O FIM
Já falei e repito: escrever é o pior vício que
existe. Não gostou da palavra “vício”? Então tá! Hábito, pois. Veja por que
estou afirmando isso. Acabado o carnaval, cheguei da praia e fui dar uma
olhadinha no blogue pra ver se alguém o tinha acessado. Difícil, pensei. Se
praticamente não há consulta nos dias normais, imagine nesse feriadão. Dito e
feito: nada de acesso.
Vou desligar o computador, então me chega da rua uma
voz, pelo tropeço nas palavras, bêbada: “Acabou. Carnaval já era. Chegou ao fim.”
Bastaram essas palavras para os dedos viciados deste rascunhador se
alvoroçarem. Nada, do blogue; fim, do carnaval. Nada e fim. Pense em duas
palavrinhas opostas. Não contei conversa e... Bom, você está me lendo, não?
Hábito? Costume? vício?
Sobre o vazio
do “nada” fiz uma postagem em dezembro do ano passado. Falei inclusive do
conchavo dele com o zero. Agora do “fim” nunca escrevi nada. “Nunca escrevi
nada do fim”. Que sentença mais oca, mais sem finalidade, não?
Nada, gente, é
uma palavra completamente sem substância. Vá ao fundo da imaginação e procure o
nada. Você se sente meio desnorteado, confuso, sem ter em que se agarrar, não é
verdade? Falta-lhe apoio, confesse.
Fim, não. Essa
é uma palavrinha forte. Aproveite aquela viaje ao fundo da imaginação para dar
uma passadinha no fim. Viu conteúdo ou não viu? No fim, você pressente logo
algo se acabando. No nada, você pressente o quê? Nada, é evidente.
O fim é tão
potente que não só expressa o ponto em que se interrompe alguma coisa, mas
também desencadeia o início de novo processo. Por exemplo. O fim de um
relacionamento, seja amoroso, seja o que for, sinaliza o começo de outros
relacionamentos. Até o fim definitivo é o recomeço de outras vidas, assim
apregoam algumas crenças. Por falar nesse tipo de fim, daqui a 10 meses, 21 de
dezembro, ocorrerá o fim do mundo, estão dizendo por aí. Preparado, meu nobre?
Tenho uma teoria acerca dessa data, mas de falar dela não estou a fim.
Era isso,
afinal o que eu queria dizer sobre o molenga do nada e o resoluto do fim. Só
não sei se os meus nobres concordam comigo.
Concordam?
Pois peguei-os na armadilha, meus! O poderoso supremo, o maioral maior, é o
nosso amigo Nada, gente. Veja bem. O fim de algo é o começo de outro algo,
nisso concordamos, beleza? Agora, eu pergunto. Esse procedimento é instantâneo,
é pei-bufo, como diz minha turma do interior? Não, definitivamente não, meus
nobres. Entre determinado fim e o consequente início existe sempre um tempinho,
um vácuo, um espaço onde nada está acontecendo. E como é o nome dessas coisas.
Nada, naturalmente. Nada acontecendo já diz tudo, certo? Daí que o nada
delimita o fim do fim, ao mesmo tempo em que demarca o início do início. Com
dupla função, o nada termina ganhando do fim, não é isso?
Em resumo.
Nada é mais festejado do que certos fins (fim dum assalto, por exemplo), mas
também nada é mais dolorido do que outros fins (fim dum relacionamento amoroso,
por exemplo). Em ambos os casos, o nada, o meio de campo, foi o bicho, foi o sujeito. Foi ou
não foi?
Se você chegou ao fim deste texto deve estar
igualmente festejando, não? Deve estar dizendo: “Ufa, até que enfim”.
FIM
Abraços finais,
Tião
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