Calar e gritar. Rir e chorar. Chorar e rir. São tais verbos que há tempo
batem, às vezes de forma sutil, a porta de meu jovem prazer. Às vezes de forma
sutil, é certo, porque, na cena dos gatos, eles quase punham a porta no chão.
Nunca vi homem
mais homem. Homem mais lindo. Nunca me senti com mais fervor de ser mulher.
Mulher mais bife.
Meu Deus, o
que estou a pensar? As normas de minha cama põem essas coisas longe de mim. A
crença de meus pais veda sonhos tão belos.
Tenho 15 anos,
sei da força do sexo, mas não tinha noção de seu belo poder. Até brinco quando vejo alguém dizer que a
paixão não tem hora para surgir. Coisa de gente besta, penso. Mas sinto no
vibrar do corpo, na dor da alma e no grito dos pulmões a morte dessa fé.
Olho o olhar
dos gatos, que riem à toa, e vou pra casa. Ah se o mundo fosse só meu e de meu
mito mortal, de coxas grossas, de bunda balão, de andar viril, de braços
fortes, de riso carnal, de... De...
Ah se o mundo
fosse só de nós dois. Nós dois? Ah como gosto do “dois”. Farei do “dois” o
norte das letras de meu ardor febril.
Meu pai abre o
portão. Olho ao redor.
Meus Deus! Que
susto! Não fosse o braço de meu pai, a queda... Sabe quem tinha vindo no meu
cheiro?
O gatão. O de
quatro patas.
Os Gatos II
Venho aqui
todos os dias. Aqui, ao lado desta casa de frutas, foi onde, um mês atrás, vi o
Fico. Dei-lhe o nome de Fico porque ficar com ele é o sonho de minha vida.
Ficar em termos de suar, visto que no sonhar não saio dos braços dele. Nunca
tinha visto o Fico, mas foi só o olhar bater no corpo dele para a paixão me
picar.
O homem,
porém, não anda mais por estes lados. Será que ele me viu? Caso tenha me visto,
será que gostou de mim? Se gostou, por que sumiu?
— Quem sumiu,
minha filha?
— O Fico.
Perdão, Dona. Pensei alto.
— Por favor,
meu nome é Gema, moça. Gema da Silva. Não me chame de Dona. Não sou tão velha.
Esse tal de Fico é o grande amor de sua vida, não é? Sempre quis saber a causa
de tanta dor nesta face tão jovem. Vejo você todos os dias a esmo por estas
bandas. Como é seu nome?
— É, Gema,
você está certa. O Fico é meu grande amor. Pode me chamar de Dalva. Veja a foto
do Fico. Já viu ele por estas bandas?
— Não. Ele é lindo, Dalva. Quer um milho? Quantos
anos você tem? Quer me falar desse mal-estar?
— Quinze anos. Quero o milho, sim.
Abri-me com a Gema. Contei tudo, tintim por tintim. Falei do casal de
gatos e até mesmo de o gato branco ter ido atrás de mim.
— E o gato está em sua casa?
— Não, Gema. Sumiu também.
—
Ah, minha filha. Os gatos são meus. O gato chama-se Simão e a gata eu a chamo
de Mone. O pai deles, Dalva, é tão sagaz quanto o gato que sumiu de sua vida.
Brigou com a mãe dos filhos antes de ela parir. Brigou e não deu mais as caras.
Nem carta manda. Ao menos um e-mail ele passa, um miau ele mia.
Digo sagaz, Dalva, porque, pode ficar certa, esse gato
de seus sonhos também viu você. Ele deve saber de tudo, minha filha. Ele viu a
paixão em seus olhos, mas está dando uma de sonso. Homem é bicho tolo, Dalva.
Mas um dia ele virá até você.
Certo que ele não sabe onde você mora, Dalva. Mas, sagaz
como deve ser, pode muito bem achar você onde a viu no dia dos gatos. Sabe de
uma coisa, Dalva? Talvez ele more em outro lugar, em outro país. Já pensou
nisso? Será que ele não mora no Brasil? Se assim for, tá até bom, Dalva. Daqui
ao Brasil é um pulo. De gato, é claro.
Com uma ponta de dor na alma, ri da prosa de minha
guia.
Gema também
riu, porém logo se tornou triste, com ar de santa.
Gema
beijou minha testa e ficou a chorar. E eu a rir sem saber o porquê.
&&&
Essa prosa, gente, faz parte de meu
livro, o Intuitor Bião – um Homem de Palavra. Carlinda, aqui
chamada de Dalva, mete-se numa confusão, briga com o amante, aqui chamado de
Fico, e foge do país. Ambos são apaixonados pelas palavras e têm blogues de
literatura. Carlinda foge gestante, dá à luz gêmeos, arrepende-se da briga,
quer dar a notícia ao Fico, o pai das crianças, mas não pode se comunicar
diretamente, pois é caçada pela polícia. Então ela posta esse conto no blogue
na esperança de que o namorado descubra a boa nova pelas entrelinhas. Diz ela:
“Faz
24 horas que pari nossos filhos (o gato e gata). Chamam-se Simão e Mone. Sinto
a sua falta. Fui tonta quando briguei com você.”
Ela ainda avisa ao Fico que a antiga empregada,
a Gema, está cuidando dela. O texto é só entrelinhas, minha nobre. Deixo com
você o prazer literário de descobrir os recados e pressentir os sentimentos da
apaixonada Dalva.
Ah,
a fuga da Dalva foi consequência de uma tal CPI do Dois. Então, para provar ao
amante que o texto era da autoria dela, a Dalva escreveu os Gatos usando apenas
monossílabos dissílabos.
Com
dissilábicos beijos nas gatas e monossilábicos abraços nos gatos (não sou
machista, não meu nobre. Isso é só para descontrair, viu?),
Tião
2 comentários:
bão! livro novo é?
Rafael
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