PRISÕES
(Por Tião Carneiro)
O rapaz não dormia direito, alimentava-se mal, vivia
nervoso. Mas era uma inquietação do bem, porquanto o induzia a visualizar
momentos do primitivo prazer. O pensamento único teve início depois de quase
atropelar uma moça. Arranhou-se, o guidom da bicicleta ficou torto, porém a
moça não se feriu. O rapaz sorriu,
pediu desculpa. O sorriso de volta
arranhou-lhe a libido, o “não há de que” entortou-lhe a imaginação, a alegria
do feminino olhar feriu-lhe o coração.
O riso é festeiro; a voz, musical; o requebrado,
dançante. Tudo nela é natural, advém da alma, pensou o homem, a alisar o
queixo. Só aí o percebeu caído. Recompôs-se ao ver a mulher entrar em casa com
a intacta sacola de pão e acenar-lhe com a sacolinha, como a lhe oferecer o
primário alimento.
Faz dois meses
que o jovem circula pelos arredores da casa dos sonhos. Vê a jovem, segue-a até
ao trabalho, ela de ônibus, ele de bicicleta. Vive a escoltá-la mentalmente. Há
dez minutos ele viu o charme dela na janela, mas ela não o viu, ou se fez, ou
fez de fingimento charme.
Verdade é que
o nosso arranhadão nunca mais foi o mesmo. O esbarrão na charmosa lambuzou-lhe
de atração, que se transformou em paixão, que virou obsessão.
Passou da
hora de ela ir para o emprego. Deve estar de folga. Vou dar uma voltinha. E
assim, duas horas da tarde, o apaixonado largou o ponto de onde observava a
amada, pegou a bicicleta e foi dar a voltinha. Voltinha que se repetiu ao longo
da tarde, assim como se renovaram certas paradinhas em estratégicos locais, da
mesma forma como intrigantes perguntas exigiam respostas:
Será casada?
Porque tão jovem, talvez não. Terá namorado? Talvez sim, embora pouco me
importe. Acenou-me, realmente, naquela tarde? Será que a beleza do corpo dela
está me fazendo vê-la atraída por mim? Será que o que dela pressinto é real ou
tão somente a representação interna de meus sentidos? Será que o dito de que as
aparências enganam nasce dessa representação? Será verdade que nada tem
importância, exceto aquilo a que importância lhe damos. Será que, de fato, nada
acontece por acaso? Ou o acaso é acaso mesmo e a consequência dele é que merece
ser estudada a fim de que atribuamos a ele, o acaso, o devido valor? O certo é
que a incerteza é a única coisa certa e que tudo é bolado em nosso cérebro.
Somos da mente prisioneiros, isso sim. Agora, com determinadas dúvidas é que
não podemos viver. Falarei com ela hoje, não quero nem saber.
Não era a
primeira vez que o rapaz tomava tal decisão. Mas era a primeira em que decidia
depois das “certas paradinhas em estratégicos locais”. Cinco horas da tarde,
olhos na casa da moça, bicicleta ao lado, entre arrotos filosóficos e bafos
alcoólicos, eis que o gamadão termina cochilando. Desperta, vê a garota na
calçada, mas a coragem que a bebida lhe dera tinha adormecido. Angustiado,
baixa a vista, mas torna a levantá-la por causa da ordem:
Polícia!
Polícia! Mãos na cabeça! Mãos na cabeça! Passou a tarde aqui planejando alguma
coisa ruim, não foi, vagabundo?
“Quê!”
O rapaz
levanta os braços, enxerga a indiferente moça a vê-lo de mãos para o alto, olha
ao redor e se dá conta de que a bicicleta havia sumido.
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