RINHA LITERÁRIA E A LITERATICE
DA ANINHA
“Beleza, Bião?
Só assim você conhece a Aninha, a nova secretária da editora”, disse o Zé
Alves, rindo descaradamente.
Despediu-se dessa forma o meu
inimigo íntimo, o Zé Alves, na noite de ontem. Agora eu me encontrava em pé,
cara a cara com a Aninha, na recepção da famosa editora do Zé, a Atoidi.
Ela repetia anrã ao telefone, e eu ficava repetindo “minha nossa” e me
perguntando onde o Zé arrumara aquela mulher. Cansei-me do anrã e fui com o
“minha nossa” me sentar numa poltrona, cerca de cinco metros do birô.
O anrã era o desfecho do
diálogo, posto que dali a dois minutos a Aninha pôs o sem-fio de lado e olhou
pra mim.
Levantei-me, ela espalmou a mão e pegou o telefone. Decifrei o gesto,
sentei-me, gerundei-me:
“Para mim Dr. Alves não esteve
falando nada. Vou estar averiguando para a senhora. Espere um minutinho. Se a
ligação cair, a senhora retorna para mim”, disse a Aninha, levantando-se,
gentil toda pro lado de lá e todinha desatenciosa pro lado de cá. Tal rosto, tal
corpo, sorri ao acompanhar o rebolado dela. Que mulher é essa, indagava-me,
escanteando o “minha nossa”. Nisso, chega um sujeito de paletó, olha pra
Aninha, olha-me por cima dos ombros e esboça um riso maldoso. Preconceituoso,
até.
Esse “para mim e para a
senhora” da Aninha é coisa do Zé, imaginei. Ele adora o para e detesta o pra.
Eu e o Zé, gente, somos fraternos inimigos. Zé detonou meu segundo romance na
coluna do jornal em que escreve quinzenalmente: “O livro desse escritor tem de
tudo, menos literatura. Texto arrastado, numa desastrada tentativa de tornarem
engraçadas certas historietas. O que sobra de ‘pra mim’ falta de tragédia, de
trama, de filosofia. Não consigo ler esse rapaz”, destilou o meu futuro inimigo
íntimo Zé Alves.
Dias depois, encontrei-me com o
Zé, apresentei-me, tivemos um arranca-rabo, fiz a defesa do pra e
afins, disse-lhe que o livro tinha tudo o que ele dissera que não tinha e
sapequei ironia: “Só que astúcia literária, contrapontos incomuns e elegância
linguística são apreciadas unicamente por espíritos desarmados de preconceito.
A originalidade do livro o bloqueou, meu nobre”.
O resenhista debochou:
“Originalidade! Originalidade é atributo de escritor famoso. Para gente como
você o nome de tal criatividade oscila entre presunção e imbecilidade. Bote
isso na cabeça, meu nobre”.
Balancei a cabeça, demiti os
pensamentos e voltei-me para a Aninha. Ela encerrara a conversa. Sentou-se,
olhou pra mim e pro cabra de paletó. Se a danadinha chamar o paletó eu lhe
direi muitas e boas, matutei, de olho nela. Pois não é que o aceno saiu para o
encasacado? Em concha, a mão esquerda disse venha; achatada, a direita disse
fique, já que o intrometido telefone acabara de tocar. Bem feito, falei
baixinho e ri da cara de amélia do granfino.
Apalermado quem ficou também
foi o Zé Alves quando soube que eu não entendia nada de poemas. Estávamos
bebendo no MPBar... Pois é, ficamos tão especialistas em arengas
que de quando em quando o Zé me convida pra beber. E arengar. Divirto-me com a
honesta hipocrisia dele. E ele adora a minha sincera avaliação. Panelinha é
pouco para o que Zé Alves confessa acerca do comportamento de certos colegas.
Os elogiosos comentários sobre os seus textos e os dos carinhas, então! Vida
que segue, diz o falso sincero. Não tenho a menor noção por que convivo com uma
pessoa dessas. Nem Freud teria, suponho.
Bom, em relação a poesias, o Zé
sempre achou que eu sacaneava com ele. “Quem já viu, meu, o cara metido a
escritor não entender de poesia”. Poesia, diz ele, não precisa ser entendida.
Carece ser sentida. Ontem, o infeliz tirou a prova de meu analfabetismo
poético. Emborcou uma dose de uísque, pediu-me que lesse e relesse um
escritinho e ficou me observando. Porque não tracejei reação alguma, o
galhofeiro deu uma gargalhada de comprovação de minha burrice. Até decorei o
escrito. De uma portuguesa, Bião, o Zé disse-me depois: “Nos siléncios das
cinzas do meu Ser/ Agita-se uma sombra de cipreste, / Sombra roubada ao livro
que ando a ler...”
