RABUDA BEM-ESTAR – PROSA PARA ADULTO
Dr. Arimã Abadom sentou-se e deu sonoro bom-dia.
Estava em majestoso conjunto arquitetônico no centro de Cristal, capital do Rio
Pequeno do Norte, nordeste de Andiroba, país parede e meia com o Brasil. Dr.
Arimã tem trinta anos, é bonito, simpático quando lhe convém, cruel por
natureza. Esperto tal qual o capeta, é dono da Rabuda Bem-estar S/A.
Tão esperto que, com vinte e cinco anos, aproveitou crônico equívoco dos
governantes andirobenses e fundou a Rabuda. Começou na área de
educação,
segundo ele, a pedra angular (o doutor adora essa expressão) da
sociedade. Da Educação para a Segurança foi um pulo. Há dois anos, a Rabuda
entrou no setor Saúde. A Rabuda Bem-estar arrecada 18% da renda
dos contribuintes. 10% a título de segurança, 5% destinados à Saúde e 3%
direcionados à Educação.
Dr. Arimã é proprietário de grande parte do Estado
andirobense. É o cão de sabido.
Em relação à
Saúde, o doutor, quando de pileque, ainda zomba das autoridades: “Não entendo o
pouco caso dos governantes. Deixam a população morrer por falta de assistência
médica, cujo custo é irrisório ao ser comparado ao retorno. Gastamos, em média,
1% dos 5% arrecadados. E ninguém fica nos corredores a mendigar socorro”.
“Vamos começar a reunião”, disse Dr. Arimã, após
sorrir para a secretária, a linda e diabólica Luciafé.
Espero que não tenham ficado acomodados com o
resultado do biênio 2019/2020. Foi bom, é certo, mas poderia ter sido melhor.
Deter-me-ei, senhores, tão somente a questões pontuais. Antes, quero anunciar
estratégica decisão para o biênio 2021/2022. Vejam. No biênio 19/20, a carga
tributária do Estado andirobense ficou em 39%, contra 18% de nossa taxa de
Contribuição Voluntária. Vamos deixar o Governo maluco e baixar a CV para 16%.
Essa medida aliviará o bolso do meliante operário e servirá de argumento para
trazer o restante dos marginais trabalhadores, cerca de 30%, para nossa
proteção. Muito bem. Vejamos as questões pontuais.
Persuasão -
Alguns colaboradores teimam em ir à casa dos adeptos do aparelho estatal - os
autodenominados cidadãos - sem a devida identificação. Precisamos usar o crachá
da Rabuda Bem-estar S/A, senhores. Outra coisa. Providenciem
evidência maior para nosso slogan. Estão praticamente invisíveis. Notadamente o
dos prédios. É importantíssima a visibilidade do “Perdeu, boy”. Temos
de mostrar força ao suposto cidadão, pessoal. Pra isso, nada melhor que a
combinação pistola/distintivo/legenda da instituição. Caso o conjunto não
convença o recalcitrante, ponha-lhe a pistola na cabeça e o leve a um hospital
do Estado. Depois o leve a uma de nossas casas de saúde.
Educação –
Fiquei estarrecido com o que vi numa escola do centro. Quatro alunos não
souberam definir falcatrua, caixa dois, estelionato. Duas estudantes não sabiam
ocultar um sujeito, identificar um agente da passiva, conjugar o verbo
prostituir na variante pronominal. Outros permanecem apegados a desvalores
arcaicos, a exemplo de honestidade, ética, cidadania. Cuidem disso, por favor.
Se for o caso, demitam os professores. Tenho até alguns nomes que dariam
excelentes mestres.
Sonegação –
Precisamos combater a sonegação, senhores. Não podemos dar trégua ao sonegador.
Esse é a praga do Rabuda Bem-estar S/A. Os coletores não devem
esquecer de que o fato gerador do sistema Rabuda é a renda familiar e não
apenas o ganho de um dos trabalhadores. Some-se a renda de todos, aplique-se os
15% e emita-se a notificação em nome do desgraçado chefe de família. Não tem
essa de rendimento informal. Flagrado no ilícito, lavremos a ata de transgressão
e joguemos o cabeça da prole em nossas cadeias.
É isso,
senhores. Como de costume, gostaria de encerrar a reunião com a advertência
sobre o binômio comodismo/risco. Urge conquistar os 30% que estão fora do
sistema Rabuda. Mais importante, porém, é não perdemos os 70% conquistados. Em
hipótese alguma podemos nos acomodar, pessoal.
Acomodem-se e
vejam esta desastrosa sequência. Os 70% se juntarão aos 30%, começarão a ver
debilidade em nossas normas, criarão uma cultura coletiva e arriscarão
restabelecer a tal ordem republicana. Tentarão regressar ao comodismo de que
vieram, entenderam?
Toda a atenção
é pouca à variável risco. Sabem os senhores que a Rabuda Bem-estar S/A
só existe por causa de autoridades que não souberam avaliar riscos como os da
sonegação e os da violência.
Nosso
protegido tem consciência de que irá para a cadeia ao menor indício de
sonegação. Então! O risco, extremo, é aliado da gente. Diminua-lhe o risco e
veja se logo, logo não quebraremos, pois ele se aventurará voltar à zona de conforto
em que estava habituado.
Nosso protegido tem consciência de que pode
assaltar, sequestrar, desfalcar, conquanto somente dos rebeldes 30%, que nada
lhe acontecerá. De mais a mais, também estar consciente de que irá
imediatamente para a cadeia se cometer tais atos contra um confrade. Então! O
risco, extremo, é aliado da gente. Reduza-lhe o risco e veja se logo, logo ele
não estará assaltando aliados a torto e a direito, prestes a retornar ao
ambiente da impunidade.
Está encerrada
a reunião. Obrigado a todos.
Concordo com o
Dr. Arimã. Em relação ao conceito de risco, não é, gente? Que isso fique bem
claro, meu.
Ah, você
discorda, é? Então por que o infeliz o assalta e sai chupando o dedo? Por que,
então, o peste chega de moto, mete-lhe bala e vai embora assobiando? E por que
comete as mais cabeludas tramóias e vai se empanturrar de importados vinhos nos
chiques restaurantes? Por que, hein?
O você dos
exemplos é só um exemplo mesmo. Não é você, é claro. Entenda-me, por favor.
O risco é a
bússola do procedimento. Do namorar ao delinquir. Aliás, a vida é eterno risco,
disseram. Só não me perguntem quem disse. Procede-se assim ou assado, seja o
risco avaliado assado ou assim. Agora, há riscos e riscos. Nem quero saber o
risco que estou correndo ao ter escrito essas besteiras.
Até mais ver e
um abraço,
Tião
2 comentários:
Olha, queira me desculpar caso replique alguma coisa, mas, as vezes, não fica claro se o comentário seguiu ou não. Os versinhos que chegaram não têm nada a ver com o contexto, o que eu havia escrito é que alguém já havia dito que pior do que a ação do poder paralelo exercido por poucos, é a omissão de muitos no enfrentamento do problema. Portanto, uma coisa é um risco e outra coisa é outro risco! Aproveito e lhe pergunto: O que você acha do nosso estado do RN ter um primeiro ministro?
Sds,
Zé Alves
É verdade, meu caro. Pode comentar à vontade. Não há problemas se duplicarem. Contextualizei os "versinhos" (versinhos, é?) porque queria publicá-los. Nosso primeiro ministro é uma droga, meu.Vem outro por aí?
Um abraço,
Tião
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