O Pocilga tá de sacanagem comigo. Já são três prosas
que desaparecem. O texto abaixo, postado no auge da polêmica sobre a Lei nº
12.527, simplesmente sumiu. Acho que alguém não gostou da lourinha Têmis. Vou
postar de novo. Engraçado que só deletam os textos mais lidos. Eu, heim! Então!
Se já conhece a Têmis, pule para o Bolo das Confederações. Do contrário,
sinta-se por ela abraçado. Falar em futebol das Confederações, você pode jogar no BOLO até quinta-feira, 13 deste mês.
Um abraço,
Tião
A DANADA DA
TRANSPARÊNCIA VISTA POR ÂNGULOS DIFERENTES
“Faça do jeito que tô mandando, minha filha, e não
falamos mais nisso”, exigiu o irritado Bastinho.
- Não acho
justo, pai.
- Você não tem
que achar justo, Têmis. Só precisa abrir os olhos e fazer. Comece logo.
O entrevero
entre pai e filha, Bastinho e a belíssima loura Têmis, ocorria na bodega da
família. Bastinho vinha acompanhando o noticiário sobre a divulgação de
salários do servidor público brasileiro, enunciado conhecido como
transparência. Daí ele teve a ideia de aplicar a lei em seu estabelecimento, a
Mercearia Andiroba. Mal Têmis acordou, Bastinho a chamou e pediu que ela
elaborasse uma lista com os pinduras da freguesia.
Têmis passou a
mão no cabelo assanhado, muniu-se duma folha de papel pautado, botou a mão no
queixo, fez ar de queixosa, olhou pro pai:
- Boto o que
primeiro, pai? O nome da pessoa ou o débito?
- O prego,
minha filha. Inicie pelo mais velho, o da professora Martha. Depois bote o nome
do trambiqueiro e o lugar onde trabalha.
Têmis pegou a
caderneta do fiado
, olhou a dívida de Martha: 13 cruéis.
- Pai! 13
cruéis, pai. O senhor me desculpe, mas não vou me prestar à tamanha baixaria
não. Escute só. A transparência diz respeito aos vencimentos recebidos pelo
servidor público. Não tem nada a ver com o que deve o infeliz. Aí chega o
senhor e inverte o princípio. Já pensou na vergonha que vai impor aos nossos
amigos. Não farei isso. Tô fora, pai.
- O princípio
é o mesmo, Têmis: criar uma onda. Ora se eu quero saber da vida dos outros!
Cada um que viva a vida dele. Minha mãe, Têmis, nunca soube quanto papai
ganhava. Seu avô, minha filha, ganhava bem, mas vivia cheio de dívida,
porquanto tinha doze bocas para dar de comer. O dinheiro do fim de mês não
esquentava o canto. Papai saía pagando a todo mundo, chegava bicado, batendo
biela. O que interessa é a diferença entre o que a pessoa recebe e o que paga,
entendeu? Então, se alguém está recebendo mais do que o certo, que o pagador
não pague acima do combinado.
Bom, o
princípio é o mesmo, dizia eu, minha filha. Os caras de lá dizem quanto a
criatura ganha, mas não dizem quanto ela gasta. Aqui a gente vai dizer quanto a
criatura gasta, mas não quanto ganha. Os caras de lá não querem fazer onda?
Pois vamos fazer a nossa também.
Você achou
pouco os 13 cruéis do calote da professora Marhta. Mas pra ela, Têmis, deve ser
muita coisa. Porém, se quisesse me pagar, dava pra ir pagando aos pouquinhos,
não dava? O seixo de Raimundo bico doce passa dos 500 cruéis. Faz mais de ano
que o caloteiro não aparece. E, dizem, o molestado recebe uma fortuna para não
dar um prego numa barra de sabão no tribunal onde dá expediente. Não temos nada
a ver com isso, não é verdade? E temos sim, mas com os azoretas que fazem as
leis e tornam a ilegalidade legal. Mas aí são quinhentos distintos dos que o
enrolão nos deve. Ah, depois, minha filha, você olha aí na internet o salário
de Bico Doce. Não, não! Não olhe não. Eu quero lá saber do ganho de ninguém!
Bem, continue
o serviço. Quando terminar bote a relação no portal da venda.
- Que portal,
pai? A bodega não tem nem computador, imagine portal.
- E quem diabo
tá falando em computador, Têmis? Cole a relação no portal, lá em cima, na
entrada, na porta de madeira. Entendeu agora? Pra falar nisso, você bem que
podia botar a lista no computador do tal de Gugo ou então no de seu namoradinho
sem futuro. Como é mesmo o nome do boga dele, minha filha? É Chiqueiro de
Prata, é?
Aí não prestou
não. Têmis caiu na risada:
- Boga, não,
pai! Blogue. E o nome do blogue de meu namorado é Pocilga de Ouro. Pocilga de
Ouro, compreendeu? Vou postar a lista nele, tá certo?
- Tá certo.
Pois diga! Quem manda seu namorado botar um nome desses? Só quero ver quando a
Globo chegar aqui. Vai ser o maior bufufu, não vai? Agora cuide, Têmis. Faça
bem feita a coisa. Quero transparência total, viu, minha filha?
Têmis
permaneceu rindo, pôs a caneta na boca e traçou um plano. Faria a listagem, mas
alteraria o nome dos devedores. Martha, por exemplo, ela alterou para Mirtha, e
Raimundo virou Edmundo.
Terminada a
tarefa, a lourinha Têmis apanhou uma escadinha, subiu quatro degraus e começou
a colar o papel.
Primeiro
chegou Assis caolho, em seguida Pedrão meiota, depois Chico de D. Chiquinha,
depois mais um, mais um, mais um... O amontoado masculina crescia, e crescia, e
crescia, e inchava, e aumentava, e se agigantava. Todos queriam ver a tal
listagem. Ou melhor, queriam ver os
dezessete aninhos da lourinha Têmis colando a listagem.
Têmis,
pessoal, tinha esquecido que ainda estava com a roupa de dormir. Usava um
chambrinho vermelhinho, de sedinha ralinha, curtinho. Uma ninfinha, enfim!
Transparência
total!
P.S 1- Seu
Bastinho viu aquele aglomerado de macho e foi ver do que se tratava:
“Cambada de pervertidos corruptos. Pra isso é que vocês querem transparência, é? Vazando! Circulando,
circulando. Mas antes tratem de tirar do bolso as bananas que me roubaram. Vamos, seus vagabundos”. Têmis olhou pra baixo, viu os sorrisos de
deleite, e só aí se lembrou de que costumava dormir sem calcinha.
P.S 2 – A
professora Martha é minha amiga, para quem bato palmas, conquanto exercer a
profissão origem de tudo e não merecer o reconhecimento dos aloprados não
transparentes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário