Olá, pessoal,
Vivo apanhando da internet. Não sei o
que diabo fiz, mas o certo é que algumas postagens foram pro espaço. Como as
tenho no word, e como gosto muito desta, porque em homenagem a minha mãe, vou
postá-la novamente.
Valeu!
SIMPLESMENTE MULHER
Bezerra ficou olhando os quatros cantos da piscina a fim
de ver em qual deles a mulher ia aparecer, mas na expectativa de que ela
surgisse na quina da churrasqueira. Dificilmente o Bezerra errava o local onde
ela aparecia. Tinha o faro muito bom pra essas coisas. Dessa vez Bezerra errou
feio: Minervina saiu exatamente no ponto em que mergulhara. “Pelo jeitão de
desapontado, peguei você, não peguei, nobre Bezerra?”, gritou a Minervina,
sorrindo. Sorriu, dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, ligou um sonsinho de
rádio, beijou o buquê que o marido aninhara-lhe nos seios de manhãzinha, pegou
uma maçã e começou a mordê-la. Mastigava a maçã e mordiscava a imaginação,
distraída.
Bezerra deu uma coçadinha básica na
cabeça, estirou-lhe carinhosamente a língua e ficou a admirá-la. Ainda quis ir
lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse algum papo, ela teria
vindo a ele.
O ser humano é muito esquisito,
pensava
Minervina, referindo-se ao comportamento dela naquele dia, 8 de março, Dia
Internacional da Mulher e data de seu aniversário. Todo 8 de março, ela e o
marido seguiam o ritual de dormirem até tarde, namorarem como se fosse o último
namoro, deixarem enlouquecidas as libidos, desafiarem certos dogmas físicos.
Depois, isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos,
curtiam músicas clássicas. Desfrutavam-se, enfim.
Mas que é uma esquisitice boa, ah, isso
é, sorriu a Minervina. Sorriu e chorou com a mensagem de aniversário pregada
nas flores:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras
cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação
divina aos amigos que delas se aconchegam.
Porque aconchegado já sou, sinto a cada segundo o
resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Minervina. Pelo aniversário e pelo seu dia que é
todo seu.
Do todo seu e somente seu.
Minervina queria ter palavras para falar
de seu amor pelo marido. Queria escrevê-las, pois a palavra dita pode ser
esquecida, conquanto não volte. Mas inexistiam palavras que fizessem linha
direta com o coração. Amo-o a mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E
se de alguma coisa Minervina fugia era da obviedade. Amava o risco, adorava o
atípico, apreciava o incomum. Não somente ela, mas também o marido. Pelo que
presenciavam nos casais amigos, o óbvio era o culpado de a ardência amorosa ir
se amornando. Neles, não: os 45 anos de cada um e os 18 de casados constituíam
o zero da prova dos noves da felicidade. Felicidade procedente da mouquidão com
que a Minervina escutava algumas “obviedades” das amigas: “Os homens são todos
iguais. São águias, cachorros e galinhas, Minervina”, diziam. Minervina ria,
não alimentava o papo e punha gelo na fervura da generalização.
“Do todo seu e somente seu” fez a Minervina gargalhar, largar a maçã,
espreguiçar-se e mergulhar na água morninha.
Bezerra viu apenas o
vulto caminhando para a piscina. Tremenda gazela, grunhiu pra si, depois de
nova coçada na cabeça. Ah, se eu soubesse escrever. Droga! Transformar-me-ia em
águia da comunicação, buscaria palavras nas profundezas do coração e diria à
Minervina, com letras bordadas, que a amo, que a venero, que a idolatro. Que
nunca farei cachorrada com ela, que odeio galinhagem, que sou capaz de por ela
morrer.
Minervina faz mais do que alimentar o
Bezerra com palavras afetuosas. O que deixa o Bezerra extremamente alegre é o
sorriso dos olhos, a meiguice do som labial, o zelo como é tratado, enfim. Nada
lhe falta. Parece que a Minervina adivinha os mais secretos pensamentos do
Bezerra. A maciez das mãos em seu corpo, então! Bezerra tem por ela uma
fidelidade canina. Vê em Minervina a verdadeira dona de seu corpo. Ainda que,
não poderia mentir, fique um tanto chateado quando sente que a Minervina quer
que ele seja exclusivo dela.
Ela confunde fidelidade com
exclusividade. Ele é amigo, fiel e exclusivo no instante em que está dando
atenção à pessoa, mas os mesmos sentimentos passam para outro indivíduo tão
logo a atenção mude de foco. E isso Minervina parece não entender.
Agora, sim, ela saíra no lugar imaginado pelo Bezerra: precisamente no local
onde ele estava.
Minervina sentou-se ao lado do Bezerra, ficou a alisar-lhe o focinho, abriu a
boca a fim de falar alguma coisa, mas um barulho fez os dois desviarem a
atenção para a direção do som.
“Meu gatão”, disse a Minervina, pondo o Felipe, o gato da casa, o dono do
barulho, sobre a toalha que lhe cobria as coxas.
Bezerra assistiu à cena, mostrou-se impassível, mas ficou rosnando de ciúme e
reavaliando seu conceito de exclusividade. Gostava do Felipe, às vezes até
brincavam juntos, mas a histórica rixa entre gato e cachorro se mantinha.
Foi assim que o Euclides, o marido da Minervina, encontrou os três quando
chegou do mercadinho:
“Uma rosa pra você, amor, um caixa de
biscoito pro Felipão e uma ração novinha pro meu caro Bezerra”.
Servidos - de ração e de amor - os quatro passaram o resto do dia a confabular.
Cada um a seu modo, evidentemente.
Até mais ver,
Tião Carneiro
Em tempo: Minervina nasceu em 8 de março de 1916 e
nos deixou saudosos em 21 de novembro de 2009. Euclides Carneiro, luciduzinho
da silva, completou 97 anos agora em agosto.
Tião Carneiro, esse...
Nenhum comentário:
Postar um comentário