A fim de acabar logo com a
zombaria do Zé, mudei de assunto e cientifiquei-o da publicação de meu novo
romance, O Falsário. “Não iria procurar a sua editora, não é, Zé
Alves? Mandei imprimir 40 exemplares. Recebo amanhã. Vou vender por cinquenta
reais. Quer comprar um?”, provoquei-o.
“Quero. Meu irmão
carioca é tão imbecil quanto você. Gosta de suas besteiras. Vou viajar amanhã
às dez horas. Retorno no sábado, mas no domingo vou ao Rio. Faça um autógrafo
em nome de Domingos. Amanhã à tarde você deixa o bicho na editora, com a
secretária. Deixo os cinquentinhas com ela. Beleza, Bião? Só assim você conhece
a Aninha, a nova secretária da editora”, disse o peste, rindo descaradamente.
Aqui estava eu. Viera deixar o
exemplar de O Falsário e receber os 50 reais, mas o diabo dos
telefonemas da Aninha estavam... Distraído, eu não havia percebido a ausência
da Aninha. Ela voltava do banheiro, denunciavam-lhe as feições. Que mulher
mais, mais, imaginei-a, alternando a locução de surpresa.
Aninha sentou-se, olhou pra mim
e pro cabra de paletó. Se a danadinha voltar a chamar o paletó eu lhe direi
muitas e boas, reprisei os pensamentos, de olho nela. O aceno de venha saiu.
Mas de novo para o encasacado. O arrogante ainda riu pra mim, pode? Deu-me uma
raiva! Pulei do sofá e tive uma ideia. Pois diga! Esse janotinha vai cair do
cavalo se estiver pensando que vai ser atendido antes de mim. Fui pro pé da
escada e vi pela vidraça o sorriso dos dois e o paletó se abancando, crente que
a Aninha ia atendê-lo. Quando a Aninha abriu a boca o telefone tocou:
- Aninha, sou eu, o rejeitado
que estava há pouco tempo aí, o imbecil da bermuda. Tá lembrada?
- Anrã! Tô, sim. O senhor tem
algo a dizer para mim?
Caí na risada. Imaginava
alongar a conversa a fim de matar o jaqueta do coração. Mas preferi ser
objetivo. Sabe-se lá se a ligação não iria cair.
- Tenho, Aninha. Sou o Bião.
Fiquei de deixar um livro pro Zé Alves. Ele deixou a grana com você? Cinquenta
reais?
- Anrã! Dr. Bião, o escritor?
Deixou quarenta reais, Dr. Bião.
- Que cabrinha mais sem futuro.
Faça o seguinte, Aninha. Ponha o dinheiro embaixo do grampeador. Vou já praí.
Boto o livro em cima da mesa, apanho a mufufa e vou embora. Tá bom assim?
- Anrã! O doutor quer que eu
ligue para ele? Ou o doutor apanha a tal mufufa depois?
Descontrolei o riso, disse que
apanhava a tal mufufa depois, e que gostaria de vê-la pondo o dinheiro debaixo
do grampeador. Sem pestanejar, assim ela agiu, disse-me o espelho.
Agora sim, acomodei-me na
escada e deitei falação. Penalizado com o de gravata, pensei em dar um xauzinho
– na Aninha, é claro - e subir a escadaria. Mas aí vejo o arrogantão descendo a
escada, assobiando, mais contente que pinto em beira de cerca. Acenamo-nos.
Subi. Tão contente quando o que descia, confesso. Que idiota! Parece até que
foi atendido. Acho é pouco, pensei, pondo-me na frente da Aninha.
Aninha já estava novamente ao
telefone. Larguei o livro na mesinha, olhei o grampeador. Nada de dinheiro. Mas
se a vidraça havia me mostrado a mufufa? Passei a vista ao redor: nadica de
nada da grana. Tive que bater no ombro da Aninha:
Cadê a grana, Aninha? Aninha
levantou o grampeador, como desacreditando no que via. Ou acreditando no que
não via.
- Tava aqui, doutor. Juro! Só
pode ter sido o bonitão...
Só me restou sorrir e me
perguntar por que diabo fui botar no romance logo o título de O Falsário.
Ah, e a Aninha, hein! O que
você acha? Será que... Deixo pra você (ou para você) o ponto final da
reticência.
Até mais ver,
Tião
2 comentários:
... e nesse carnatal, a Aninha..., mas tem a coisa do celular... nesse carnatal...a Aninha...coisas de inimizade íntima!
É isso, meu caro. Rinhas fazem parte. Algumas consolam a alma e o...
Abraços,
Tião
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